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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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NOS PRIMEIROS ANOS DA REPÚBLICA, OS “DEMOCRATAS” NO ALTO MINHO ENVOLVEM-SE EM LUTAS DE GALOS NA DISPUTA PELO PODER

Pouco tempo decorrido desde a implantação do regime republicano, a ambição do poder fracionava o Partido Republicano Português, vulgo Democrata, e originava lutas internas que na maior parte das vezes não passavam de “lutas de galos” pela conquista do poleiro. Tais disputas fizeram-se particularmente sentir em 1915, no Distrito de Viana do Castelo, onde o então Capitão Raimundo Meira era o principal chefe dos democratas na região. Manuel José de Oliveira e Francisco de Abreu Coutinho, ambos correligionários do mesmo partido, travaram uma disputa violentíssima nas páginas dos jornais em virtude da escolha do candidato a deputado pelo círculo de Ponte de Lima.

Raimundo Meira foi o principal organizador do Partido Republicano no Distrito de Viana do Castelo

Manuel José de Oliveira era natural de Vila Verde e exercia a profissão de médico municipal em Ponte de Lima. Foi deputado à Assembleia Constituinte e, mais tarde, feito senador pelo círculo de Ponte de Lima. Por motivo de doença grave, comunicou a Raimundo Meira a desistência do lugar de deputado pelo círculo de Ponte de Lima. Porém, ao tomar conhecimento de que o governador civil do Distrito de Viana do Castelo tencionava candidatar Francisco de Abreu Coutinho, Manuel de Oliveira insurge-se e transmite por escrito a Raimundo Meira o seu desagrado nos seguintes termos:

“Meu caro e prezado amigo

Estive ontem em Viana com o novo Governador: Afigura-se que lhe meteram na cabeça apresentar o deputado Abreu nas próximas eleições e pareceu-me que pensa em aproximar-nos! A situação irredutível não foi criada por mim, mas pelo próprio Abreu, salientado pelo próprio pasquim violentíssimo que contra mim publicou. Prezo-me de ser homem digno e de honra e o partido terá que escolher entre mim e o Abreu que aliás pouco ou nenhum valor político possui.

A situação que ele tem actualmente a mim ma deve, sabe-o Vexa. Tive que me impor para que os corpos dirigentes do partido lhe circuitassem a candidatura. Contra toda a expectativa saiu o que se vê. As comissões daqui não votaram a sua candidatura e caso ela seja sancionada, abandonarão o Partido democrático pois consideram uma afronta o nome desse indivíduo. Conviria que as comissões políticas deste círculo estivessem informadas do que se passa: não me vale a mim dá-las porque poderei parecer suspeito e por isso a Vexa recorro, como bom republicano e verdadeiro dirigente da politica distrital, para que os informe e lhes diga quem é o deputado Abreu e qual a situação do Partido em Ponte de Lima, caso a sua candidatura seja patrocinada por essas comissões.

Aguardando sempre as suas ordens e com a maior consideração e estima

Manuel de Oliveira”

Esta carta vem no seguimento de um “pasquim violentíssimo” contra si próprio dirigido, conforme aliás refere na carta, com o seguinte teor:

“Ao Médico Manuel Oliveira

No último número do “Comércio do Lima” esvurmou as suas baboseiras sua excelência “A Sumidade”. Não satisfeito com o desprezo absoluto a que maior parte das gentes de senso o tem votado, pretende dar sinais de vida piando as suas sandices nas colunas duma gazeta suja. Traz ainda afivelada ao rosto a máscara que sempre usou como boa figura de Entrudo que é, mas a sua língua viperina escorre o veneno preciso para que imediatamente o possamos conhecer. Pena é que as três cruzes que rematam a tal boa nova, inserta no último número da desqualificada gazeta, não estejam marcadas a fogo na testa do inconfundível charlatão. Constituiriam um excelente aviso a todos aqueles que, por qualquer motivo, tivessem de aproximar-se da cómica personagem.

Nos artigos que publiquei há tempos no “Cardeal Saraiva” chamei por mais de uma vez a uma luta leal e franca no campo da imprensa esse politiqueiro das dúzias que constantemente oferece nas suas ridículas megalomanias, os melhores assuntos para revistas de ano nos barracões de feira. Nunca apareceu o conspícuo esgrimista da sombra, ao combate leal e decisivo onde cada um dissesse placidamente de sua justiça para que o publico afinal sentenciasse, prefere a situação acomodatícia do anonimato na errada suposição de que assim fugirá à responsabilidade das suas façanhas de baixo estofo.

Engana-se.

Não satisfeito ainda com a primeira carga que apliquei nos científicos lombos de sua excelência, mostrando aos leitores do “Cardeal Saraiva” o quanto ele para aí pretendeu intrujar a respeito da estrada da circunvalação, aguardo para nova carga, a esplêndida ocasião que em breve me oferecerá de rebater os desconchavos que, a meu respeito, o potentíssimo sábio se permitiu despejar.

Relatarei então as suas deslealdades, as suas garotices e a sua desvergonha; explicarei os seus processos de politiqueiro barato e charlatão que se julga com competência para tudo na sua “vaidade” pasmosamente imbecil; examinarei uma a uma as suas descabeladas acusações que a meu respeito, escondidamente, se permitiu fazer, as quais esse trapalhão vulgar não tem coragem de trazer à imprensa, e por último farei a história das célebres cómicas representações dirigidas à importantíssima pessoa, que ele próprio mendigou e compôs, nos recônditos da sua imensa biblioteca de sábio, ao som dos apoiados alvares da camarilha que o rodeia, e que apenas tem servido para provocar a gargalhada, criando-lhe o direito indiscutível de ser considerado o melhor exemplo da bobice contemporânea. Depois tudo trarei a público, e explicarei mais, com inteira precisão o que entre mim e a referida “Sumidade” se tem passado, e as suas causas, relatarei o que houve com relação à proposta do meu nome para deputado da nação, quais são os pretendidos favores que o grande sábio diz ter-me prestado e quais os que ele recebeu de mim em três anos de politica (a fim de que, em saldo de contas, se apure qual de nós é o credor) e narrarei os últimos pormenores sobre o caso da estrada da circunvalação (do qual, assim como de outros, o mesmo sábio tem feito verdadeiros contos do vigário), sobre a eleição da câmara e sobre a eleição da misericórdia – na qual o poderosíssimo influente político obteve aquele grrrandesíssimo triunfo que todos conhecem e tiveram a ocasião de admirar.

Por agora, desafio a que venha declarar na imprensa quais são – as ambições e os inconfessáveis interesses particulares – a que se refere na sua arenga de Domingo, o arranjista médico municipal, o tiranete de papelão, o ridículo Sancho Pança, o médico com quem todos os seus colegas desta vila estão – uns de relações cortadas, outros de relações frias, o bobo de comédia, que há muito diz que vai embora e que vende a casa mas tudo diz e faz para inglês ver, o politiqueiro de três ao vintém a quem meia dúzia de insignificantes, que giram em torno de si, a toda a hora proclamam como o político mais arguto do país, o homem mais fino da Europa, e o milagreiro maior do mundo.

Se não responder ao desafio que lanço, explicando-se com clareza, ficará considerado o mais vil caluniador.

De resto, pode à vontade o sapientíssimo homem de Marrancos continuar com as suas alfinetadas. Tenho a minha pena para lhe fustigar as untuosas e científicas costelas.

Outubro de 1914Francisco de Abreu Coutinho”

Fonte: http://cartasportuguesas.blogspot.pt/