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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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SEBASTIÃO PEREIRA DA CUNHA: UM POETA VIANENSE

À data do falecimento do poeta vianense Sebastião Pereira da Cunha, o jornalista Manuel Barradas, na revista “O Occidente", periódico que se identificava como “Revista Illustrada de Portugal e do Extrangeiro”, publicou na sua edição nº. 640, de 5 de Outubro de 1896, a nota necrológica que a seguir transcrevemos.

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“Sebastião Pereira da Cunha era uma d’estas figuras que se impunham pela forma insinuante da voz, pela naturalidade do gesto e pelo olhar franco, leal, digno; e o modo elegante de dizer era sublinhado por um jogo de phisionomia tão expontaneo que, agradando, deliciava e interessava todos os que fruíam o encanto de com elle privarem.

O Saio de Malha foi a primeira produção sua que elle me enviou com uma captivante dedicatória, depois foi para Hespanha, percorreu a Andaluzia, e em Granada, a Cidade Vermelha, onde o grande poeta encontrou ensejo para que o seu bello talento se espandisse como para que o seu grande coração se revelasse.

O Saio de Malha é a admiração pelo passado que representa a grandeza de crenças do auctor.

A Cidade Vermelha é a revellação do homem erudito, do altruísta que só sabe ver o Bem.

O perfil da Moura, e do ultimo abecerragem como lhe chama o poeta, o celebre Boabdil de que a Hespanha conserva a histórica armadura rica, que é ainda um dos monumentos da armaria castelhana, representando mais uma das mil conquistas d’esse povo singular e extraordinário, que chegou pela Fé e pela Esperança a crear um império que obrigou o Rei Filipe II a dizer, e com razão que nos seus estados o sol nunca era no poente – isto quer dizer quanto incommensuravel era o seu poder.

Pois o nosso querido poeta, o nosso presado amigo Sebastião Pereira da Cunha foi procurar na rainha do Mediterrâneo ao seu ambiente, á sua perfumada atmosphera a inspiração para o seu grande poema.

E tão grande é elle como foi o seu coração de artista…

César de Padilla o sersonagem heróico, perfeitamente meridional, que deixa a perder de vista o celebrado conde de Montgomery, é… é elle… é o meu querido Sebastião Pereira da Cunha…

O talento e o génio não teem epochas. Que me importa que Isabel a Catholica vivesse há tantos séculos, e por esse tempo existisse um Sebastião pereira da Cunha que se chamou D. César de Padilla!

O arrojo do moço cavalleiro e a valentia do fidalgo corriam parelhas com o seu feliz engenho e com a sua protectora estrella.

O fraco, perdido, quebrado de animo e de corpo era Boabdil o sanguinário amador dos degolamentos no Pateo dos Leões.

No fim d’este poema que honra a literatura nacional, há, umas notas que accusando uma extraordinária modéstia do nosso querido poeta, revellam contudo um profundo estudo de tal ordem, e atingindo tal altura que o poeta se transforma em historiador fazendo lembrar com saudade os processos que Alexandre Herculano empregava no seu escrupuloso modo de escrever a História.

Resta-me ainda dizer que o nosso querido colega e íntimo amigo que brindou o seu paiz com um poema do valor do que ajuizadamente intitulou a Cidade Vermelha, lembra muito a correcção de Almeida Garrett, ainda que este, de princípio, eivado das leituras de Byron se affastou da norma nacional de Camões, D. Francisco Manuel de Mello, e outros, conservando porém o nosso Pereira da Cunha a linha que mais o aproxima d’estes d que d’aquelles porque, não sei se nos fazemos comprehender, o nosso Pereira da Cunha era a um tempo, erudito e apaixonado.

*

Nobre!? Attestava’o o seu carácter.

Fidalgo; vejamos o que nos dizem verdadeiras auctoridades.

Consultados, o saudoso D. António da Costa, o erudito Pinho Leal vejamos, não porque não soubéssemos, qual a linha genealógica dos Pereira da Cunha;

Representava por um ramo os Cunhas, senhores e actualmente proprietários da Torre solar de Cunha (concelho de Coura) aquella em virtude das luctas de epocha foi sequestrada à família Pereira da Cunha em 1370 e bem assim a de Vidigal e Silvares pelo rei D. Fernando o formoso por instigações da michela Leonor Telles.

Porém a 1463, o rei, que principiou de crear praticamente o nosso império africano, por isso que o verdadeiro iniciador fora o infante D. Henrique, um senão o mais notável, filho do bom rei D. João I, e fallamos assim porque Afonso V, o percursor do grande D. João II, entendeu restituir à família Pereira da Cunha tudo que a michela Leonor Telles, pela sua intriga, tinha obtido do pobre D. Fernando o formoso.

*

Por outro ramo Sebastião Pereira da Cunha descendia ainda dos senhores da Casa do Paço de Anha, próximo de Vianna do Castello.

N’este palácio dos Pereira da Cunha deu-se um facto histórico notável: – o célebre prior D. António do Crato, acclamado rei em Santarém ali esteve escondido no anno de 1580, depois do desastroso encontro na ponte de Alcântara com o duque de Alba representante do demónio do sul, como diziam os puritanos da velha Flandres.

Pela linha materna Sebastião Pereira da Cunha procede dos antigos marquezes de Bellas e dos senhores de Entre-Homem e Cavado; e, sendo grande de Hespanha de primeira classe, pertencia-lhe o título de Marquez de Mortára de Zarsigal.

Mas para que insistir n’este ponto?...

Quem não conhece o poeta do Primeiro Alvor, a Tarde de um César o poemeto Heroes d’Africa para não ver através do fidalgo que tanto honrou terras portuguezas, o grande poeta que só portuguezes o podem apreciar.

Um admirador de Sebastião Pereira da Cunha… e elle tinha tantos que não admira, na minha dor, eu não poder conservar-lhe o nome! Dizia:

- “Admira que este génio, embalado em nobilíssimo e dourado berço, viesse esconder-se no seu castello solitário de Santa Martha, na foz do Lima, n’estes tempos em que tantos alardeiam nos prelos, nos atheneus, nos clubs e nos botequins, de possuírem portentosos talentos. Escondem-se os brilhantes e brilha a vidraçaria”.

*

Sebastião Pereira da Cunha nasceu em 9 de Fevereiro de 1850 em Vianna do Castello.

Casou em 1869 com sua prima a exmª srª D. Maria Amália d’Almada Cyrne Peixoto, filha dos condes de Almada; d’esta gentilíssima senhora enviuvou em 3 de Março de 1881.

Não podemos deixar de transcrever algum trecho do notável poema A cidade Vermelha.

Quando Boabdil pede paz aos reis de Castella Fernando e Isabel, o nosso poeta diz:

Vimos pedir a paz; a paz só desejamos

E, em prova da amizade, agora te mandamos

Dois corseis alasões,

Jaezes de valor, e nobre cimitarra

Que tanta vez bbrilhou nos cerros de Alpujarra

No Pateo dos Leões.

*

O nosso querido Sebastião Pereira da Cunha, tinha um escrúpulo em tudo que tocasse a responsabilidade histórica; e, por isso a auctorisar a verdade histórica do que se affirmava n’estes soberbos versos diz:

O rei Boabdil, escrevendo a Fernando V, e propondo-lhe uma capitulação, envia lhe dois cavallos, uma cimitarra e alguns jaezes. Tanto a proposta (de paz) como a offerta foram enviadas no dia 1 de Janeiro de 1492 (Historia General de España de Ivan de Mariana).

Como vêem, meia dúzia de versos é mais do que o preciso, seguidos de notas d’esta ordem, para dar o alto valor histórico do poema, e a vasta e sólida erudição do auctor.

*

Dissemos do escriptor tudo que elle valia, mas do homem, do amigo, teríamos de escrever volumoso livro para dizermos tudo que elle era no trato intimo, onde só se percebia que não era uma palavra vã – a sinceridade.

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