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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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CLÁUDIO BASTO: O QUE DISSE O ETNÓGRAFO A PROPÓSITO DA MULHER DO MINHO?

Sob o título “A Mulher do Minho”, o etnógrafo vianense Cláudio Basto publicou um interessante artigo, na edição nº 13/15, de Jan/Mar de 1924, da revista “Alma Nova”, o qual seguidamente se reproduz. O artigo é ilustrado com desenhos de Couto Viana.

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“A denominação provincial de “Minho” não corresponde, em boa verdade,a  uma região distintamente definida, diferenciada, - nem a ideia vulgar a respeito deste Minho corresponde com exactidão á realidade.

Em regra, associa-se a Minho a ideia de campos, milharais, cortados ou emmoldurados de videiras, e ao longe manchas de pinhais que alastram pela ondulação dos montes.

O Minho, porém, não oferece um aspecto uniforme. Quem o quiser conhecer, ter dele uma rigorosa noção de conjunto, dever-lhe há percorrer as margens dos rios, a beira-mar e as montanhas. Verá como a província é de  aspecto vário, de vário pinturesco. Verá o contraste entre as margens harmoniosas, luminosas, de um Lima sereníssimo, e as margens ásperas de um Coura, a saltar por meio de alcantis, espécie de Corgo que vai, não rugindo espumas – é certo –, mas gargalhando, contente do verdume que lhe adorna e adoça as asperezas do vale… Verá a estrada de Viana até Caminha, a correr perto do mar, numa veiga plana, fértil até à babugem das ondas, – e a estrada corcovada que de Monção leva aos Arcos-de-Valdevez, aberta na ilharga de um vale fundo, majestoso, amparado por montanhas íngremes, mas em que os barrancos são emplumados de vegetação e em que os próprios penedos, enormes, de formas curiosas, parece havê-los Posto ali a natureza num poético jeito de arte… Verá as paisagens das serranias: lugares ermos, lugares povoados, terras de cultivo… Verá, enfim, espectáculos diferentes, bravezas e jardins, – mas por toda a parte dominará a cor verde, em tons inúmeros, desde o verde tam verde dos Linhares até ao verde-amarelo das vinhas e ao verde-negro dos pinheiros…

O verde – o riso da terra – é a característica, para assim dizer, da região minhota, – porque sempre a linda cor, em mil gradações, nos altos e nos baixos, por montes e vales, surge como promessa de alegria e fertilidade.

Olhando, porém, para fora dos limites políticos do Minho, alongando a vista por terras durienses, terras irmãs se divisam, – dando razão aos que, noutros tempos, se casavam a todas num lógico Entre-Douro-e-Minho, a região Verde de Portugal! (Sem falar, claro é, nas terras de além do Rio Minho, – por onde a nossa província afigura prolongar-se…)

A ideia vulgar a respeito do “Minho” não corresponde, pois, com rigor à verdade, – nem tal denominação corresponde, por maneira alguma, a uma região nitidamente diferenciada.

Abstraiamos, no entanto, do artifício dos limites minhotos, – pois que esta província é, no território interamnense, a porção de terra predominante e que afinal o caracteriza.

Assim, como não há um Minho de aspecto uniforme, também não há um tipo de minhoto, – um tipo de mulher minhota, no caso restrito de que neste momento se trata.

Os elementos raciais, primitivos e supervenientes misturaram-se em diversas proporções: confundiram-se aqui, além; prevaleceram uns ou outros, salientes, ali, acolá; – não há um tipo humano definido, normal, em última análise. Nuns pontos, como em Castro-Laboreiro, – freguesia insulada lá longe, entre serras, – há representantes da raça pequena dolicocefálica que forma o núcleo autóctone da gente portuguesa; noutros pontos do Alto-Minho há representantes da raça braquicefálica de Grenelle; noutros lugares, como em Afife, em Ponte-de-Lima, notam-se representantes da raça nórdica… Sítios há, como em Perre, nos quais, – por se efectuarem os casamentos quási só entre a sua população, obediência a um velho uso tradicional, – a população adquiriu e mantém caracteres especiais, locais, inconfundíveis.

A antropologia minhota, a não ser em poucas e limitadas regiões, está sem estudar. O estudo antropológico da província, completo e metódico, ratificará por certo largamente o que deixo dito, mal fincado na minha superficial observação e nos parcos elementos que Fonseca Cardoso nos ministra respeitantes ao caso.

 

Á luz da sciência não há, pois, um tipo de mulher minhota, – e  não o há comàticamente, como o não há nas maneiras, na cultura, nem sequer no vestuário…

Desde a castreja rude, com a sua escura saia de fuloado, o seu singuidalho, a sua capela na cabeça e as suas chancas de pau atadas aos pés por correias, até à afifana, branca e bonita, esbelta e flexuosa, perfeitamente senhoril no seu vistoso traje aldeão e na sua breve chinelinha, há um sem-número de tipos femininos.

Mas se, em tais condições, não podemos conseguir um tipo, podemos criá-lo psicologicamente, à custa do interior, do íntimo das mulheres minhotas: pela sua actividade intensa e tenaz, pela sua resistência a fadigas sem conto, pela sua alegria tantas vezes ruidosa, – pelo seu trabalho contente, enfim.

Se o verde é a cor característica da terra minhota, o trabalho – o trabalho contente – é a qualidade característica da mulher do Minho.

(Vamos supondo que realmente existe um Minho…)

No perfil da minhota, ainda podereis achar típico o seu amor ao “ouro” – com que se enfeita exuberantemente e onde entesoura os seus capitais, o seu dote de noiva, as suas economias de esposa e mãe – o seu apego aos arraiais, onde namora, canta e baila por tempo esquecido; a sua predilecção por cores vivas, “berrantes”, com que, sobretudo no concelho de Viana, garridamente se veste – mas o que na Mulher minhota achareis acima de tudo, como verdadeiramente típico, é o seu amor ao trabalho, que executa satisfeita, alegre.

É vê-la em casa: cozinhando, fiando, tecendo o linho, a estopa ou a lã; compondo a roupa; preparando o cesto para ir feirar e “armar” o dinheiro preciso para os “arranjos”… É vê-la fora de casa: nos moutes, à caruma, à carqueja, às pinhas, ao mato; no desabrigado dos campos, amanhando a terra ou apascentando o gado; no mar, entre os penedos, toda molhada, apanhando o argaço para estrumar as terras; pelas estradas, guiando o carro-de-bois e às vezes fiando simultaneamente para melhor “aproveitar o tempo”; e até em serviços de carga e descarga de navios e vapores, de comboios e carros, entregue a labutas pesadas, pesadíssimas…

E sempre cantando, sempre satisfeita e alegre!

Canta durante o trabalho; canta ao ir par ao trabalho; canta à tardinha, leve e ligeira, recolhe a casa!

Não +e, todavia, apenas assim que a minhota ajuda o homem – ou, equivalente, o substitui.

Pode o homem ir para longe, para a Espanha, para a França, para o Brasil, para a Califórnia, para o inferno – que a mulher ficará em casa não só dirigindo oss serviços domésticos, tratando dos velhos e das crianças, mas ainda olhando pelos bens, cuidando das terras, atendendo solícita, de mótu-próprio, sozinha, a tudo, a tudo, sem sacrifício, com prazer, cantando – e só por vezes, ao clarão vermelho do sol morrente, nesse canto que evola do seu coração a saudade de Aqueles que longe, lá muito longe, em terras estranhas, também moirejam por ela e para ela…

Viana-do-Castelo

18-Outubro-1923

Cláudio Basto”

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