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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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FERIADO MUNICIPAL DE PONTE DE LIMA DEVE SER CELEBRADO EM HONRA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

Carlos Gomes

in Jornal "NOVO PANORAMA" nº. 66, de 5 de abril de 2012

http://novopanorama.pontedelima.com/

A questão a saber qual dos dias – Nossa Senhora das Dores ou o da atribuição do Foral por D. Teresa – deveria ser instituído como feriado municipal de Ponte de Lima, leva-me a tecer algumas considerações esse propósito. Colocando de parte a falta de coincidência da data da realização das Feiras Novas relativamente à festa litúrgica de Nossa Senhora das Dores, tomemos esta como referência para as celebrações e festividades que anualmente se realizam no concelho limiano.

Desde o começo da sua existência, o Homem procurou sempre encontrar explicações para os fenómenos do mundo que o rodeia, desde a sua origem às alterações resultantes das ações climáticas e das estações do ano que interferem no ciclo de renascimento da natureza e dos vegetais, essencial à preservação da vida e à sobrevivência da comunidade humana. E, em todas as culturas, a explicação encontra-se na vontade dos deuses cuja ação criadora deve ser celebrada para assegurar a sua continuidade. E, desse modo, através do rito, o Homem participa na sua ação criadora, o mesmo é dizer perpetuando através da tradição o ciclo de perpétuo renascimento da vida.

As festividades populares que chegam até nós, mormente as festas e romarias populares, têm a sua origem nas mais remotas crenças dos nossos ancestrais que nos foram transmitidas graças à sua preservação sob a forma de manutenção da tradição. Ao longo dos tempos, foram adquirindo novas formas, nomeadamente as que resultam da nossa conversão ao Cristianismo, mas ainda assim conservando a essência da sua celebração e o seu real significado. Quer isto dizer que as festas que o povo realiza aos seus padroeiros e santos venerandos constituem celebrações cujas raízes mergulham no que de mais profundo existe na razão humana.

Desde os finais do século XIX tem vindo a assistir-se à tentativa de sobrepor um novo tipo de celebrações, mais de caráter cívico, procurando de algum modo substituir as tradicionais festividades religiosas do povo e, desse modo, instituir uma “religião cívica”. Inserem-se nesse plano as festividades do “dia da árvore” e a comemoração de efemérides de caráter político geralmente estabelecidas como feriados oficiais como a data de atribuição da carta de foral ou a elevação de uma localidade a freguesia, vila ou cidade. Não raras as vezes, o empenho vai ao ponto de pretender-se substituir as datas festivas dos próprios feriados municipais cuja instituição tem na origem a mais profunda tradição popular.

Esta tentativa de falsificação vai ao ponto da invenção de novas letras e novas coreografias para o nosso folclore, numa clara manifestação de propaganda municipal e turística que nada tem a ver com as verdadeiras tradições locais mas antes com operações de marketing.

Em regra, a comemoração de tais efemérides não colhe a adesão do povo porque, na realidade, não passam de construções artificiais que nada têm a ver com a sua forma de encarar o mundo que o rodeia, resultando apenas de sucessos políticos que pouco o nada alteram o seu modo de vida. Não são as posturas municipais nem os decretos governamentais que vão suprimir a religiosidade do povo português. Este continuará sempre devoto aos seus santos padroeiros e a festejar os dias que lhes são consagrados, da mesma forma que os nossos ancestrais veneravam as mais misteriosas forças da natureza com a mais profunda veneração que devotavam aos deuses que as representavam. Ninguém duvidará que a uma eventual transferência do feriado municipal de Ponte de Lima para o dia 4 de março jamais lograria obter a aceitação da maioria dos limianos ao ponto de suplantar a festa em honra de Nossa Senhora das Dores da qual se originaram as Feiras Novas.

As festividades locais devem sempre ter em consideração a religiosidade do povo e, por conseguinte, combinar a componente profana e cívica com a tradição cristã e a devoção popular. Sem a participação da Igreja ou seja, da comunidade cristã, com os seus andores e pendões e sobretudo a sua devoção, nenhuma festa assume um caráter verdadeiramente popular por mais importante que seja a efeméride que se pretenda celebrar. Encontra-se, naturalmente, neste caso a celebração da atribuição do foral a Ponte de Lima por D. Teresa, acontecimento que deve ser sempre celebrado como uma manifestação cívica de profundo significado histórico mas jamais com ela pretender substituir aquela que está na origem das Feiras Novas.

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