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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ROMARIAS DE PORTUGAL

Chegou o Verão e com ele as festas e romarias que se realizam um pouco em todo o país, desde os grandes aglomerados urbanos que viram a sua festa crescer e atrair forasteiros aos mais recônditos lugarejos que reclamam a presença dos seus filhos muitas vezes emigrados em paragens distantes, mas sempre conservando na alma a devoção e o amor à terra que os faz regressar ao menos na festa da padroeira. Em Julho vai-se em romaria a São Bento de Seixas e a Santa Rita de Cássia, no concelho de Caminha; à Senhora dos Milagres em Castelo de Paiva, a S. Torcato em Guimarães e a Santiago em inúmeras localidades do país, devoção esta muito provavelmente relacionada com as antigas peregrinações a Compostela e os caminhos outrora trilhados pelos peregrinos.

De resto, as romarias constituem um costume religioso cujas origens perdem-se nos tempos. Já na antiguidade, era costume dos povos antigos deslocarem-se em peregrinação aos seus deuses, como aliás sucedia na Grécia onde se deslocavam ao Olímpo e a outros lugares sagrados e consultavam as pitonisas. Tal costume adquiriu entre a cristandade novo fôlego a partir da idade Média, altura em que a devoção e o fervôr religioso levava de peregrinos de todo o mundo a calcorrearem milhares de quilómetros a fim de visitarem as relíquias de Santiago, em Compostela, S. Pedro e São Paulo em Roma ou o Santo Sepulcro, em Jerusalém. Aliás, da mesma forma que os muçulmanos se obrigam a ir a Meca e os hindus a banharem-se no rio Ganges ou deslocarem-se ao pagode de Badrinate.

Ía-se em peregrinação a Compostela como agora vai-se ao santuário de Fátima, na Cova da Íria, com a diferença de que o peregrino de então não se deslocava em cumprimento de qualquer promessa - procurava, unicamente, nascer espiritualmente de novo para a vida. E resultou daí toda a simbologia em torno das vieiras que utilizava no baptismo e que o peregrino trazia desse sítio onde outrora se julgava que a Terra terminava (Finisterra) e um maravilhoso Campo de Estrelas (Compostela) se formava nos céus onde mais tarde se ergueu a grandiosa catedral.

Em geral, as festas e romarias que se realizam desde tempos ancestrais têm a sua origem em cultos pagãos que frequentemente se realizavam em antigos santuários que deram origem a pequenas ermidas e novos templos cristãos, em torno dos quais se reza, canta e dança como muito provavelmente outrora se fazia. Macarius em Paredes de Coura e Laraucus (Larouco) em Montalegre eram divindades pagãs veneradas pelas comunidades respectivas na era pré-cristã.

A adoração ao Menino Jesus deriva muitas vezes do culto ao deus Endovélico e Santa Marta de um culto a Marte, deus dos campos e da fertilidade antes de se ter tornado deus da guerra.

Mas a romaria é também pretexto para a festa, para a estúrida e o arraial.

Logo de manhã cedo, os gaiteiros anunciam com o rufar dos seus bombos que a jornada está para durar. É tempo dos mais novos arranjarem namorico e se divertirem enquanto os mais velhos chegam-se para as barraquitas de comes e bebes onde refrescam as goelas com umas apetecidas malgas de verdasco. Os caminhos enfeitam-se de arcos e festões. Vende-se cavacas e rosquilhas.

Quem vai ao S. João d’Arga não prescinde da famosa aguardente com mel. Os cantadores fazem o gáudio do povo e, não raras as vezes, o desafio termina em pancadaria. E dança-se até a festa acabar que pode ser quando o sol despertar. Os céus iluminam-se com girândolas e lágrimas que fazem o orgulho do fogueteiro minhoto. E, quando a festa termina, depressa se reúnem os ranchos de gente que se haviam formado no dia anterior para a romaria. E lá vão todos abaixo, levando já consigo a saudade e a mente a fervilhar de sonhos. Para o ano, regressarão ao local, venerar o mesmo santo e reviver os momentos passados, pelo que é necessário que se façam novas promessas.

São centenas, talvez milhares, as festas e romarias que se realizam em Portugal durante os meses de julho, agosto e setembro, culminando este ciclo com as Feiras Novas e a Senhora dos Remédios, em Lamego. É tempo de romaria. Em breve chegarão as vindimas e as adiafas. Até lá, subamos aos terreiros e dancemos a chula e o vira, o corridinho ou o fandango, as saias e as tiranas. Cumpramos as promessas aos santos da nossa devoção e, sobretudo, preservemos a tradição que confere a nossa identidade como povo.

Carlos Gomes in http://www.folclore-online.com/

Guimarães (5)