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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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A voz e as pronúncias no contexto social e cultural

Como é sabido, o Homem emprega a sua voz como um instrumento musical, porventura o primeiro que “inventou” e utiliza. Tal como a criança ausculta com espanto e curiosidade os sons que emite antes mesmo de conseguir articular as primeiras sílabas, também a humanidade começou por perscrutar os sons da natureza e procurar imitá-los. Mais ainda, através deles tentava identificar aquilo que não via na esperança de entender o seu significado. Afinal de contas, tudo o que ouvia e cuja origem não era perceptível à sua visão e tacto só poderia ter origem em algo que o transcendia, portanto superior e divino. E, por conseguinte, a voz humana apenas poderia ser utilizada para louvar ao Criador da mesma forma que, no período barroco, a música e, de um modo geral toda a forma de arte, destinavam-se a glorificar a obra de Deus.

Mas a voz não constitui apenas um instrumento musical ao ser utilizado como tal. Trata-se ainda de um meio de comunicação e, nessa medida, destina-se a exprimir ideias e sentimentos que naturalmente reflectem formas de estar e de entendimento. Porém, sucede que, de acordo com os textos bíblicos, Deus confundiu os povos ao dotá-los de diferentes linguagens, levando a que estes se dispersassem e abandonassem a obra que haviam iniciado e que consistia na construção de uma enorme torre que haveria de ligar a terra ao céu, o mesmo é dizer religar o Homem ao Divino – a torre da religião universal.

Enquanto instrumento de comunicação, a voz transmite fonemas que nos remetem para uma determinada cultura que identifica o seu portador, não apenas através da utilização de diferentes idiomas como ainda da revelação de pronúncias diferenciadas dentro do mesmo contexto linguístico. Com efeito, a pronúncia ou acentuação característica não constitui uma deformação da forma de comunicar mas antes um legado cultural que é transmitido ao longo de gerações, precisamente através da comunicação oral, sendo determinante a vivência em sociedade. De resto, não existe qualquer forma padronizada de comunicação que possa ser entendida como a expressão verbal correcta e, portanto, a imitar.

A diferente forma de pronunciar que, em todas as culturas, diferencia as diferentes comunidades locais ou regionais, permite não raras as vezes identificar formas dialectais que se encontram na origem da língua utilizada por um determinado povo ou mesmo a antecederam. Existem ainda formas de acentuação verbal que constituem marcas da comunicação que revelam o encontro de diferentes culturas em resultado de factos históricos. Não admira, pois, que detectemos a influência flamenga no falar micaelense ou ainda extraordinárias semelhanças entre a pronúncia dos aldeões do Alto Minho e a forma peculiar dos vizinhos galegos se exprimirem. No sentido inverso, registamos uma notável diferença na pronúncia do r entre as gentes de Coimbra, Lisboa e Setúbal, facto este a que não será alheia a influência árabe.

Por conseguinte, a pronúncia constitui um elemento característico que identifica um determinado povo e, como tal, deve ser preservado no contexto da sua identidade cultural e do seu património linguístico. O seu emprego no âmbito da música tradicional e outras representações folclóricas deve ser observado pois, de outro modo, perderia o seu sentido e a sua significação. Seguramente o cante alentejano seria irreconhecível sem a pronúncia que é característica às gentes do Alentejo!

Durante muito tempo, subsistiu um determinado preconceito que levava muitas pessoas a procurar desesperadamente corrigir a pronúncia que lhes identificava as origens, esforçando-se por imitar o modo de exprimir do lisboeta porque, sendo este citadino e oriundo da capital do país, se supunha erradamente que essa seria a forma correcta de se exprimir. Este fenómeno também se encontra naturalmente relacionado com os fluxos migratórios verificados a partir das localidades do interior para aquela cidade, ocorridos sobretudo desde os finais do século XIX. Sucede que, à parte as diferentes comunidades que formam o mosaico cultural de Lisboa, também as suas gentes alfacinhas possuem um falar característico que é localizável principalmente nos bairros históricos o qual, de maneira alguma poderá ser considerada como a forma padrão de se exprimir na Língua portuguesa.

Existe ainda quem refira a pronúncia de Coimbra como referência do modo falar alegadamente correcto, justificando-o com a existência secular da Universidade de Coimbra. Porém, é ponto assente que a Língua portuguesa teve no cancioneiro medieval galaico-minhoto as suas origens, beneficiando da influência da poesia provençal e da sua irradiação graças aos peregrinos que percorriam os caminhos para Santiago de Compostela. Da mesma forma que a Reconquista Cristã a partir dos reinos visigodos estabelecidos no noroeste peninsular fizeram do Minho a nossa primeira Pátria, num espaço de tempo histórico relativamente coincidente. Mas ela não se limita às primitivas influências do latim, do árabe e dos dialectos germânicos – a Língua portuguesa construiu-se em contacto com inúmeros povos, sobretudo a partir das Descobertas, dos quais também recebemos vastíssimos conhecimentos e conceitos, enriquecemos o vocabulário e assimilámos novas gentes que trouxeram consigo os respectivos falares. Aliás, foi precisamente esta epopeia somada à época moçárabe ou seja, o período no qual os cristãos viveram sob o domínio muçulmano, que leva às diferenças actualmente existentes entre o Português falado em Portugal e na Galiza, distinção que os reintegracionistas galegos têm procurado ultrapassar.

É certo que a sociedade moderna reclama dos indivíduos uma melhor comunicação e clareza na exposição das ideias, o que exige uma forma de expressão entendível. Os núcleos populacionais já não vivem de uma forma tão isolada como outrora sucedia, sendo necessária a utilização de uma linguagem que toda a gente entenda. Daí a razão, aliás, de uma crescente aquisição de conhecimentos ao nível de línguas estrangeiras, situação que não se verificava em épocas mais recuadas. Mas, para além da clareza da comunicação na forma de falar, nada mais justifica o abandono e supressão das pronúncias regionais e locais. Para além de constituírem objecto de estudo no domínio da linguística, elas são tanto mais importantes no domínio da preservação do folclore, mormente na utilização da voz como instrumento musical e de transmissão de cultura. Aliás, à semelhança do que se verifica com a linguagem corporal enquanto forma de comunicação, a transmitir o carácter e as ideias de personagens-tipo que o folclore representa.

GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/