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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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FREGUESIA DA CABRAÇÃO: UM EXEMPLO PARADIGMÁTICO

Cabração (6)

CARLOS GOMES

in jornal “NOVO PANORAMA” nº 57, de 30 de Novembro de 2011

Desde que D. Afonso Henriques, junto à pequena ermida de Nossa Senhora do Azevedo, perante o capelão das freiras do Convento de Vitorino e dos seus próprios cavaleiros que o seguiam, demarcou couto na Cabração, não há memória de outro rei ou governante que ali tenha estado. Mesmo em relação a entidades com maior proximidade como governadores civis e até presidentes de câmara, contam-se certamente pelos dedos os que alguma vez visitaram a localidade, para além de alguns encontros furtivos com a população à saída da missa dominical, em tempo de campanha eleitoral.

Apesar da sua grande dimensão geográfica que supera alguns concelhos do país, o número de eleitores é actualmente quase insignificante: dispõe apenas de 155 habitantes numa área de 16,43 quilómetros quadrados. Em termos comparativos, o Concelho da Amadora possui 23,77 km2 repartidos por 11 freguesias. A área do Concelho de S. João da Madeira não vai além dos 8,11 km2. Em face da sua realidade demográfica, a Freguesia da Cabração deixou de eleger os membros da Assembleia de Freguesia, apenas reunindo o Plenário.

Em termos de funcionamento, os encargos financeiros da Junta de Freguesia da Cabração são irrelevantes uma vez que os seus eleitos não dispõe de funcionários, de Assembleia Municipal nem os seus eleitos permanecem a tempo inteiro ao serviço da autarquia. Porém, as suas vantagens são significativas uma vez que possibilita a resolução de problemas locais que, de outra forma, seriam esquecidos.

Durante muito tempo, a Freguesia de Santa Maria da Cabração viveu no mais profundo atraso e isolamento, inclusive em relação às demais freguesias do Concelho de Ponte de Lima. O péssimo estado da estrada e a ligação por autocarro de carreira apenas dois dias por semana impossibilitavam o emprego e forçavam os seus habitantes a partir para Lisboa ou o estrangeiro. Até a electricidade chegou tardiamente, em 1975, tendo sido das últimas localidades do país a beneficiar de electrificação.

Apesar da mudança de regime, a situação não se alterou significativamente. Em Ponte de Lima, a política continuou a ser discutida às mesas dos cafés do Largo de Camões, indiferente ao que se passava na miserável aldeia com a sua gente humilde e ignorante. E, durante as últimas décadas, foram os seus habitantes que resolveram os problemas como sabiam e podiam.

Aproveitando os recursos financeiros que a gestão dos baldios lhes proporcionou, construíram arruamentos, pavimentaram estradas, ergueram muros de protecção, pesquisaram nascentes de água e encaminharam-na para os depósitos a fim de efectuar a sua distribuição domiciliária. Em resumo, foram os seus próprios habitantes que decidiram meter mãos à obra e criar algumas condições de vida dignas nesta localidade.

Entretanto, no conforto dum gabinete ministerial em Lisboa, resolveram uns sujeitos perturbar a pacatez desta aldeia, traçando-lhe um destino que mais não é do que a entrega dos seus destinos a quem não vive no local nem sequer conhece os seus problemas. E, como um disparate nunca vem só e não querendo ficar atrás, começaram outros nas esplanadas do Largo de Camões a rabiscar um novo mapa político-administrativo para o Concelho de Ponte de Lima, inventando novas freguesias e congeminando a fusão das freguesias de Cabração, Estorãos, Moreira do Lima, Bertiandos, Fontão, Sá e S. Pedro de Arcos. Melhor seria que transformassem o Concelho de Ponte de Lima numa única freguesia…

A Freguesia de Santa Maria da Cabração é um exemplo paradigmático. Raramente, ao longo da sua existência, foi atendida nos seus anseios pelo poder central e até mesmo pelo próprio município de Ponte de Lima. Foram os seus próprios moradores que resolveram a maior parte dos problemas e promoveram os melhoramentos locais. A extinção dos seus próprios órgãos autárquicos vai transferir para um ponto distante a capacidade de decisão em relação aos assuntos que lhe dizem respeito, o mesmo é dizer que vai ficar votada ao abandono como sempre aconteceu por parte daqueles que agora pretendem traçar o seu futuro sem conhecerem minimamente a realidade, e quiçá a sua própria localização.

A actual lógica dos que nos governam – seja a partir de Lisboa ou das esplanadas do Largo de Camões – é a de acabar com tudo como se um país não fosse mais do que um mero balancete comercial. Se a natalidade diminui não se contraria essa tendência, antes se encerram as maternidades. E, nessa lógica, encerram-se as escolas, os hospitais e os centros de saúde. E, assim, um projecto de reforma administrativa que poderia apresentar resultados vantajosos se aplicado nas cidades transforma-se em arma de arremesso contra o próprio país ao ser utilizado como uma forma de promover o despovoamento do interior.

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