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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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DEPUTADO DA ASSEMBLEIA NACIONAL, EM 1970, CONSIDEROU QUE PODERIA TER SIDO EVITADA A PERDA DA ALDEIA DE VILARINHO DA FURNA

As consequências da construção no rio Cavado da barragem de Vilarinho da Furna, mormente para a aldeia de Vilarinho da Furna e as suas gentes, não mereceram especial atenção da parte dos deputados da Assembleia Nacional. De uma maneira geral, mostraram-se particularmente mais interessados nas vantagens que o “Plano Internacional de Fomento para 1965-1967” que previa a sua construção trazia para o país.

Apesar disso, o problema foi levantado pelo deputado Nunes de Oliveira, na sessão da Assembleia Nacional, realizada em 29 de Abril de 1970, referente à X Legislatura, a propósito da discussão na generalidade da proposta de lei sobre a protecção da Natureza e dos seus recursos. O referido parlamentar era natural de Barcelos, doutorado em Farmácia e professor universitário. Presidia à Comissão Concelhia de Barcelos e era Vogal da Comissão Distrital de Braga da União Nacional. Foi por diversas vezes deputado à Assembleia Nacional e foi ainda Procurador à Câmara Corporativa por designação do Conselho Corporativo.

Em relação à sessão da Assembleia Nacional da qual se transcreve uma passagem da intervenção do Dr. Nunes de Oliveira, a mesma era presidia à referida sessão Carlos Amaral Netto, e secretariada por Silva Pereira e Mota Amaral.

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Joaquim José Nunes de Oliveira, deputado à Assembleia Nacional 

“Sr. Presidente: A proposta de lei em discussão corresponde, como, aliás, se afirma no bem elaborado parecer da Câmara Corporativa, a uma necessidade nacional, não podendo deixar de suscitar, por tal motivo e pelas razões a seguir aduzidas, o meu natural interesse como Deputado eleito pelo círculo de Braga.

Em intervenção efectuada na última sessão legislativa da IX Legislatura, sobre alguns aspectos turísticos da minha região, referi o caso específico do Parque Nacional do Geres, o qual antevia, como primeiro parque nacional português - com possibilidades de grande êxito, até porque a quase totalidade dos terrenos -abrangidos pêlos distritos de Viana do Castelo, Braga e Vila Real, nas serras da Peneda, Amarela e Geres -, numa área aproximada de 50 000 ha, já se encontram submetidos ao regime florestal.

E portanto, com vivo regozijo que vejo aproximar-se o momento de concretização de um sonho de há longos anos, cujo início se pode situá-la na publicação do Regulamento dos Serviços Florestais da Serra do Geres, no Diário do Governo, n.° 295, de 26 de Dezembro de 1888. Os anos decorreram e em 1939 é aprovado o projecto de arborização do perímetro do Geres, altura em que claramente se reconhece a necessidade do parque nacional. E com o pensamento na realização de uma obra que permitisse aproveitar a incomparável dádiva com que a Natureza dotou aquela região do Nordeste português, encetou a Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, através dos seus distintos técnicos e bem apoiada pelas autarquias locais, estudos que nos garantem, ao apreciarmos esta proposta de lei, a certeza de que podemos contar, de seguida, com o primeiro parque nacional, o qual representará um forte pólo de atracção turística de alta importância.

Pena foi que tantos anos decorressem sobre esta ideia tão magnífica, pois talvez não assistíssemos à destruição dê alguns motivos cinegéticos e botânicos que Importava preservar. Mas, mais do que isso - e nesse pesar acompanho o ilustre relator do parecer da Câmara Corporativa -, ter-se-ia possivelmente encontrado uma solução para evitar a perda, por exemplo, de Vilarinho das Furnas, a preciosa "aldeia comunitária" que breve ficará sepultada pelas águas de uma barragem e que sempre constituiu motivo de aliciante visita.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - E por muito que se pretenda fazer crer, também sou dos que pensam ser quase impossível a sua reconstituição.

Deixando, entretanto, as lamentações para nos situarmos no campo das realidades, verifica-se que, por sugestão do Conselho Europeu, foi o ano de 1970 designado como o ano da protecção á Natureza e, por coincidência, ao votarmos esta proposta de lei não só caminhamos no sentido de deixarmos de ser o único país na Europa que ainda não possui um parque nacional - não estou, como é evidente, a falar das nossas queridas províncias ultramarinas - como prestaremos o nosso apoio e aplauso aos dedicados técnicos, que tanto entusiasmo puseram na resolução de um problema de verdadeiro interesse científico, educativo e turístico.

A conservação da Natureza nos seus variados e múltiplos aspectos é de incontestável necessidade, não como idealismo platónico dos cientistas que a investigação se devotam nos campos da arqueologia, botânica e zoologia, mas como meio de enriquecimento da nossa flora e da nossa fauna e como valor contemplativo de tudo o que vai rareando na fúria destruidora em que parece ir mergulhando o mundo de hoje.

O Parque Nacional do Geres não terá apenas reflexos para o desenvolvimento do turismo da região em que se enquadra, porque os terá no próprio turismo nacional. Ele, como qualquer outro que surja, abrangerá vários tipos de reservas, desde aquelas que concorrem para a salvaguarda da fauna e da flora mais características das nossas montanhas, onde o turista só terá acesso a pé ou a cavalo, até as reservas envolventes, dos quais algumas se destinam aos repovoamentos indispensáveis, enquanto outras permitirão a prática da coça e da pesca devidamente regulamentada, como se impõe.

Entretanto, e a par de tudo isso. "a salvaguarda dos espaços territoriais ainda susceptíveis de fornecer ar puro, água cristalina, vida selvagem na sua integridade, espaços abertos no traumatizado homem dos nossos tempos", é uma necessidade premente nesta vida de constantes preocupações e em que o problema da poluição, tanto atmosférica como das águas, começa a causar as maiores inquietações. Compreende-se, por consequência, que tudo o que possa influir a pureza do ar que respiramos e proporcione um certo bem-estar e tranquilidade venha a ter repercussões dos mais salutares na saúde pública.

Ainda há poucos dias alguns jornais noticiaram movimentos levados a efeito nos Estados Unidos, no designado "Dia da Natureza", em que se verificaram vivas manifestações contra a poluição.

Detém-se o parecer da Câmara Corporativa sobre a situação do montanhês e diz-se que "a única conclusão razoável será a que corresponde à certeza de que as comunidades tradicionais de montanha estão perdidas" e que "a pastorícia de outras épocas já não atrai pastores, a agricultura das encostas e dos socalcos já não prende cultivadores. A população envelhece e, desprovida de juventude, perde fertilidade demográfica". E conclui por afirmar que "a comunidade de montanha, se não for socorrida, morre".

Ora, o que depreendo, pelo que tenho ouvido a pessoas responsáveis – e a própria proposta não contraria –, é que tudo se processará de modo a salvaguardar, por um lado, as actividades pastoris tradicionais, que continuarão a exercer-se, embora regulamentadas, como já agora acontece, e, por outro lado, a permitir que a população serrana, quer a enquadrada na área do parque nacional, quer a situada nus vizinhanças, possam ter abertas perspectivas materiais, traduzidas no aluguer de garranos e carros para excursões, na venda de objectos de artesanato, no serviço de guias, e te. Dessa forma ser-lhes-á facultada uma promoção que dificilmente, ou até nunca, atingiriam.

Ao caçador, ao pescador, ao simples turista - como aqui disse em intervenção que fiz - , não faltarão habitações serranas nada possam pernoitar e saborear uma ementa tipicamente nortenha, ao mesmo tempo que assistiremos a uma melhor utilização do equipamento hoteleiro do Geres, que nestes últimos dois anos sofreu uma agradável e profunda transformação, a servir de suporte importantíssimo a tão grandiosa obra.

A necessidade de um planeamento nacional impunha--se, bem como a legislação apropriada, a qual terá de assentar em número suficiente de pessoal que assegure eficaz fiscalização para seu indispensável cumprimento.

E com grande satisfação que dou o meu voto na generalidade a presente proposta de lei, deixando ainda expressa a esperança, que é quase uma certeza, de que o parque nacional a que especialmente me referi, – grande anseio do Noroeste português, seja uma breve realidade, como fonte de extraordinária riqueza local e nacional.”

As origens pagãs do Bolo-rei

Bolo-Rei

À semelhança do que sucede com a generalidade dos costumes actuais, perde-se no tempo a verdadeira origem do bolo-rei, da mesma forma que também este apresenta formas e designações variadas consoante as culturas. Assim, em Inglaterra mantém-se a tradição de comer e efectuar corridas com panquecas por ocasião da Terça-feira Gorda. Tratam-se, na realidade, de festividades de origem pagã que se encontram ligadas a rituais de fertilidade que outrora se realizavam por ocasião do Entrudo e visavam preparar a chegada da Primavera e, como ela, o renascimento dos vegetais.

A própria designação de Terça-feira Gorda remete-nos para o antigo costume de fazer desfilar pela cidade um boi gordo antes de sacrificá-lo, prática cujas reminiscências ainda se preservam nomeadamente através das largadas de touros e na corrida da Vaca das Cordas. Da mesma forma que nos festejos carnavalescos se preserva a figura do respectivo Rei que cabia outrora àquele que no bolo encontrasse a fava ou o feijão dourado, sendo como tal tratado durante o ano inteiro.

Por seu turno, os romanos introduziram tal prática por ocasião das saturnais que eram as festividades que se realizavam em 25 de Dezembro, em celebração do solstício de Inverno, também eles elegendo um rei da festa escolhido á sorte pelo método da fava. À semelhança do que se verifica com a Coroa do Advento, a sua forma circular remete para antigos ritos solares perfeitamente enquadrados nas festividades solsticiais e nas saturnais romanas.

Com vista à conversão dos povos do Império Romano que preservavam em geral as suas crenças pagãs, o Cristianismo passou a identificar o “bolo-rei” com a celebração da Epifania e, consequentemente, aos Reis Magos. E, assim, aos seus enfeites e condimentos passaram a associar-se as prendas simbólicas oferecidas ao Messias ou seja, a côdea, as frutas secas e cristalizadas e o aroma significam respectivamente o ouro, a mirra e o incenso. Apesar disso e atendendo a que eram três os reis magos, esta iguaria não passou a ser identificada como “bolo dos reis”, conservando apenas a sua designação como “bolo-rei” ou seja, contrariando a sua própria conversão.

Durante a Idade Média, este costume enraizou-se na Europa devido à influência da Igreja a tal ponto que passou a ser celebrado na própria corte dos reis de França e a ser conhecido como Gâteau des Rois. Porém, com a revolução francesa, o mesmo veio a ser proibido em virtude da sua alusão á figura real, o mesmo tendo sucedido entre nós, imediatamente após a instauração da República, tendo alguns republicanos passado a designá-lo por “bolo-presidente” e até “bolo Arriaga”, em homenagem ao então Presidente da República.

Quanto aos seus condimentos e método de confecção, é usual associar-se à tradição da pastelaria francesa a sul do Loire, o que parece corroborar com a informação de que foi a Confeitaria Nacional a primeira casa que em Portugal produziu e vendeu o bolo-rei a partir de uma receita trazida de França, por volta de 1870. Resta-nos saber, até que ponto, também esta não terá buscado inspiração no tradicional bolo inglês.

Com a aproximação da Páscoa associada à chegada da Primavera e, com ela, o renascimento da Vida, o tradicional folar não trará favas escondidas no seu interior mas ovos que simbolizarão a fertilidade, de novo a evocar ritos ancestrais a um tempo anterior à nossa conversão ao Cristianismo.

GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/

BRAGA TEM O MAIOR PRESÉPIO VIVO DA EUROPA

A paróquia de Priscos, em Braga, criou o “maior presépio vivo da Europa”. Trata-se de um presépio que conta com a participação de 800 figurantes, estendendo-se por uma área de 30 mil metros quadrados onde foram colocados mais de 70 cenários alusivos às culturas egípcia, judaica e romana.

De acordo com as palavras do padre João Torres, Pároco de Priscos, à Agência Ecclesia, esta reconstituição do nascimento de Jesus tem por objectivo “levar as pessoas, neste tempo de sombras, a olharem para a luz do Natal e a perceberem que Jesus não foi um mito, nasceu numa cultura concreta, com pessoas que também trabalhavam e tinham as suas dificuldades”.

No próximo dia 1 de Janeiro, o Presépio de Priscos vai ser palco de um minuto de silêncio que vai ser observado em prol da paz na Terra Santa e que contará com a presença de D. Carlos Ximenes Belo, Prémio Nobel da Paz.

A LINHA FÉRREA DO VALE DO LIMA

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Na segunda metade do século XIX, Portugal registou um forte incremento dos meios de comunicação e de transporte, graças à política seguida por Fontes Pereira de Melo e pelo Partido Regenerador, uma vez que essa constituiu conjuntamente com a realização de grandes obras públicas, a estratégia de desenvolvimento económico preconizada pelos regeneradores. Esse período história que ficou conhecido por “regeneração” ou “fontismo”, marca o início da implementação do transporte ferroviário em Portugal, tendo a primeira linha de caminho-de-ferro sido construída em 1856 entre Lisboa e o Carregado, por iniciativa da Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal. Por motivos financeiros, esta empresa acabou por ceder lugar, alguns anos decorridos, à chamada Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses que entretanto se constituiu com vista a levar o este meio de transporte ao Porto e à fronteira o mais rapidamente possível. Assim, em 1864 o comboio chega a Vila Nova de Gaia, é feita a ligação entre das duas margens do Douro através da ponte de Eiffel em 1877 e, finalmente, chega à Galiza através de Valença em 1886. Antes, porém, em 20 de Maio de 1875 já havia circulado o primeiro comboio entre as cidades do Porto e Braga, facto que constituiu a inauguração deste meio de transporte a norte do rio Douro.

Concretamente à região do Vale do Lima, até então apenas servida por via fluvial e, por via terrestre pela diligência cuja viajem atribulada pelas estradas macadamizadas se apresentavam como uma verdadeira odisseia, a qual nos descreve Ramalho Ortigão n’ As Farpas, esteve durante muito tempo nos propósitos de sucessivos governos a construção de uma linha de caminho-de-ferro a ligar Viana do Castelo a Ponte da Barca, com prolongamento até à fronteira pelo Lindoso. O primeiro registo de que dá notícia dessa intenção consta da autorização concedida em 18 de Junho de 1874 a Alberto Meister para aí estabelecer o referido meio de transporte, tendo esta vindo a caducar em virtude do concessionário não ter apresentado o respectivo projecto ao governo no prazo estabelecido de um ano, contado a partir da data da concessão, como determinava o respectivo decreto. Reinava então D. Luís I e era seu Ministro e Secretário de Estado dos Negócios das Obras Públicas, Comércio e Indústria, António Cardoso Avelino.

Um ano após, em resposta ao requerimento apresentado por Damião António Pereira Pinto com vista à obtenção de “licença para construir e explorar um caminho de ferro de via reduzida, servido por locomotivas e assente em leito próprio, para transporte de passageiros e mercadorias entre Vianna do Castello e a villa da Barca”, foi publicado novo Decreto com data de 27 de Julho de 1875, através do qual era feita a concessão pretendida. À semelhança do anterior decreto, também este estabeleceu um conjunto de condições, a maior parte das quais nos dão uma ideia da obra projectada, nomeadamente no que se refere à largura dos carris, características das pontes e travessias, passagens de nível e material circulante. A título de exemplo, os aquedutos e pontes deveriam ser feitas em pedra, tijolo ou madeira, “as machinas locomotivas deverão ser conformes aos melhores modelos conhecidos e de systema apropriado para transporte mixto de passageiros e mercadorias” e a abertura de apeadeiros não poderia ser estabelecida entre distâncias inferiores a cinco quilómetros. O concessionário obrigava-se ainda a instalar o serviço telegráfico, o qual teria uso gratuito para o governo, à semelhança aliás do transporte das malas e funcionários dos correios.

Entretanto, em 1889 D. Carlos I sucede a seu pai no trono e as tentativas de levar os particulares a construir uma linha de caminho-de-ferro entre Viana do Castelo e Ponte da Barca prosseguem sem contudo registarem-se quaisquer resultados visíveis. Alguns anos mais tarde, o jornal “O Libertador de Coura” garantia na sua edição de 11 de Abril de 1897 que, “…vai ser feita a concessão de um caminho de ferro que deve ligar Viana com Ponte de Lima, Arcos e Barca, seguindo, mais tarde, até à fronteira, nas proximidades de Lindoso. Essa via férrea terá estações na Meadela, Santa Marta, Serreleis, Lanheses, Bertiandos, Ponte de Lima, proximidades do Carregadouro e outros pontos”. Preconizava então o articulista que o “grandioso melhoramento se realize em breve, não só pelas muitas vantagens que dele resultam para os povos do Vale do Lima, como também pelas comodidades que nos advirão a nós, pois será mais económica a viagem para a capital do distrito por Ponte de Lima ou Arcos do que por S. Pedro da Torre, e teremos carreiras diárias com estas duas localidades”.

O referido jornal referia-se à concessão que viria a ser feita em 7 de Julho de 1898, a Alberto da Cunha Leão e a António Júlio Pereira Cabral para a construção e exploração dos caminhos-de-ferro da Régua a Chaves e à fronteira, e a conceder a construção e exploração da linha de férrea do Vale do Lima, autorizando a sua exploração “por meio de tracção eléctrica” e concedendo facilidades como o alargamento do prazo de isenção de impostos até trinta e cinco anos e “o direito de opção na construcção e exploração de todas as linhas convergentes a pontos situados dentro das zonas lateraes de 30 kilometros”.

Por essa altura, o Ministério da Obras Publicas, Commercio e Industria publica o “Plano da Rede Ferro-Viaria ao Norte do Mondego”, proposto pela “Commissão Encarregada do Estudo d’Este Plano”, por Decreto de 6 de Outubro de 1898, o qual procede à análise das acessibilidades e aspectos económicos dos concelhos que iriam beneficiar do empreendimento como resultado de um inquérito feito às diversas câmaras municipais sobre o plano de linhas férreas a construir a norte do rio Mondego. A este propósito e no que a Ponte de Lima mais concretamente diz respeito, o referido estudo considerava o seguinte: “Um caminho de ferro para Vianna e, quando este se não construa, fazer derivar para Ponte de Lima a linha de Braga á Ponte da Barca, por isso que esta povoação e concelho é bem mais importante do que aquelle.

O traçado do caminho de ferro de Vianna a Ponte de Lima deve ser attendido. Existem estudos particulares d’esta linha, com cuja execução mais utilisaria o concelho, e que devem ser preferidos.” Mais ainda, “Se bem que não há industrias no concelho, é este relativamente rico e bastante activo o seu movimento commercial, devido á grande quantidade de productos agrícolas que exporta. Dos productos importados abastece os seus mercados e os dos concelhos limitrophes, devido á sua posição topographica. Aqui concorrem productos dos demais concelhos do districto, que poderiam com vantagem ser exportados se a sua conducção não fosse tão cara. Por isso a industria agrícola receberia um grande impulso com a construcção de uma linha férrea, a que a via fluvial não fará concorrência séria, por intransitável drante o verão. A producção vinicolatem duplicado nos últimos annos e virá a constituir uma parte da riqueza da região”.

Refira-se, a propósito, que o estudo em causa não contemplava somente aspectos de carácter económico e social como ainda se debruçava acerca de aspectos de natureza estratégica e defensiva, como se depreende pelas considerações de natureza geográfica e militar feita ao perímetro do concelho de Ponte da Barca: “Este concelho, para prosperar grandemente precisa que lhe facilitem as vias de comunicação, porque a maior parte das suas freguezias, que estão situadas ao nascente, nãos e acham servidas por vias de communicação regulares, o que paralysa os productos nos respectivos centros de producção e não deixa desenvolver esta.

Não só esta consideração de vantagem local, mas ainda outra vantagem geral, qual é a communicação com o reino vizinho, levará certamente os poderes públicos a prolongar, maistarde ou mais cedo, alinha do valle do Lima até a raia hespanhola, em Lindoso.

Esta linha do valle do Lima tem necessariamente de correr pela margem esquerda do Lima, não só pela maior facilidade e economia de construcção, mas também por causa da defeza do paiz, o que não deixará de ser ponderado pela commissão superior de guerra.

Uma irrupção de tropas hespanholas pela fronteira do rio Minho ou desde ahi até Montalegre póde ser efficazmente debellada com o auxilio d’esta linha, que não deixará ultrapassar o Lima. A invasão por aquelle lado da Galliza, situado entre o Minho e alturas de Montalegre, só se póde fazer por Lindoso e pela margem esquerda do Lima. Portanto é obvia a demonstração do que se deixa afirmado”.

A propósito de uma reclamação apresentada pela Câmara Municipal de Arcos de Valdevez que visava a alteração do referido plano ferroviário, o estudo em questão é peremptório: “No traçado de uma linha férrea não deve attender-se a concelhos, mas sim a regiões, e só se tem em vista as localidades, quando estas se impõem pela sua notável importância”. Acrescentando ainda que, “Quando se attender a circumscripções concelhias, o concelho dos Arcos não ficaria prejudicados, porque a estação de Ponte da Barca seria preferível a uma estação na villa dos Arcos de Valle de Vez, para muitas freguezias d’este concelho, já pela sua distancia mais curta, ou egual, já pela economia do transporte”.

Ainda, na sequência daquele estudo, é publicado um novo decreto com data de 27 de Abril de 1903 “mandando abrir concurso para a construcção e exploração das linhas férreas de Vianna a Ponte da Barca, de Braga a Monção, e de Braga a Guimarães”. O concurso público é aberto perante o Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado, pertencendo estas vias à “rede complementar e classificadas por decreto de 15 de fevereiro de 1900”. Este diploma que inclui as “Bases para a elaboração do programma e caderno de encargos” estabelecia, entre outros aspectos, a obrigatoriedade da designação “do Valle do Lima” e, relativamente ao seu traçado, “partindo da estação de Vianna do Castello, siga margem direita do Lima até as proximidades de Lanhezes, e, atravessando ahi o rio, vá por Ponte de Lima a Ponte da Barca, ligando-se ahi com a linha antecedente”. O decreto determinava também a largura de 1 metro entre os carris e o estabelecimento de carruagens de duas classes, bem assim o estabelecimento de portagens na ponte a construir nas proximidades de Lanhezes, a qual deveria ser “construída em condições de poder servir tanto para a viação ordinária como para a accelerada”. As obras de construção desta linha deveriam ter o seu começo dentro dos três meses imediatos à data daquele decreto e ficarem prontas no prazo máximo de três anos.

Os trabalhos de construção do leito da via iniciaram-se e a área de Viana do Castelo chegou mesmo a ter os carris assentes, precisamente onde actualmente se situa a rua do Vale do Lima e, entre Ponte de Lima e a localidade de Bertiandos, uma recta paralela à Estrada Nacional 202 utiliza parte do seu traçado, havendo ainda a referir a existência de nivelamentos e pontes secas em Arcozelo e noutros locais do seu percurso previsto. O material circulante foi adquirido, inclusive novas locomotivas, devendo em Ponte de Lima ser construída uma estação num sítio próximo da actual praia fluvial do Arnado a servir de entroncamento com a linha de Braga a Monção. Segundo o decreto de 1903 a que acima nos referimos, esta via deveria constituir um prolongamento da linha de Braga a Guimarães, a qual por sua vez faria ligação com as linhas da Trofa a Guimarães e de Guimarães a Fafe. Assim, partindo da estação de Braga, aquela linha seguiria por Ponte da Barca e Arcos de Valdevez em direcção a Monção, residindo aqui algumas dúvidas quanto ao seu traçado.

A propósito do sucessivo adiamento do projecto, o jornalista e escritor Mário Gonçalves Viana teceu na edição de Natal da revista Alma Nova algumas considerações acerca dos estudos realizados que visavam dotar o Minho de estruturas ferroviárias, das quais transcrevemos a seguinte passagem: “Mas há imenso a fazer além disto, como a ligação de Viana-do-Castelo a Ponte-do-Lima até Arcos. Todo o Minho vive asfixiado, sem meios de comunicação, cansado de esperar em promessas fantasiosas…”. E acrescentava: “Agora, que se trata também de conseguir a concessão duma outra linha férrea de Braga a Monsão, por Vila Verde, Ponte-da-Barca e Arcos-de-Valdevez, urge reconhecer a utilidade colossal deste benefício importantíssimo, e por isso toda a província, no seu próprio interesse, o deve favorecer, bem como o estado, que só terá a lucrar com uma nova actividade económica, um aumento crescente para as suas contribuições”.

O tempo passa e o projecto volta de novo à liça em 1929 quando a Direcção Geral dos Caminhos de Ferro, organismo adstrito ao Ministério do Comércio e Comunicações, resolve submeter a inquérito administrativo o “Plano Geral da Rede Ferroviária do Continente”, documento este “proposto pela Comissão encarregada da elaboração desse plano (Decreto nº. 13:829, de 17 de Junho de 1927)” e que é publicado através da Imprensa Nacional. Pelo referido plano ficamos a saber o parecer dado pela Câmara Municipal de Ponte da Barca a qual considerava o seguinte: “O traçado desta linha dentro do nosso concelho, tomando a margem direita do Vade, segue o caminho que mais nos convém, e fora do nosso concelho também nos parece que serve pela melhor maneira as regiões que atravessa. O caminho de ferro de Viana a Ponte da Barca percorre um dos mais populosos, dos mais férteis e dos mais lindos vales de Portugal. Será a melhor via tributária do porto de Viana e, quando prolongado até à fronteira, drenará para aquele porto o tráfego da importante região galega da Cuenca del Limia”. Este parecer, subscrito pelo respectivo Presidente da Comissão Administrativa, regozijava-se pelo traçado proposto o qual, após sucessivas soluções apresentadas, previa o atravessamento do rio Lima na zona do Carregadouro, o que permitiria evitar todos os inconvenientes que daí poderiam advir caso fosse aprovada qualquer uma das outras soluções anteriormente apresentadas.

Por seu turno, os anexos ao “Plano Geral da Rede Ferroviária do Continente” revelava um aspecto que indiciava já o abandono de um projecto que, afinal de contas, não passou de mais uma miragem para as gentes desta região: “Foi há poucos anos objecto de inpensada tentativa de substituição por um tranvia eléctrico assente no leito da estrada, que pela sua estreiteza (6m,60), e pelas curvas de pequenos raios em rampas fortes, de modo algum comportaria uma linha de interesse geral em que devia circular o material vindo das outras.

Depois de adquirido por alto preço material circulante: automotoras e tractores eléctricos, reparou-se o erro cometido e mandou-se elaborar com urgência o projecto da linha em leito próprio.

É assunto resolvido, tendo-se fechado o triste parêntesis aberto em 1923.

Limita-se pois a comissão a instar pela pronta construção da linha e a manter no plano o prolongamento de Ponte da Barca à fronteira pela margem esquerda.

            Ocioso é relembrar que o traçado deve seguir a margem direita do Lima, desde Viana até ao Carregadouro, onde o rio estreita e deixa de ser navegável, transpondo-o em ponte pouco extensa e de fácil construção, que deve servir também para a viação ordinária. Na estrada de Ponte da Barca deve haver um triângulo que facilite os combóios sem reversão entre Viana e os arcos e vice versa”.

Não dispomos de qualquer elemento que permita documentar os verdadeiros motivos que levaram ao abandono do projecto de construção da linha férrea do Vale do Lima, havendo quem aponte contudo o facto do traçado previsto passar mesmo defronte da fachada do Paço de Bertiandos, aliás à reduzida distância, facto que poderá ter estado na origem das sucessivas alterações do projecto quanto à escolha do local de atravessamento do rio Lima. O facto é que, apesar do começo das obras, o projecto foi definitivamente abandonado devendo o material circulante ter sido vendido, quem sabe para outra linha-férrea entretanto construída no norte do país. Mais recentemente, ironizava o director do jornal “Notícias da Barca” em caixa alta: “não deixa de ser importante, por isso, nos dias de hoje, apesar das vias de comunicação abrirem a toda a velocidade, mas no Vale do Lima, tudo vai emperrando, como o IC28, que demora a chegar ao Lindoso! Há cem anos o caminho de ferro já era notícia e nunca mais chegou!”.

Com o decorrer dos tempos, alguns troços do leito construído para a projectada linha-férrea passaram progressivamente a serem utilizados por moradores locais como caminhos públicos e serventias particulares, dando por vezes origem a processos litigiosos resolvidos judicialmente, como sucedeu nomeadamente na freguesia de Santa Marta de Portuzelo, sobre o qual o próprio Supremo Tribunal de Justiça teve de emitir um acórdão para resolver uma disputada de vizinhos sobre a posse de um carreiro no lugar da Barrosa. Noutras paragens e consoante as circunstâncias, foram encontradas utilidades diversas, como sucedeu no troço de treze quilómetros entre Valença e Monção que havia sido desactivado em 1990 onde aquele percurso deu lugar a uma ecopista com fins ambientais e turísticos e zona de lazer à disposição de peões, ciclistas e patinadores. A propósito, quando em 2004 foi inaugurada naquele local a chamada “Ecopista do Rio Minho” numa cerimónia que contou nomeadamente com a presença do Secretário de Estado dos Transportes e Comunicações e do Presidente do Conselho de Administração da REFER, o Presidente da Região de Turismo do Alto Minho, Dr. Francisco Sampaio afirmou o seguinte: “O caminho-de-ferro, quando não é viável, passa a vapor como no Douro. Tentámos fazer isso aqui, mas a CP via mal a gestão da linha nas mãos do turismo. Como não houve hipótese, acho a ecovia um belíssimo aproveitamento”.

No caso concreto do Vale do Lima não foi encontrada qualquer solução com vista a uma utilização lúdica do leito construído que estava destinado à circulação ferroviária. Contudo, a fisionomia da região em termos de vias de comunicação tem vindo a alterar-se de uma forma notável. Mas, do comboio que nunca chegou a apitar em Ponte de Lima fica o registo histórico de um projecto que deixou algumas marcas indeléveis ao longo da ribeira Lima.

O “Americano” de Barcelos a Ponte de Lima

Em 1874, curiosamente no mesmo ano em que foi concedida a primeira licença para a construção da linha-férrea do Vale do Lima, dois “negociantes” portuenses apresentaram à Câmara Municipal de Barcelos um pedido de autorização para criar naquela vila um “caminho de ferro americano” com ligação a Ponte de Lima, através da estrada municipal que passa pelas Caldas de Lijó. Muito provavelmente, os requerentes mais não pretendiam do que impressionar os responsáveis municipais com o fim de posteriormente obter autorização para explorar as águas termais das freguesias de Galegos e Lijó, uma vez que não voltaram a demonstrar qualquer interesse pela iniciativa e, contudo, menos de dois meses após o pedido feito, apresentaram novo requerimento a solicitar a concessão das termas. Em todo o caso, fica o registo de uma proposta que nem sequer passou do papel.

Com efeito, a acta da sessão de 2 de Março da Câmara Municipal de Barcelos assinala o seguinte: “Tiveram deferimento os requerimentos apresentados em mesa entre eles o de Miguel da Costa Faria e José Carneiro de Sampaio e Silva, da cidade do Porto e Negociantes, pedindo licença para estabelecer um caminho de ferro americano que ligue esta Vila com o Concelho de Ponte de Lima na estrada municipal que passa pelas Caldas de Lijó, bem como as ruas que lhe convenha desta Vila: e no mesmo lhe fora lançado o seguinte acórdão. – Que tomada nota da apresentação, declarem os requerentes as condições em que pretendem fazer a construção e o prazo em que se propõem começá-la”.

Os “americanos” eram carros puxados por duas ou mais parelhas de mulas, deslocando-se sobre carris e circularam em Lisboa e no Porto. Eça de Queirós, no final do seu romance Os Maias, faz-lhe uma breve referência. A designação pela qual ficou conhecido deve-se ao facto deste meio de transporte ter sido inventado nos Estados Unidos da América em 1832.

Bibliografia:

-    Colecção de Legislação relativa aos Serviços do Ministério das Obras Públicas publicada na “Revista de Obras Públicas e Minas”, Imprensa Nacional. Lisboa. 1876;

-    Jornal “O Libertador de Coura” nº 11, de 11 de Abril de 1897;

-    Colecção de Legislação de 1897 a 1899 relativa aos Serviços do Ministério das Obras Públicas publicada na “Revista de Obras Públicas e Minas”, Vol. IX – Fascículo 2º. 1898. Imprensa Nacional. Lisboa. 1899;

-    Plano da Rede Ferro-Viaria ao Norte do Mondego. Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria. Imprensa Nacional. Lisboa. 1899;

-    Colecção de Legislação de 1903 e 1904 relativa aos Serviços do Ministério das Obras Públicas coordenada pelo Chefe da Repartição do Pessoal da Direcção Geral de Obras Publicas e Minas, Gaspar Cândido da Graça Corrêa Fino, Vol. XI – Fascículo 1º. 1903. Imprensa Nacional. Lisboa. 1904;

    VIANA, Mário Gonçalves. Através das Províncias. No Minho. Alma Nova – Revista de Ressurgimento Nacional. Natal de 1924;

-    Plano Geral da Rede Ferroviária do Continente. Volume I. Relatório da Comissão. Ministério do Comércio e Comunicações. Imprensa Nacional. Lisboa. 1929;

-    Plano Geral da Rede Ferroviária do Continente. Volume II. Documentos Anexos. Ministério do Comércio e Comunicações. Imprensa Nacional. Lisboa. 1929;

-    BACELAR, Gualter. “Caminho de Ferro do Vale do Lima – Miragem de há cem anos!”. Notícias da Barca nº. 614, de 12 de Fevereiro de 2000. Ponte da Barca;

-    Usucapião – Conceito de terceiros. Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 29 de Janeiro de 2003;

-    COELHO, José de. “Em 1874, empresários quiseram fazer linha férrea ligeira em Barcelos”. Jornal de Barcelos, 30 de Dezembro de 2003;

     Atravessadouro. Caminho Público. Utilidade Pública. Desafectação. Ónus da Prova. Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 14 de Outubro de 2004;

-    História de Portugal. Vol. XI. Edita Ediclube. Amadora. 2004;

     O autor agradece a colaboração dispensada pelo Arquivo Histórico da Direcção Geral dos Transportes Terrestres e Fluviais na pessoa da sua Directora, Drª Ilda Cristóvão e do Dr. Gilberto Gomes, sem a qual a realização deste trabalho não teria sido possível.

GOMES, Carlos. A Linha-Férrea do Vale do Lima. Anunciador das Feiras Novas. XXIV. Ponte de Lima. 2007

ASSEMBLEIA NACIONAL COMEÇOU EM 1964 A DISCUTIR A CONSTRUÇÃO DA BARRAGEM DE VILARINHO DA FURNA

Com a construção no rio Cavado da barragem de Vilarinho da Furna, inaugurada em 1972, a aldeia de Vilarinho da Furna ficou para sempre submersa nas águas da albufeira.

Em 17 de Novembro de 1964, foi apresentado à Assembleia Nacional a Proposta de Lei relativa ao “Plano Internacional de Fomento para 1965-1967”, acompanhada dos respectivos pareceres da Câmara Corporativa. Tratava-se de uma Sessão Extraordinária referente à VIII Legislatura, cujos trabalhos são descritos no Diário das Sessões nº. 151, de 18 de Novembro.

Presidia àquele órgão o Dr. Mário de Figueiredo que, iniciado o período da Ordem do Dia, colocou a referida proposta à discussão na sua generalidade, dando a palavra ao deputado Virgílio Cruz. Da sua extensa intervenção, transcrevemos a passagem na qual se refere a Vilarinho da Furna, com a promessa de que voltaremos a abordar o assunto.

“Dos aproveitamentos a realizar no triénio de 1965-1967 o projecto do Plano apenas inscreve os montantes a investir ou nas obras em execução ou naquelas cuja construção se inicia desde já. As outras que à data da preparação do Plano Intercalar não tinham ainda, os concursos autorizados ou estudos prontos ficaram para a próxima decisão.

A garantia, da continuidade do abastecimento dos consumos de electricidade no período seguinte ao triénio de 1965 - 1967 exige o início de construção de alguns deste centros produtores referidos já no decurso do Plano Intercalar, porque o estudo e construção das centrais é demorado, necessitando de prazos da ordem dos três a quatro anos para as térmicas clássicas, quatro a cinco anos para as hidroeléctricas, sete a nove anos para um primeiro grupo termonuclear e cinco a seis anos para os seguintes grupos desta nova modalidade de produção. Isto mostra, como muito bem o evidencia a Câmara Corporativa no seu parecer, a necessidade de arrancar com obras de novos centros produtores, além dos considerados prioritários, ainda no decurso do Plano Intercalar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Dos aproveitamentos inscritos no programa de construções deste Plano revelam-se aconselha-

veis (na opinião dos especialistas nesta matéria, especialistas do Grémio Nacional dos Industriais de Electricidade, do Repartidor Nacional de Cargas e do grupo de trabalho preparatório do projecto do Plano), para início de construção durante o triénio de 1965-1967, os seguintes novos centros produtores: Vilarinho das Furnas, no rio Homem, Fratel, no Tejo, Baixo Mondego, Valeira, no Douro, e outros empreendimentos.
A Câmara Corporativa considera indispensável concretizar desde já as datas de arranque de novas obras em cada um dos anos do Plano e propõe um programa de investimentos de 3,174 milhões de contos, isto é, cerca de 950 000 contos a mais em relação ao montante já inscrito no projecto do Plano Intercalar para as obras em execução ou decididas.
Damos o nosso aplauso à. Câmara Corporativa sobre a necessidade de arranque de novas obras em cada um dos anos de 1965, de 1966 e de 1967, e à necessidade de fixar datas para início das obras, mas, quanto ao esquema proposto como um dos possíveis vamos procurar melhorá-lo para cobrir os consumos permanentes com investimentos mais reduzidos no triénio e tornar o esquema mais benéfico para o interesse nacional.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Para Vilarinho das Furnas está o projecto concluído, e, como se justifica pelas suas condições de rentabilidade, se nos princípios de 1965 lhe for dada ordem de arrancar, assegurar-se-á a continuidade de ocupação a equipamentos, quadros técnicos e mão-de-obra que tem estado a trabalhar nos estaleiros e nas várias indústrias ligadas às obras hidroeléctricas, além de permitir armazenar já a água do período húmido de 1967-1968.”

“VILARINHO DAS FURNAS” OU “VILARINHO DA FURNA”?

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Aldeia de Vilarinho da Furna – 1968

Manuel de Azevedo Antunes

            Sobre o nome de Vilarinho, aqui ficam algumas considerações.

            A primeira referência escrita a esta aldeia penso que remonta a 1540, no TOMBO DA IGREJA DE SÃO JOÃO DO CAMPO, onde a povoação é simplesmente apelidada de “Villarinho”.

            Depois, nos Arquivos Paroquiais sobre o Registo de Baptizados, Casamentos e Óbitos, da freguesia de S. João do Campo, a partir de 1623, ora aparece “Villarinho das Furnas”, ora “Villarinho da Furna”, com predominância desta última designação. Julgo que, quando o Padre era natural da aldeia ou das povoações vizinhas, escrevia “Villarinho da Furna”.

            António Carvalho da Costa, na Corografia portugueza e descipçam topografica do famoso reyno de Portugal, de 1706‑1712, menciona “V. de Furnas”.

            O Padre José de Matos Ferreira, no Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez, de 1728, refere apenas “Vilarinho”.

            Na “Noticia da freguesia de S. João do Campo que mandou o dr. Vigário Geral aos 9 de Junho de 1736”, bem como nas Memórias Paroquiais de 1758, fala-se de “Vilarinho de Furnas”.

            Jerónimo Contador de Argote, em Memórias para a História Eclesiástica do Arcebispo de Braga, de 1737-1747, refere “Villarinho”.

            Já o alemão Link, no seu Voyage en Portugal depuis 1797 jusq’en 1799, de 1803, menciona “Villarinha do Furno”.

            O Príncipe Regente, que veio a ser D. João VI, no alvará de criação da Real Fábrica de Vidros, de 1807, escreve “Villarinho da Furna”.

            Na “Escritura de contrato e união...”, de 1841, aparece “Vilarinho da Furna”.

            Pinho Leal, no Portugal Antigo e   Moderno, de 1874-1890, fala de “Villarinho das Furnas” e de “Vilarinho da Furna”.

            O Padre Martins Capela, em Milliarios do Conventus Bracaraugustanus em Portugal, de 1895, escreve “Villarinho da Furna”.

            Na escritura de aforamento de 1895, com a Câmara Municipal de Terras de Bouro, e no registo predial de 1923, na Conservatória de Amares, com transcrição mais recente na Conservatória do Registo Predial de Terras de Bouro, aparece sempre “Vilarinho da Furna”.

            Tude de Sousa, também utiliza “Villarinho da Furna”, como se pode ler em Serra do Gerez, de 1909.

            Jorge Dias, em vários dos seus estudos, nomeadamente em Vilarinho da Furna –  Uma Aldeia Comunitária, de 1948, bem como todos os investigadores da sua equipa, refere sempre “Vilarinho da Furna”.

            Inspirado na referida obra de Jorge Dias, Manoel de Oliveira projecta, por 1950, fazer o documentário Vilarinho da Furna que, ao que parece, não chegou a ser realizado, por falta de apoio financeiro.

            Também Jaime Cortesão, em Portugal, a Terra e o Homem, nas edições de 1966 e outras, escreve “Vilarinho da Furna”.

            O mesmo faz Miguel Torga, em vários dos seus escritos, nomeadamente no Diário, bem como A. Lopes de Oliveira, em Terras de Bouro, e Armando de Castro em Estudos da História Sócio-Económica de Portugal, de 1972,

            Já Domingos M. da Silva, em Entre Homem e CávadoAmares e Terras de Bouro, de 1958, escreve “Vilarinho das Furnas” e “Vilarinho da Furna”.

            Também nas sentenças do Tribunal de Vila Verde, de 1962, de 1969 e de 1995, se lê “Vilarinho da Furna”.

            Hugo Rocha, escreve um dos seus artigos, no Comércio do Porto, em 1969, com o título “Vilarinho da Furna: uma das últimas povoações comunitárias de Portugal que não tardará muito a desaparecer”.

            João Rosado Correia, intitula a sua dissertação de licenciatura, Vilarinho da Furna – Paisagem em Transformação, em 1971. De modo semelhante acontece com José Rodrigues Martins, no artigo “Vilarinho da Furna”, de 1972, e com Lucinda Coutinho Duarte, Luísa Teixeira e Mafalda Santos, na dissertação sobre Aldeias Submersas em Consequência da Construção de Barragens: * Vilarinho da Furna (1971) * Aldeia da Luz, Alentejo (2002), de 2003, que tive oportunidade de orientar.

            Mas Gladys Novaes, também em trabalho académico de licenciatura, em 1973, escreve “Vilarinho das Furnas”, penso que por influência das Memórias Paroquiais da freguesia de S. João do Campo, que transcreve.

            João Amorim Machado Cruz, em vários dos seus estudos, escreve sempre “Vilarinho da Furna”, como em Consanguinidade aparente da população de Vilarinho da Furna, de 1973.

            O mesmo acontece com Joanna Korfage, no seu trabalho académico, na Holanda, em 1993, VROEGER EN LATER - Over de ervaringen van de vroegere bewoners van het verdwenen communale dorp Vilarinho da Furna (ANTES e DEPOIS – Sobre as experiências dos antigos habitantes da aldeia comunitária de Vilarinho da Furna), e com Delmira Calado, em Vilarinho da Furna: a Memória, de 1999.

            Também Francisco Duarte Mangas, na novela Diário de Link, de 1993, fala de “Vilarinho da Furna”, embora, em nota final, assinale que há quem diga “Vilarinho das Furnas”.

            Eu próprio utilizo sempre a designação “Vilarinho da Furna”. Apesar de alguns revisores de provas já me terem procurado corrigir para “Vilarinho das Furnas”.

            Nas Cartas Topográficas e nos textos da HICA/CPE/EDP, escreve-se “Vilarinho das Furnas”, designação que se vulgarizou após a construção da barragem. O que terá influenciado o título do filme de António Campos, Vilarinho das Furnas, de 1971.        Como vemos pelos autores referidos, a que se poderia acrescentar muitos outros, as duas designações têm sido usadas na referência à mesma aldeia.

            Penso que a designação “das Furnas” provém de um local, sito na serra Amarela, com várias cavidades rochosas, próximo da nascente do Rio de Furnas, assinalado nas Cartas Topográficas, que passa pelo meio do povoado antes de se juntar com o Rio Homem.

            No entanto, em todos os documentos oficiais e jurídicos, com excepção do decreto de 1904, feito por inspiração e em benefício dos Serviços Florestais, a expressão utilizada é “Vilarinho da Furna”, com esta ou outra grafia equivalente. Era também assim que a gente da aldeia e das povoações vizinhas lhe chamavam, bem como todos os literatos e investigadores que mais aprofundadamente a estudaram. 

            Furna (do latim furnus – forno), significa grande cavidade, caverna, gruta, cova. A aldeia de Vilarinho ficava efectivamente numa grande cova, delimitada pelas serras da Amarela e do Gerês, o que fazia dela, no dizer de Orlando Ribeiro, “uma ilha da Ribeira no oceano revolto das agrestes montanhas graníticas”.

Por isso, como costumo dizer, já que nos tiraram a terra, deixem-nos ficar o nome: “VILARINHO DA FURNA”.

(Extracto de: Manuel de Azevedo Antunes, Vilarinho da Furna - Memórias do passado e do futuro, 2.ª Ed., CEPAD/ULHT, Lisboa, 2005, pp. 200-205).

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Aldeia fantasma de Vilarinho da Furna – 1998. Fotos: Manuel de Azevedo Antunes

BARCELOS DESFILA EM BRAGA POR OCASIÃO DO 1º CONGRESSO DE ETNOGRAFIA E FOLCLORE

O postal que reproduzimos é uma edição da C.P.Loty e apresenta o desfile de um grupo folclórico nas ruas da cidade de Braga por ocasião do 1º Congresso de Etnografia e Folclore que ali teve lugar em 1956, em relação ao qual já nos referimos em artigo anterior que pode ser lido em http://bloguedominho.blogs.sapo.pt/100502.html

ARCOS DE VALDEVEZ É TERRA LINDA DE MAIS PARA QUE SE POSSA VIVER LONGE DELA!

Perdem-se nos tempos as origens das terras de Valdevez. As suas veigas férteis, ao longo do rio Vez, registam a fixação do Homem desde os finais do quinto milénio antes da Era Cristã, presença documentada através de numerosos vestígios arqueológicos como se verifica com as mamoas e antas e ainda as representações ruprestes existentes na estação arqueológica do Gião. De resto, os castros de Azere, Alvora e Cendufe constituíram povoados defensivos das gentes arcuenses do período pré-romano.

A organização eclesiástica durante a Idade Média associada às características geográficas do território determinou a organização das paróquias na qual assenta a actual estrutura administrativa. A reforma implementada por Mouzinho da Silveira veio a acrescentar-lhe as povoações do Soajo, Ermelo e Gavieira, traçando-se os limites do Concelho de Arcos de Valdevez tal como actualmente os conhecemos.

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Escreveu o escritor arcuense Carlos Cunha a respeito de Arcos de Valdevez: “De qualquer lado que tente fotografar a paisagem da minha terra – tão variada e fluida na fluida mobilidade dos seus aspectos – sempre as mesmas imagens respondem ao apelo do mesmo aceno. Saio a porta – para sempre fechada – da casa de meus pais e vou seguindo a margem do rio, que se arroja, numa facada límpida, sobre a vila.

- Deus Nosso Senhor lhe dê muito bom dia!

De preto, escorrendo as ancas, a mulher vai andando para o mercado. Leva um cesto á cabeça; e da toalha muito branca rompe, como uma for vermelha, a crista alta de um galo. Ao chegar ao Ribeirinho – franja de casas estendida a todo o correr da estrada – paro. E fico a olhar o regato, que, embebido de sol, é um fio de sol entre salgueiros. Até que ali para cima uma janela se abre e a magia de uns olhos, que são toda a minha luz, vem dizer-me que a vida começou.

Crianças, de pés descalços e narizes calafetados de ranho, brincam ao longo da estrada. Um melro rasou o asfalto tintinando o seu guizo doido. Imóveis, os pinheiros da Contada parecem esculpidos em bronze; e mais para além, azulado de névoa e de distância, o Paço da Giela é quase uma aparição.

É dali que a certas horas o passado desce até ao burgo, se revê no pelourinho da praça – bem bonito, este dorso petrificado de angústia! –, erra entre as duas igrejas que, a distância, lembram castelos do Reno, e, depois de ter bebido em Salzedas uma água das origens, vai esmoer, nos dentes cariados das ameias, o seu protesto sem voz contra a digestiva incúria que mantém, atulhada de cacos e de lixo, a capelinha românica da vila.

Nas meias tardes de domingo, quando os sinos de S. paio e Salvador parecem carpir uma hecatombe, os namorados vão lá para os fins do campo apertar na carne aflita um pouco daquela primavera que vem das tílias. E, irrequieto, o binóculo das damas da outra banda espia o tempo perdido… Mas é sobretudo nas romarias, quase todas as noites de sábado, anunciadas por coloridas deiscências de fogo, que o povo da vila e aldeias abre uma válvula pagã aos quotidianos recalques de uma existência de penas. Ao resfolgar do harmónio, velhos e moços entram na dança; e no contido e súplice esvoaçar das mãos, nos movimentos das ancas e dos braços, há toda a plasmação de um rito em que não +e difícil surpreender gestos de redes ou sementes, ou cadências de remos sobre as ondas. O minhoto dança a paisagem. E seja na Senhora da Peneda – áspero e rugosos santuário da montanha – ou nessa varanda aberta sobre os longes, que é o monte do Castelo, ali a dois passos da vila, seja numa simples rifa ou descante, o que ele, ébrio de mosto e poeira, acima de tudo persegue, é uma fuga dionisíaca da vida.

Miguel Torga, na ácida ruminação de uma ironia em que o horror do verde não é apenas excesso de clorofila, acha que o Minho é bovino. Talvez. Mas ironias como esta são sempre uma mutilação: pede-se um retrato e sai uma caricatura. Pois a verdade é que, no rápido caleidoscópio dos seus aspectos, o Minho polariza em si o que de melhor contém as outras províncias portuguesas. E não é preciso ir mais longe. Em Arcos de Valdevez ou em Melgaço, à medida em que os cerros vão fugindo com as casas pela encosta acima, a virgiliana doçura das vertentes e dos vales vai perdendo a feminil dormência na ossatura plutónica dos montes. E Soajo ou Castro Laboreiro surgem aos nossos olhos como duas aldeias transmontanas.

Mas a desgraça não é essa. A desgraça é que nós somos as raízes da terra onde nascemos. E a nossa é linda de mais para que se possa viver longe dela. Onde quer que os passos nos conduzam, sempre a sua imagem nos persegue como uma obsessão – ou uma bênção… E é quando estamos para deixá-la que de todo nos rendemos ao aceno telúrico desse chão que nos faz voltar para trás a proa da quimera que nos trouxe. Nesses dias, gostamos de uma maneira diferente, até das árvores e dos bichos. Lembro-me de meu irmão Alberto abraçado ao tronco da velha macieira da quinta: – “Adeus, macieira das doces!...”

E compreendo a razão por que, oito meses após a minha chegada ao Rio, todas as manhãs acordo pensando no “Desterrado” do nosso Soares dos Reis.”

- in revista “Padrão”

(Fotos cedidas por Mena Duarte)

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MUSEU DO TRAJE DE VIANA DO CASTELO: O MUSEU COMO FORMA DE CONHECER O TERRITÓRIO CONCELHIO

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Museu Agro Marítimo de Carreço. Visita de professores das escolas do concelho, vendo-se as fotografias de António Silva, dos anos 1950-60.

Dr. João Alpuim Botelho

Director do Museu do Traje de Viana do Castelo

O Museu do Traje tem por missão cumprir as funções museológicas de recolher, preservar, estudar/produzir informação e comunicar/divulgar que estão consignadas na Lei Quadros dos museus, aplicadas ao seu objecto de estudo: os modos de vida tradicional e a identidade cultural alto minhota. Sendo o traje popular rural feminino, usado nas aldeias em redor da cidade de Viana do Castelo, habitualmente conhecido como “Traje à Vianesa” ou “à Lavradeira” o elemento mais conhecido e celebrado da etnografia minhota, foi o motivo para a atribuição do nome a este Museu.

Por Traje à vianesa entendemos o  O Traje usado pelas raparigas das aldeias ao redor de Viana do Castelo até meados do século XX, conhecido como traje à vianesa ou à lavradeira, tem um ousado colorido e uma enorme profusão de elementos decorativos que lhe conferem um aspecto exuberante. Estas características tornam-no único no panorama da indumentária popular em Portugal, sendo facilmente reconhecido e identificado com a região de origem.

Esta foi a principal razão de o Traje se transformar num símbolo da identidade local.

O primeiro impacto do traje é de espanto pela sua beleza, mas não podemos esquecer que está integrado num contexto sócio cultural em que faz sentido: uma economia próxima da auto suficiência, que recorria a trabalhos recíprocos, colectivos e gratuitos, com uma forte carga lúdica e de sociabilidade integrada.

Este contexto é uma chave fundamental para compreendermos este traje e o relacionarmos com o seu ambiente: muitas vezes a mesma rapariga que cultivou o linho (e criou as ovelhas que deram a lã), foi quem o fiou e teceu e depois executou as peças de roupa que tingiu e decorou com bordados e outras aplicações. E não seria raro que fosse essa mesma rapariga a usar o traje, adaptando-o aos ritmos e momentos da vida rural de trabalho quotidiano, dos momentos de descanso, nomeadamente o dominical, e de festa, onde a rapariga se mostra orgulhosamente no seu esplendor.

Foi neste contexto que o traje evoluiu e desenvolveu as características que o individualizam e é por esta razão que é entendido como um espelho de um modo de vida tradicional e da identidade alto minhota.

O traje é o mais relevante e reconhecido elemento da cultura alto minhota, por isso a designação de Museu do Traje homenageia-o como símbolo de identidade, mas não esquece todo o seu enquadramento sócio cultural na vida rural tradicional, bem como a sua projecção nos nossos dias e as pistas que permitem pensar o seu futuro.

O Museu assume assim um papel que é tanto mais importante quanto o Traje é a verdadeira imagem institucional da cidade e está sempre presente na sua divulgação e da região e, naturalmente, não é possível nos nossos dias, encontrá-lo no seu “ambiente natural” (excepto em situações especiais, como festas, romarias e festivais de folclore).

Este é um Museu jovem, criado em 1997, mas que atingiu a sua maioridade em 2004, quando foi certificado pela Rede Portuguesa de Museus.

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Museu Agro Marítimo de Carreço. Recriação de uma cozinha tradicional, realizada por Amadeu Costa, em 1985.

O Museu e o Território Desenvolvimento de um discurso museológico

O Museu encara o Traje como uma janela para a região, para o estudo e a compreensão dos seus modos de vida tradicionais, constituindo-se como um “vasto álbum da região” para usar a expressão de Abel Viana usou num artigo no jornal Notícias de Viana em 18 de Agosto de 1930, reforçando uma ideia que Cláudio Basto escrevera dois anos antes: “ [O Museu deveria ter um programa] verdadeiramente regional [onde] se reflectisse, deliciosamente, a história, a actividade a vida do povo desta laboriosa, colorida e poética região” (1928: 158).

Mas a etnografia e a identidade de uma região não se resumem a uma forma de vestir, por muito especial que seja. Assim, numa altura em que se falava na necessidade de criação do museu, Benjamim Pereira referiu-se ao assunto, afastando-se de formas estreitas e folcloristas de encarar o papel do Museu, retomando e actualizando a herança de Cláudio Basto: “ [Cláudio Basto no seu livro “Traje à vianesa”] liberta-se de uma visão particularista e folclorística e considera o traje como um elemento a integrar num complexo mais amplo, isto é, coloca-se numa perspectiva cultural de conteúdo etnológico.

Seduzidos certamente pela beleza do traje festivo e cerimonial desta região, várias pessoas têm animado um movimento em torno da criação, hoje ainda, de um Museu do Traje Regional. Parece-nos porém que um tal projecto não deve ser viabilizado, dadas as extremas limitações que encerra. Qualquer discurso museológico ou acções culturais a desenvolver numa instituição deste género, ficam condicionadas à manipulação dum único elemento, descontextualizado e, consequentemente, redutor e inexpressivo. A verdadeira personalidade e significado do traje só se alcança através da sua projecção integradora na cultura geral da região. Considerá-lo independentemente dessas coordenadas é correr o risco de não compreender toda a riqueza dos seus significados.” (1989: 11).

É aqui frisada uma ideia que o autor já antes apresentara, num texto significativamente intitulado “Para a defesa e valorização do património etno-museológico do Alto Minho”: “Nunca entendemos as motivações que levaram à defesa da criação em Viana do Castelo de um Museu do Trajo Regional. O trajo faz parte desse complexo global e por isso ele ganhará certamente muito maior sentido quando contextualizado e enquadrado em conjunto com os demais elementos. O traje especifico desta região feito em grande medida nos teares caseiros e modelado por sistema acentuadamente autárcico, não deve ser reduzido ao paradigma do trajo à vianesa ou trajo à lavradeira, embora seja seguramente um dos expoentes mais altos do traje tradicional português. Sem dúvida esse trajo festivo regala, nas diferentes cambiantes locais, uma estética seguríssima e esplendorosa. Mas é bom não esquecer, no extremo oposto, as formas arcaicas de branqueta, dos sargaceiros do Litoral, entre os rios Lima e Ave, feita de burel branco, que sugere o saio romano, ou a capucha de serra nortenha, de burel castanho, semelhante ao cucullus igualmente dos romanos; e entre esses pólos extremos, uma variada gama de trajos, funcionalmente bem caracterizados” (1987: 48).

Para isto propunha o modelo de Museu ao Ar Livre, onde poderiam ser preservados os testemunhos materiais no seu local de origem “segundo métodos científicos, muito estritos, todo esse corpus material da cultura, na multiplicidade das suas formas e funções e na totalidade dos seus aspectos mais significantes. (…)

Este projecto poderia desenvolver-se em duas vertentes: uma unidade central – o verdadeiro núcleo, um Museu Regional – visando representar a cultura da região numa perspectiva globalizante e integrativa percorrida pelas diferentes matizes (…) a que se juntam unidades temáticas expressivas, avulsas, mantidas no seu contexto ecológico” (idem: 46,48), propondo as seguintes unidades temáticas: I. Arquitectura; II. Tecnologia tradicional (Sistemas de moagem, serrações hidráulicas, lagares de azeite; engenhos de linho); III. Actividades agro-marítimas; IV. Tecnologia agrícola; V. Actividades artesanais.

O modelo proposto é diferente do de Museu ao Ar Livre desenvolvido nos países nórdicos, onde se criaram parques para onde se deslocou o corpus material de cultura, reconstruindo ambientes, casas e outros elementos, que assim ficavam reunidos num espaço controlado e visitável com facilidade. Esta solução tem uma diferença essencial, uma vez que procura “valorizar e manter in loco esse património” (idem, p.48), não promovendo a deslocação do património, mas promovendo a sua manutenção no local de origem.

Desta forma o que se perde na facilidade da visita, ganha-se na riqueza do contexto e na genuinidade do ambiente, promovendo ainda o património como parceiro de desenvolvimento local.

São longas as citações mas justificam-se porque ilustram as linhas orientadoras do percurso feito para libertar o Museu do seu edifício (com uma arquitectura tão marcada, com um espaço limitado, instalado no local mais central de uma cidade) para partir se aproximar do seu território de actuação.

A intenção de dar um cariz etnográfico, que, na linha do que atrás vimos, fizesse o enquadramento do Traje à Vianesa, desde o início visto como o principal motivo do museu,

A fórmula encontrada e assumida como instrumento de política cultural municipal foi a de criar núcleos, desenvolvendo assim um Museu Polinucleado, com uma estrutura territorialmente descentralizada, que adopta variadas formas de protecção e comunicação patrimoniais.

Desta forma o Museu aproxima-se do modelo “Um Museu constituído por uma sede e por uma ou mais extensões museológicas correspondentes a núcleos ou pólos estabelecidos em locais fisicamente autónomos da sede, com características patrimoniais, colecções e actividade diversas, mas com uma ligação institucional e orgânica de dependência do núcleo-sede” (Clara Camacho), acrescentando que este conceito não é identificável com um Museu de pequena dimensão

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Museu Agro Marítimo de Carreço. Visita de professores das escolas do concelho

Os Núcleos Museológicos como forma de política cultural integrada.

Foi portanto com esta base que o Museu do Traje desenvolveu um conjunto de recuperação de elementos patrimoniais in-situ, como forma de melhor conhecer e comunicar os modos de vida tradicionais que lhe estão subjacentes.

Estes núcleos nasceram sempre de um encontro de vontades entre uma instituição local (Junta de Freguesia, Associação Cultural, Rancho Folclórico ou outra) que, pretendendo recuperar ou valorizar um elemento patrimonial, recorreu ao apoio – financeiro e técnico - da Câmara Municipal.

A prestação deste apoio, ao assumir a forma de constituição de um núcleo museológico, pode ser integrada na política cultural municipal (em vez de se esvair em pequenos apoios soltos e inconsequentes), até porque a criação do núcleo museológico implica uma co-responsabilização que garante a continuidade no tempo do investimento.

É importante notar que cada um destes protocolos define uma relação específica, não havendo uma matriz única. Desta forma é possível negociar em cada caso concreto as condições e os objectivos de cada núcleo. 

Moinhos de Água da Montaria

Respondendo a uma proposta da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa Montariense, este projecto promoveu a inventariação dos 42 moinhos existentesem São Lourençoda Montaria, promovendo a recuperação de 14.

Nesta freguesia serrana os moinhos são da tipologia rodízio simples e têm um sistema de propriedade partilhada por “herdeiros”, ou seja, a propriedade, não sendo comunitária, é de várias famílias.

Depois da recuperação, a posse dos moinhos manteve-se com o seu donos originais, sem outra obrigação que uma declaração de intenções de serem usados e de permitir visitas aos interessados.

Graças a este regime de propriedade, a recuperação destes moinhos abrange cerca de 80% da população da freguesia.

Este núcleo permite visitar os moinhos através de percursos pedestres que atravessam diversas paisagens que esta zona da Serra d’Arga tem para oferecer, surpreendendo os trabalhos agrícolas de acordo com a época do ano.

Em 2010 foi inaugurada a sede do Núcleo, no largo da Igreja da Montaria, que serve de ponto de partida para a realização de outros estudos e eventos.

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Moinhos de água da Montaria. A senhora Etelvina a moer no Moinho de Baixo (Costa)

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Moinhos de água da Montaria. Moinhos da Costa

Moinhos de Vento de Montedor (Carreço)

Este núcleo foi criado como forma de enquadrar a recuperação de um moinho de vento de velas trapezoidais de madeira, que foi o último em funcionamento em Portugal.

Acompanhando esta recuperação foi criado, no edifício de um outro moinho (de velas de pano), um centro de interpretação com informações sobre os moinhos e a região.

Também neste caso foram preparados percursos ambientais e patrimoniais que percorrem os mais significativos espaços naturais da freguesia.

Neste caso a entidade local foi o Grupo Folclórico Danças e Cantares de Carreço que se responsabiliza pelas visitas e animação do espaço, uma vez que, com marcação, podem ainda ser provados produtos locais e assistir a uma actuação folclórica. 

Museu do Pão de Outeiro

Situado numa escola primária desactivada, adquirida pela Junta de Freguesia, este núcleo expõe o resultado de uma recolha de todas as alfaias agrícolas do ciclo do milho e do pão, desde o preparar de terra, semear e colher, aos trabalhos na eira de limpeza e armazenamento do cereal.

No núcleo foi montado um forno de lenha onde, por marcação, é cozida broa, que se pode provar acompanhando o mel produzido nas encostas destas serras.

Este núcleo inclui uma azenha “copeira” em funcionamento.

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Museu do Pão de Outeiro. O senhor José a fazer o bolo para uma visita escolar

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Museu do Pão de Outeiro. Azenha copeira do Maral, onde o milho é moído para fazer a broa.

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Museu do Pão de Outeiro. Dona Lurdes a fazer uma visita guiada a uma escola 

Museu Agro-Marítimo de Carreço

Quando em 1985 foi construída a nova sede da Junta de Freguesia, uma das salas foi pensada para receber exposições, onde Amadeu Costa fez a recriação de ambientes tradicionais: a sala, o quarto e a cozinha.

Na altura foi feita uma exposição fruto de uma recolha de peças, que nunca foi desfeita, mas também não teve nunca o necessário tratamento museológico, pelo que se foi transformando num armazém desarrumado e, como tal, estava encerrada ao público.

Com este espólio foi possível criar um discurso expositivo sobre as tradições de cultivo da terra que, nesta freguesia, estão intimamente ligadas às actividades marítimas, como a apanha do sargaço, a pesca e a recolecção de moluscos. Este núcleo foi organizado com o apoio de Benjamim Pereira, natural de Carreço e profundo conhecedor da sua terra

Foi ainda possível recuperar e apresentar uma colecção de fotografias dos anos 1950 e 60, da autoria do carrecense António Silva.

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Moinhos de Vento de Montedor – Carreço. Senhor Eugénio Laginha a mostrar aos alunos a farinha, dentro do moinho do Marinheiro

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Moinhos de Vento de Montedor – Carreço. Senhor Eugénio a montar as pás de madeira nas velas do moinho.

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Moinhos de Vento de Montedor – Carreço. Moinho com as velas montadas

Museu do Sargaço de Castelo de Neiva

A tradição da apanha de sargaço (algas marinhas) para fertilizar o solo foi uma actividade tradicional fundamental para a agricultura das terras junto ao mar.

Apesar de essa prática hoje ter caído em desuso, ficaram os saberes, os artefactos e os trajes (a branqueta) a lembrar esses tempos, e que são mostrados neste núcleo.

Mas este espaço aborda também as enormes potencialidades das algas das nossas costas, com aplicações na medicina, na cosmética e também na gastronomia. O facto de grande parte destas algas ser comestível – e saborosas, além de muito saudáveis - faz com que integre já as ementas de vários restaurantes, dando um especial sabor aos mais requintados pratos.

Este núcleo foi feito em colaboração com a Junta de Freguesia de Castelo de Neiva e com os dois grupos folclóricos locais: o GRECANE e o Grupo Etnográfico.

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Museu do Sargaço – Castelo de Neiva. Uma das últimas sargaceiras a usar o redanho na colheita de algas (foto de 2001)

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Palheiros de sargaço, da Senhora Céu Arezes

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Museu do Sargaço – Castelo de Neiva. Interior do museu, com uma jangada e um palheiro de algas

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Museu do Sargaço – Castelo de Neiva. Interior do Museu, com um palheiro de algas e a branqueta.

Actividades dos núcleos:

A preparação de cada um destes núcleos foi objecto de um estudo que foi editado sob a forma de brochuras de divulgação.

A existência dos núcleos permitiu ainda a realização de vários artigos em revistas e apresentação em conferências e em diversas aulas em universidades (Porto, Minho e Politécnico de Viana).

Foi ainda graças ao conhecimento do terreno facultado pelos núcleos que se realizaram três vídeos documentais:

“O Fole” (Carlos Viana – Ao Norte Áudio Visuais),em São Lourençoda Montaria, sobre a confecção do saco de pele de cabrito com que o milho era transportado para o moinho, recuperando este saber já em desaparecimento;

“Milho à Terra” (Carlos Viana – Ao Norte Áudio Visuais) em Outeiro, acompanhando o ciclo anual dos trabalho do milho, usando a última parelha de bois de trabalho da freguesia de Outeiro;  

“O Ciclo do Linho. Da sementeira à espadelagem” sobre a produção artesanal desta planta e sua transformação em têxtil (imagem: Foto Joca; montagem Pedro Duarte; consultor de montagem e textos Benjamim Pereira; Pós Produção: Laranja Azul) também em Outeiro.

Criação e marcação de 10 percursos temáticos nas freguesias;

Recuperação de 15 moinhos de água e um de vento;

Duas campanhas de recolha de peças, resultando em centenas de objectos.

Recuperação e divulgação de um espólio fotográfico com cerca de 50 anos sobre Carreço, de António Silva

Criação de sabonetes de sargaço, com algas apanhadas pela senhora Maria Emília Arezes.

Desenvolvimento de workshops, show-cookings e provas de algas e gastronomia, nomeadamente com o professor Leonel Pereira (Departamento de Biologia da Univ. Coimbra), O chef Rui Paula, e a participação com o restaurante O Augusto, na Conferência Internacional de Vida Marinha, organizada no Jardim Zoológico de Lisboa.

Em cerca de 10 anos estes núcleos foram visitados por mais de 50 mil pessoas, na sua grande maioria escolares, que assim tomaram conhecimento in loco com as actividades e tecnologias agrícolas tradicionais, mas também muitos turistas foram atraídos pela possibilidade de participar nas experiências genuínas e únicas que os Núcleos Museológicos proporcionam.

Conclusão

A rede de cinco núcleos museológicos do Museu do Traje abrange quatro freguesias e conta com parcerias efectuadas com três Juntas de Freguesia, uma Associação Cultural e três Rancho Folclórico, ocupando uma escola primária desactivada, vários moinhos de vento e água, duas sedes de Junta.

Não tendo uma geometria fixa, a rede de núcleos tem a vantagem de se poder continuar a expandir com outras parcerias, pensadas especialmente para cada caso, que alargarão a área geográfica e temática da actuação do Museu.

Esta forma de intervenção permite uma aproximação ao território, promovendo um melhor estudo, conhecimento e divulgação da etnografia local.

Esta rede de núcleos dedicados à Etnografia complementa-se com outra dedicada à Arqueologia, ligada ao Museu de Arte e Arqueologia / Gabinete de Arqueologia, que pode ser visitada em Viana (Casa dos Nichos e Capela das Almas), Geraz do Lima (Igreja) e Castelo de Neiva.

É, portanto, uma forma de exercício de uma política cultural municipal consequente, que envolve e co-responsabiliza a população local na defesa do se património, promovendo a sua auto estima e contribuindo para o seu desenvolvimento.

O MINHO NA INTERNET: PONTE DE LIMA ESTÁ NA DESPORTIVA!

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“Desporto em Ponte de Lima” é o blog de referência do desporto limiano. Através dele, pode o leitor acompanhar os jogos, os resultados e de uma maneira geral toda a actividade desportiva relacionada com Ponte de Lima nas suas mais diversas modalidades.

O blog “Desporto em Ponte de Lima” segue a par e passo, desde 2009, tudo quanto se passa nesta área, encontrando-se no endereço http://desportopontedelima.blogspot.com/. É caso para dizer que Ponte de Lima está na desportiva!

AS ORIGENS NÓRDICAS DO PAI NATAL

Odin, rei do Asgard na mitologia nórdica, é para os povos escandinavos o mesmo que Zeus e Júpiter foi respectivamente para os gregos e os romanos. Odin, ou Woden, quando não habita o seu palácio dourado, o Gladsheim, encontra-se no Valhala que é o "salão dos mortos", entre os heróis e onde pontificam as formosas valquírias a quem compete manter permanentemente cheios os vasos de bebida que são feitos de chifre. É ainda às valquírias que compete eleger os heróis e decidir a sua sorte no campo de batalha, quem haverá de morrer e, finalmente, conduzir os bravos ao Valhala. "Val" significa morto.

Por seu turno, Odin possui como companheiros inseparáveis dois corvos - Hugin e Munin - que representam respectivamente o Pensamento e a Memória, os quais voam diariamente através do mundo para lhe levarem as notícias acerca dos actos cometidos pelos humanos. Uma vez convenientemente informado pelos seus corvos, Odin parte num trenó puxado por renas levando consigo presentes com que irá recompensar as boas acções praticadas ao longo do ano. Eis o mito que verdadeiramente se encontra na origem da fabulosa crença do "Pai Natal", séculos mais tarde adaptado pela Igreja Católica a uma versão mais cristianizada com a substituição de Odin por um corpulento bispo que distribuía presentes - São Nicolau. Em qualquer dos casos, enxertos realizados nas tradições do nosso povo que durante séculos apenas conheceu a veneração ao "menino Jesus".

 GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/

Natale Solis Invicti ou o Solistício do Inverno

Todo o mundo cristão celebra por esta altura o nascimento de Jesus, não obstante desconhecerem-se quaisquer referências históricas ou bíblicas que mencionem a data em que tal acontecimento se verificou. Por conseguinte, o Natal é festejado a 25 de Dezembro ou a 7 de Janeiro de acordo com as tradições católica ou ortodoxa, em virtude da adopção dos calendários juliano ou gregoriano. Ora, é nesta ocasião que ocorre o solstício do inverno ou nascimento do sol, precisamente a altura em que os raios solares deixam de decrescer e passam de a aumentar, fazendo de novo crescer os dias em relação às noites.

Desde a mais remota antiguidade que o ser humano adorou o sol, deusificando-o e atribuindo-lhe a primazia sobre as demais divindades. Tal sucedeu na Caldeia, na Palestina e no Egipto, aqui adorado sob o nome de Ra. Na antiga Pérsia e na Índia, o deus Sol era designado por Mitra tendo o seu culto dado origem ao mitraísmo que viria mais tarde a rivalizar com o cristianismo a sua influência no Império romano, acabando por vir a sucumbir com a sua queda e mais tarde acabando por desaparecer por completo com o avanço do islamismo na Pérsia. Antes, porém, o mitraísmo fora assimilado pelos gregos e espalhou-se por todo o Império romano. O deus Mitra era geralmente representado por um jovem com um boné frígio, túnica e manto sobre o ombro esquerdo. Esta religião era superiormente dirigida por um sumo pontífice a os seus sacerdotes ostentavam sobre a cabeça uma mitra. Curiosamente, trata-se do chapéu com que os bispos se apresentam quando envergam as vestes pontificais, tendo a sua origem na Pérsia e no Egipto, correspondendo ao turbante e por conseguinte aludindo à adoração de Mitra.

Não admira, pois, que ao culto solar tenha sido sobreposta a adoração ao menino Jesus, sendo-lhe atribuída a data do seu nascimento precisamente numa altura em que os romanos celebravam o natale solis invicti consagrado ao deus Sol, à semelhança do que se verifica com inúmeras festividades pagãs que foram de algum modo adaptadas e "convertidas" à crença cristã. Na mesma ocasião realizavam os romanos as saturnais ou saturnálias que, como o próprio nome indica, eram festividades consagradas a Saturno, trocavam de presentes e organizavam um banquete público, aspectos que de alguma forma podemos relacionar com as tradicionais “festas dos rapazes” em várias localidades de Trás-os-Montes. Aliás, o culto a Saturno chegou a ser muito difundido na Península Ibérica, tendo diversos escritores da antiguidade referido-se à existência de santuários entre os quais se supõe ter havido um na Ínsua do rio Minho, um local onde actualmente as gentes locais vão em peregrinação ao Senhor Jesus dos Mareantes, fazendo festa rija em Agosto. Saturno era o deus protector dos semeadores e das sementes, pelo que os romanos acreditavam que durante as saturnais regressava a abundância, assegurando a fertilidade durante essa época do ano.

Ainda em relação ao mitraísmo, também este possuía extraordinárias semelhanças com o cristianismo, entre as quais a crença no céu e no inferno, na ressurreição, nos pastores que tal como os reis magos ofereciam presentes, no dilúvio, na santificação do domingo, na prática da confissão e da comunhão e, finalmente, a própria celebração do 25 de Dezembro!

A celebração do nascimento de Jesus constitui actualmente uma festa que é vivida com grande grande intensidade pelo povo português e que, apesar da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais. Não obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente enraizadas no nosso folclore revelando-se através das mais diversas manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e de um modo geral em todos os aspectos que envolvem tais celebrações. Não obstante, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns costumes genuínos do nosso povo, como sucede com a reverência ao "Pai Natal", agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as festividades decorriam exclusivamente em torno do "menino Jesus". Da mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais nevou...

GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/

ESPANHÓIS "AMIGOS DE PORTUGAL" EXALTAM BELEZAS NATURAIS DE CARREÇO

“AMIGOS DE PORTUGAL” é um blogue produzido por espanhóis, no endereço http://amigos-de-portugal.blogspot.com/, que acaba de publicou um interessante artigo sobre a localidade de Carreço, no Concelho de Viana do Castelo. O artigo é da autoria de Joaquín Duarte, um cidadão espanhol radicado em Valência mas de naturalidade portuguesa.

Com a devida vénia, transcrevemos o referido artigo, agradecendo o destaque dispensado ao Concelho de Viana do Castelo.

CARREÇO

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Carr rua Gandra

Parafraseando o escritor Ruben A., que foi um apaixonado por Carreço, na década de 40 do século XX escrevia assim – “Ai esta palavra Montedor, lugar maravilhoso da freguesia de Carrêço, típica aldeia alto-minhota, entre o mar e a serra; o farol a alumiar cá pra baixo, os moinhos de vento a girar, a estepe milenar persistente da Gandra, a par de uma beleza panorâmica sem limites.”

Carreço, estende-se entre o mar e a serra, divide-se em quatro lugares: Carrêço, Montedor, Paço e Troviscoso. Entre areia dourada e grandes pinheirais, campos verdejantes alimentados pela humidade da brisa marinha, que os seus lavradores cultivam desde sempre, maioritariamente, o milho. Com a cultura do milho nasceu a necessidade da sua transformação e o aparecimento dos moinhos.

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Carr castillo

Carr praia

Carr praia e dunas

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Carr praia pedras

Nos lugares de Carreço, Pacô e Troviscoso, os lavradores construíram moinhos movidos por água. 

Os moinhos de água têm uma roda horizontal, a qual está ligada ao eixo que movimentava a mó. Outros, não nesta comarca, eram movidos por uma roda vertical, as azenhas.

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Entretanto os lavradores do Lugar de Montedor, construíram moinhos movidos pelo vento: moinhos do Petisco, do Marinheiro e de Cima, situados no promontório de Montedor, hoje conhecido pelo monte do Farol.

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Quanto aos moinhos de vento, um tem velas de pano (moinho do Petisco) e os outros dois tem velas trapezoidais de madeira (moinhos de Cima e do Marinheiro), considerados uma raridade em Portugal.

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No século XX, ao finalizar a década dos 40, surge em Carrêço a moagem electromecânica. Dos anos 50 aos 60 a utilização dos moinhos de água, e de vento, vai diminuindo gradualmente. Con esta transformação vai-se perdendo a imagem tradicional da ida ao moinho; do burro, ou cavalo, carregado de sacos de farinha; acompanhado pelo lavrador, ou pela lavradeira. Mas os Moinhos de vento de Montedor seguem vivos, o seu cata-vento, sempre a indicar a direcção e o sentido do vento. O entrono, convida-nos a relembrar a força dos lavradores de Carrêço e o seu engenho na utilização da energia eólica.

Um grande poeta da nossa terra, que ademais foi um dos meus professores de língua portuguesa, Pedro Homem de Melo, escreveu assim sobre estes belos lugares...

MOINHO DAS QUATRO VELAS

 

Moinho das quatro velas

- Moinho de Montedor –

Quatro velas de madeira 

Decepadas pelo ar, 

Enquanto há braços que alongam 

E refrescam e baptizam 

Os nossos olhos cansados... 

Braços nus. Braços de gente. 

E o Floriano dança o Velho, 

Dança o António a Cana Verde 

E dança o Góta o Vicente! 

 

Altas velas de madeira 

- Moinho de Montedor – 

recordam círios de altar. 

Fogem sombras de fogueira 

Ou braços de bailadores? 

Floriano, António, Vicente 

Lembram as ondas do mar... 

Mas sem barcos, mar de “argaço”. 

 

À transparência das águas, 

Quase até que adivinhamos 

Firmes as pernas e os pés 

De quem baila mas vivendo 

A fazer frente às marés. 

 

Por detrás desse moinho 

- Moinho de Montedor – 

Domingos Enes Pereira 

Nasceu. E foi junto dele 

Que se tornou bailador... 

 

Marés de música cheias! 

Floriano, António, Vicente, 

Como o azul das suas veias 

Com certeza que não mente.

 A par daquele moinho 

– Moinho de Montedor - 

(O das velas de madeira!) 

Dança o António a Cana Verde 

E o Floriano dança o Velho 

E dança a Góta o Vicente.  

 

(Helénico, intacto, inteiro) 

Surge, ainda em nossa frente, 

O perfil do Fandangueiro!) 

 

Floriano, António, Vicente, 

Como, o azul das suas veias 

Com certeza que não mente, 

Vêm de perto o vêm de longe 

Marés de música cheias? 

 

Moinho de quatro velas 

Decepadas pelo ar! 

Bailam três moços com elas, 

Depondo círios no altar 

Da minha saudade, à beira 

Do farol de Montedor, 

Dando luz – luz traiçoeira... 

A luz que me há-de queimar! 

 PEDRO HOMEM DE MELO

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Estes dados foram-me facilitados pelo amigo Manuel, filho da terra que, acompanhado da sua esposa, levaram-me por todos os recantos, por eles conhecidos, fazendo prazenteira a minha estadia nesta linda terra.

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Que boas aquelas amoras, e que doces, quando o dia chegava ao seu fim... mas ainda deu para saborear as artes culinárias da mi amiga Augusta: com tão excelente companhia quem quer ir-se embora... foi o dia... foi o dia... por isso fui feliz em Carreço!

EM 1926, ADMINISTRADOR DE ARCOS DE VALDEVEZ AGRIDE E EXPULSA OS VEREADORES

Na Sessão da Câmara dos Deputados realizada em 12 de Março de 1926, sob a presidência de Daniel José Rodrigues, o deputado José Domingues dos Santos protestou contra as arbitrariedades cometidas pelo então Administrador do Concelho de Arcos de Valdevez que, segundo o referido parlamentar, agrediu e expulsou os vereadores do edifício municipal. Escassos meses depois, foi implantada a ditadura militar que veio a abrir o caminho para o estabelecimento do Estado Novo…

Transcreve-se do Diário da Câmara dos Deputados a intervenção a propósito, mantendo-se a grafia original.

 

“Sr. Presidente: Há cêrca de quinze dias já que eu pedi a presença do Sr. Presidente do Ministério e Ministro do Interior para tratar de alguns casos que reclamam a intervenção de S. Exa. Lamento que só hoje os possa tratar e espero que, de futuro, S. Exa. seja mais atencioso para com os representantes da Nação, que têm o direito e o dever de formular na Câmara as reclamações que entendem.

Sr. Presidente: quero principiar por apresentar ao Sr. Presidente do Ministério o meu protesto, que é também o da Esquerda Democrática, contra mais uma arbitrariedade cometida por um representante do Poder. Parece, Sr. Presidente, que não vivemos numa terra civilizada, onde impera a lei; parece que vivemos em pleno sertão africano, onde dominam os caprichos e as contingências do acaso.

O caso a que me vou referir é bem sintomático disso.

Em Arcos de Valdevez foi anulada a eleição camarária por despacho proferido por um juiz auditor, de onde não houve recurso, tam graves tinham sido as irregularidades praticadas. Automaticamente, como determina a lei, devia tomar posse a vereação anterior. De facto, assim sucedeu. Mas um dia, em que essa vereação estava tratando sossegadamente de negócios municipais, o administrador do concelho, à frente do alguns díscolos, entrou na Câmara, agrediu os vereadores e pô-los fora do edifício. Sabe V. Exa. Sr. Presidente do Ministério, quem presidia à sessão na Câmara?... O antigo Deputado Sr. Germano de Amorim, que, violentamente, como os outros, foi, pelo delegado de V. Exa., pôsto também fora, insultado e agredido.

Podemos continuar neste regime, permitindo que as piores arbitrariedades, os piores abusos, sejam praticados pelos representantes do Poder? Compete aos representantes do Poder manter a ordem ou são êles, afinal, os próprios a fomentar a desordem? Já mais do uma vez temos chamado a atenção do Govêrno para várias irregularidades que vêm sendo praticadas pelos administradores dos concelhos que, há tempos a esta parte, parecem não ter outra missão senão a do avivar conflitos e comprometer o Poder.

Espero, Sr. Presidente, ser desta vez mais feliz na minha reclamação do que quando há dias protestei também contra um analfabeto, que administra o concelho do Barreiro. Desse caso tratará o meu ilustre colega, Sr. Pestana Júnior.

E indispensável pôr termo a esta forma de lazer administração. Ou vivemos num País onde a luta legal é permitida, ou temos de ir dizer aos nossos correligionários que assim é impossível viver.”

Nadal en Galicia... e súas panxoliñas

Hai festa na parróquia. As xentes xuntam-se à lareira para celebrar a Noiteboa. Unha morea de iguarias enfeita a mesa de torradas molhadas no leite, fritas de gordura e salpicadas con açúcar, compotas de peras no vino tinto, polbo, verduras con bacalhau, sopa de amêndoas, froitos secos e castañas. À mesa ou xunto a lareira, un escano e un prato vazio é propositadamente deixado para los que están mortos a fin de que a alma possa vir comer e aquecer-se. Depois, xuntam-se as panxolas e os rapaces ván con sús traxes pelos veciños cantar suas panxoliñas, quedándose às portas con súas gaitas e panderetas, piden autorizaçón para entrar, cantán e piden alguma cosa.

                                                   A noitiña de Nadal,

                                                   Noite de gran alegría;

                                                   Naceu un reiciño novo

                                                   Fillo da Virxe María.

                                                   Camiñando vai Xosé,

                                                   Camiñando vai María,

                                                   Camiñan para Belén

                                                   A fin de chegar con día.

                                                   Cando a Belén chegaron,

                                                   Toda a xente dormía,

                                                   Menos un pobre porteiro

                                                   Que estaba na portería.

                                                   - Abre as portas, porteiro,

                                                   - A Xosé e María.

                                                   - Estas portas non se abren

                                                   Ata que Deus traia o día.

                                                   - Estas portas non se abren

                                                   Ata que Deus traia o día.

Depois da Noiteboa e súas panxoliñas celebradas na noitiña de Nadal, as festas prolongam-se ata à Noite Vella que ocorre a 31 de decembro e, daí ata Día de Reis em 6 de xaneiro. Conta unha tradiçión galega que todo lo bruxedo praticado na Noiteboa non logra alcançar ninghúm sucesso, pois é a noitiña do nacemento do meniño Xesús, cando a luz triunfa sobre a escuridón, o Bem sobre o Mal.. E, porque é solstício de inverno, as ervas colhidas en noitiña de San Xoán volven a ter o verde de orixe. Revonava-se o fogo na lareira con un gran tizón que depois de se queimar un póco se apaga. O tizón de Nadal apenas volverá a acender-se cando haxa ameaça de peligro. Na Coruña e en Lugo, en Ourense e Pontevedra, desde Ferrol ata A Guarda, da Moaña ata Castroverde, é Nadal en todolos pobos marinheiros e rurais de Galicia, en todalas aldeas e parroquias se celebra unha festa xenuína que ten a ver coa tradición cultural portuguesa em xeral e das xentes do Miño en particular. Como hai dixo o poeta João Verde:

                                                   - Vendo-os assim tão pertinho

                                                   a Galiza mail-o Minho

                                                   São como dois namorados

                                                   Que o rio tráz separados

                                                   Quase desde o nascimento

 

                                                   - Deixal'os, pois namorar

                                                   já que os pais para casar

                                                   lhes não dão consentimento

Hai, pois, que celebrar todolos xuntos en familia, galegos e portugueses, o noso Nadal, com zambumbas e panxoliñas, con ganas pola la chegada do día da gran naçom portugalaica. Hai que cumprir Portugal!

- GOMES, Carlos. In Folclore de Portugal – O Portal do Folclore Português em http://www.folclore-online.com/

O QUE DIZ O “MEMORANDO DE ENTENDIMENTO SOBRE AS CONDICIONALIDADES DE POLÍTICA ECONÓMICA”?

O “Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica”, vulgo "memorando da troika", constitui um documento que produz grandes consequências no funcionamento da Administração Pública e, de um modo geral, na vida de todos os portugueses.

A propósito de tudo e de coisa alguma, invoca-se o referido “Memorando” sem que a maioria dos cidadãos estejam esclarecidos em relação ao seu conteúdo. Por essa razão, sugerimos a sua leitura, podendo aceder através do endereço:

http://www.portugal.gov.pt/pt/GC19/Documentos/PCM/MoU_PT_20110517.pdf

FELIZ NATAL!

O BLOGUE DO MINHO

deseja a todos os seus leitores, colaboradores e respectivas famílias e a todos os minhotos em geral um

Feliz Natal e Próspero Ano Novo

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Fado do Minho

Ai Minho verde, ai minha água, ai alto Minho

Minho da minha mágoa no meu caminho

Ai Minho sede que és o meu pão e és o meu vinho

Ai flor de Portugal com pés de linho

 

Minho bordado com linha pura a ponto aberto da ansiedade

Minho lavado p’la amargura que já deixou de ter saudade

Ai Minho festa do rosmaninho e da giesta

Ai onde Portugal teve o seu ninho

 

Vira a tristeza em riso aberto

Vira a saudade em poesia

E vira o nome dessa linda romaria

Quando o regresso estiver certo

Minha Senhara da Agonia

Hás-de virar Nossa Senhora da Alegria

 

Minho dobrado como um salgeiro, Minho magoado

Ai minha voz de Bernardim Primeiro

Ai Minho Lima que és vindima dum povo inteiro

Ai Minho dos maus olhos, meu ribeiro

 

Minho emigrado, Minho distante mas sempre pai de cada filho

Arroz molhado, nunca bastante, caldinho verde, broa de milho

Minho grilhão, Minho arrecada bendito pão

De quem pôde voltar é terra amada

Ary dos Santos / Mário Moniz Pereira

Repertório de Carlos do Carmo

As origens da Coroa do Advento

A Coroa do Advento constitui um dos símbolos da época do Natal a anunciar o nascimento do Messias. Nos domingos do Advento, considerado o primeiro tempo do Ano Litúrgico correspondendo às quatro semanas que antecedem o Natal, as quais surgem representadas nas quatro velas. A família reúne-se à sua volta para rezar e celebrar. Seguindo a sua liturgia, é acesa a vela que corresponde à respectiva semana, entoando cânticos e fazendo leitura de passagens da Bíblia alusivas ao Advento.

As origens desta tradição remontam a antigos ritos colares praticados pelos povos europeus através dos quais celebravam o nascimento do Sol ou seja, o solstício de Dezembro, os quais vieram mais tarde a dar origem às saturnais romanas.

A sua forma circular representava precisamente a divindade solar que ocupava um lugar central em todos os ritos pagãos. Durante o inverso, os povos antigos acendiam grandes fogueiras, simbolizando a luz e o calor em cujo regresso se depositavam as esperanças, aparece simbolizado nas velas que fazem parte dos rituais da nossa fé.

Com efeito, através do rito, os povos antigos celebravam a acção criadora dos Deuses, assegurando dessa forma a ininterrupção do ciclo da vida e da morte num perpétuo renascimento e conferindo ao ritual um cunho de magia.

Porém, partindo de tais costumes e tradições, os cristãos transmitiram a esses povos pagãos uma nova espiritualidade, levando-os a substituir as suas crenças ancestrais. E, desse modo, também a Coroa do Advento adquiriu uma nova simbologia e um novo significado.

Para o cristão, a infinitude do círculo representado na forma circular da Coroa do Advento representa o amor de Deus e a sua eternidade, bem assim como a aliança entre Deus e o Homem.

Os seus ramos verdes simbolizam a Esperança e a Vida na crença da Vida Eterna e da Ressurreição que constitui precisamente aquilo que distingue o verdadeiro cristão.

GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/

"TROLHA D'AFIFE": UMA CANÇÃO DO FOLCLORE VIANENSE RECOLHIDA EM FINAIS DO SÉCULO XIX

A cantiga “Trolha d’Afife” constitui uma das preciosidades recolhidas em finais do século XIX em Afife, no Concelho de Viana do Castelo. O seu título remete-nos para o ofício de pedreiro que já então constituía vocação dos afifenses.

Esta música aparece publicada no “Cancioneiro de Músicas Populares” que constitui uma obra publicada em 1893 e que pode ser consultada na Biblioteca Nacional de Portugal.

Na sua capa pode ler-se o seguinte: “Cancioneiro de musicas populares contendo letra e musica de canções, serenatas, chulas, danças, descantes, cantigas dos campos e das ruas, fados, romances, hymnos nacionaes, cantos patrioticos, canticos religiosos de origem popular, canticos liturgicos popularisados, canções políticas, cantilenas, cantos maritimos, etc. e cançonetas estrangeiras vulgarizadas em Portugal / collecção recolhida e escrupulosamente trasladada para canto e piano por Cesar A. das Neves ; coord. a parte poetica por Gualdino de Campos ; pref. pelo Exmo Sr. Dr. Teophilo Braga”

FONTE DO ÍDOLO, EM BRAGA, HÁ MEIO SÉCULO ESTEVE AO ABANDONO

O desaparecido jornal “Diário Popular”, na sua edição de 7 de Outubro de 1950, alertava para a situação de abandono que então se encontrava a “Fonte do Ídolo”, em Braga.

A Fonte do Ídolo, assim designada por nela se encontrar esculpida na rocha a imagem de Tongoenabiagus, uma divindade galaica que poderá tratar-se da junção de Tongoe e Nabia, respectivamente reunindo os deuses do juramento e das águas. Aliás, é ao culto a Nabia que devemos os nomes de alguns rios portugueses como o Neiva e o Nabão.

Pelo seu interesse, transcrevemos o artigo então publicado no “Diário Popular”.

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Fonte do Ídolo, em Braga. (Foto: Wikipédia)

ENCONTRA-SE AO ABANDONO EXIGINDO CUIDADOS URGENTES A HISTÓRICA “FONTE DO ÍDOLO”, EM BRAGA

Braga e os seus arredores orgulham-se justamente de alguns monumentos dos de maior valor histórico e arqueológico do país. Entre estes conta-se a “Fonte do Ídolo”, que a linguagem popular deturpou e simplificou para “Idro” e que é considerado, no seu género, um dos mais expressivos exemplares epigráficos da época pré-romana.

Situada num moderno quintal público, entre o Hospital de S. marcos e a avenida Gomes da Costa, a “Fonte do Ídolo” é constituída por um pequeno penedo granítico – três metros de largura por 8m,20 de altura – tendo esculpias inscrições latinas: “Icus – Fronto – Arcobigensis – Ambimogidus – Fecit” e uma figura de homem com cerca de 1m,20 de altura, de pé. Mais adiante, outra inscrição em que, a seguir a uma palavra ilegível, se vê nitidamente: Tongoe – Nabiagoi. Albano Belino, em 1895, o Professor Leite de Vasconcelos, e, mais recentemente, o arqueólogo dr. Carlos Teixeira ocuparam-se da “Fonte do Ídolo”, interpretando, cada um, o sentido das inscrições. Ao lado da última está, esculpida na rocha, uma pequena edícula contendo um busto humano. No frontão, vê-se, de um lado, uma pomba, e, do outro, um objecto semelhante a um maço de canteiro.

Investigadores e eruditos são unânimes em considerar a Fonte como um monumento em louvor do deus bárbaro Tongoenabiago, sendo as inscrições explicáveis pela filologia céltica. Em resumo, o monumento e a pápida, que lhe está próxima, dedicado à deusa Nabia, constituem relicários preciosíssimos, raros no seu género.

Pois bem: o pequeno quintal onde se encontra a “Fonte do Ídolo”, e ao qual dão acesso alguns degraus sujos e gastos, encontra-se transformado em mictório ou local de despejos! Ao lado, uma taberna sórdida, em cujo terreiro, dominando a Fonte, se pratica toda a espécie de fogos; há horas em que um turista, mais curioso de elementos históricos, não pode visitar este extraordinário monumento… sem tapar o nariz ou os ouvidos. Mau cheiro e palavrões são a moldura actual de um exemplar arqueológico dos de maior valor e mais representativos, do Norte do país. Afigura-se-nos que a “Fonte do Ídolo” era digna de melhor sorte urbanística e, por isso, aqui deixamos o nosso protesto e o nosso apelo à atenção do Município bracarense.

VAMOS CANDIDATAR A “VACA DAS CORDAS” A PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE?

Vaca das Cordas

CARLOS GOMES

in jornal "NOVO PANORAMA" nº. 58, de 15 de Dezembro de 2011

É de origem bem remota a tradição da Vaca das Cordas tal como ela é realizada em Ponte de Lima, devendo mesmo constituir uma das tradições mais primitivas do povo português.

Todos os anos, na véspera do Corpo de Deus, os limianos mantêm o peculiar costume de correr pela vila uma vaca preta, presa e conduzida pelos ministros da função que assim procedem com o auxílio de três longas cordas. Ao começo da tarde, o animal é preso ao gradeamento da igreja Matriz, aí permanecendo exposta à mercê do povo que outrora, num hábito que com o decorrer do tempo se foi perdendo, por entre aguilhoadas e gritaria procurava embravecer o animal a fim de que ele pudesse proporcionar melhor espectáculo. Invariavelmente, às dezoito horas, lá aparecem os executantes da corrida que, após enlaçarem as cordas nos chifres da vaca, desprendem-na das grades e dão com ela três voltas em pesado trote em redor da igreja após o que a conduzem para a Praça de Camões e finalmente para o extenso areal junto ao rio Lima. E, por entre enorme correria e apupos do povo, alguns recebem a investida do animal aguilhoado e embravecido ou são enredados nas cordas, enquanto as janelas apinham-se de gente entusiasmada com o espectáculo a que assiste.

A respeito das suas origens, em meados do século dezanove, o historiador pontelimense Miguel dos Reys Lemos arriscou a seguinte opinião que publicou nos “Anais Municipais de Ponte de Lima” :

"Segundo a mitologia, Io, filha do Rei Inaco e de Ismene - por Formosa e meiga - veio a ser requestada por Júpiter. Juno, irmã e mulher deste apaixonado pai dos deuses, que lia no coração e pensamentos do sublime adúltero e velava de contínuo sobre tudo quanto ele meditava e fazia, resolvera perseguir e desfazer-se da comborça que lhe trazia a cabeça numa dobadoura.

Ele, para salvar da vigilância uxória a sua apaixonada, metamorfoseou-a em vaca: - mas Juno, sabendo-o, mandou do céu à terra um moscardo ou tavão, incumbido de aferroar incessantemente a infeliz Io, feita vaca e de forçá-la a não ter quietação e vaguear por toda a parte.

Io, assim perseguida e em tão desesperada situação, atravessou o Mediterrâneo e penetrou no Egito: aí, restituída por Júpiter à forma natural e primitiva, houve deste um filho, que se chamou Epafo e, seguidamente, o privilégio da imortalidade e Osiris por marido, que veio ter adoração sob o nome de Ápis.

Os egípcios levantaram altares a Io com o nome de Isis e sacrificavam-lhe um pato por intermédio de seus sacerdotes e sacerdotizas: e parece natural que, não desprezando o facto da metamorfose, exibissem nas solenidades da sua predilecta divindade, como seu símbolo, uma vaca aguilhoada e errante, corrida enfim.

Afigura-se-nos que sim e, portanto, que a corrida da vaca, a vaca das cordas, especialmente quanto à primeira parte, as três voltas à roda da Igreja Matriz, seria uma relíquia dos usos da religião egípcia, como o boi bento, na procissão de Corpus-Christi, é representativo do deus Osiris ou Ápis, da mesma religião. E esta foi introduzida com todos os seus símbolos na península hispânica pelos fenícios, aceite pelos romanos que a dominaram, seguida pelos suevos e tolerada pelos cristãos em alguns usos, para não irem de encontro, em absoluto, às enraizadas crenças e costumes populares.

É que essa Ísis, a vaca de Júpiter, a deusa da fecundidade, teve culto especial precisamente na região calaico-bracarense, na área de Entro Douro e Minho; no Convento Bracaraugustano, ou Relação Jurídica dos Bracaraugustanos (povos particulares de Braga), de que era uma pequeníssima dependência administrativo-judicial o distrito dos límicos, prova-o o cipo encravado na face externa dos fundos da vetusta e venerada Sé Arquiepiscopal, - cipo que a seguirtranscrevemos inteirado, conforme a interpretação que em parte, nos ensinou e em parte nos aceitou o eruditíssimo professor do Liceu, Dr. Pereira Caldas:

ISID · AVG · SACRVM LVCRETIAFIDASACERD · PERP · P ROM · ET · AVG

CONVENTVVSBRACARAVG · D ·

Interpretação:

ISIDI AUGUSTAE SACRUM; LUCRETIA FIDA SACERDOS PERPETUA POPULI ROMANI ET AUGUSTI, CONVENTUUS BRACARAUGUSTANORUM DICAT

Tradução:

"SENDO LUCRÉCIA FIDA SACERDOTISA PERPÉTUA DO POVO ROMANO E DE AUGUSTO, O CONVENTO DOS BRACARAUGUSTIANOS DEDICA A ISIS AUGUSTA (OU: À DEUSA ISIS) ESTE MONUMENTO SAGRADO"

Pela importância que a vaca possui para as comunidades rurais do Minho em geral pela sua participação nos trabalhos da lavoura e na alimentação doméstica, tirando partido da paisagem verdejante da região, é bem provável que a mesma tivésse outrora sido venerada como uma deusa da fecundidade e, em torno desse culto, tivéssem surgido os mais variados rituais posteriormente cristianizados como o Corpus Christi e as Festas do Divino Espírito Santo, anunciado a chegada das primeiras colheitas e, por consequência, uma época de prosperidade e abundãncia que aconselha a repartir.

A “Vaca das Cordas” reúne, todas as condições para que, caso a Câmara Municipal de Ponte de Lima elabore o respectivo pedido de inventariação junto do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), venha a ser registada no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. De salientar que, nos termos da legislação portuguesa, o registo de uma manifestação cultural no Inventário Nacional constitui condição indispensável para a sua candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade. A sua candidatura deveria constituir um objectivo a congregar todos os esforços dos limianos pela valorização do seu património cultural e da sua própria identidade!

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OS GALEGOS SÃO NOSSOS IRMÃOS!

Publicou o jornal “Notícias Ilustrado”, na sua edição de 10 de Março de 1929, uma interessante reportagem acerca da comunidade galega radicada em Portugal, dando a conhecer importantes personalidades que se salientaram nos mais variados domínios, desde as artes à indústria, realçando o seu carácter trabalhador e honesto e lembrando ao mesmo tempo as afinidades que ligam os portugueses às gentes da Galiza. É precisamente essa reportagem que aqui parcialmente reproduzimos.

A tradição galaica em Portugal é das mais curiosas, das mais características. Dessa região admirável que um poeta supremo da Espanha cantou enternecidamente, Curros Henriquez, no seu livro máximo “Aires de mi tierra” desse torrão abençoado, que é Portugal na cor quente da sua paisagem, na suavidade acalentadora do céu clima, dessa terra de monumentos antigos e de troveiros campezinos, teem vindo pacientemente, hora a hora, ano por ano, século, por século gerações de gente de trabalho, famílias inteiras à terra portuguesa, onde um nobilitante trabalho lhe dá quasi fóros de naturais. O árduo labor das suas profissões grangeiou à população galega que vive entre nós, uma simpatia fraterna, um convívio demorado, uma cativante estima que apaixonou as duas raças como se verdadeiros irmãos fossem, como se as norteiasse um mesmo ideal de trabalho, a mesma religião de atividade e de esforço.

Prepara-se Portugal para celebrar a semana galaica, sete dias de consagração dos nossos seculares vizinhos.gos

 “O Notícias Ilustrado” dá com este numero a sua comovida colaboração nessa homenagem à colonia galaica que em Portugal tem tão numerosa representação. Irmãos na raça, na actividade, galegos e portugueses irmanam-se na sua intimidade sã e cordeal. E é tão grande essa tradição de amisade que, já em tempos do rei D. João I, um fidalgo da Galiza D. Pedro Alvarez de Souto Maior, que foi Conde de Caminha e Visconde de Tuy, seguiu as hostes de Portugal, onde casou com uma senhora dos Tavoras de Mogadouro, de que há ainda hoje larga descendência, na nobreza lusitana.

Hoje, a colónia galaica, é das mais importantes do nosso paiz. Não só trabalhadores humildes e infatigáveis, trocaram os campos verdes e paisagens fartas pela labuta nos nossos centros; homens de valor, da industria e da sciencia teem em Portugal construído os seus lares. É das mais laboriosas colónias – a da Galiza irmã – esta que tem em Portugal no coração – irmãos; e na alma amigos sinceros e complementos espirituaes – temos entre nós poetas e artistas galegos – que nos acarinham a alma com as suas obras que tanto se casam com o nosso sentimento e com a nossa ternura de meridionais.

Eles são, na nossa terra de sonhadores, de idealistas, como que um pedaço da Espanha cavalheiresca, cheia de tradição, alfobre de lendas deliciosas, ninho de afirmações, onde o Sol tem o brilho que tem no nosso Portugal e onde a paisagem tanto se identifica com a nossa.

(clichés de Batista e Ferreira da Cunha)

“….não se deve esquecer que entre a gente de alem Douro, entre minhotos e galegos, apenas existem características diferentes”

- Alejo Carrera

O MINHO NA INTERNET: PAREDES DE COURA - TERRITÓRIO COM ALMA!

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“Paredes de Coura – Território com Alma” é um blogue de informação courense que se publica desde 2007. Para além dos artigos de indiscutível interesse cultural, este blogue procura acompanhar tudo quanto acontece no Concelho de Paredes de Coura e ainda relacionado com os courenses ausentes da sua terra, apoiando nomeadamente as actividades da sua associação regionalista – a Casa Courense em Lisboa.

O blogue “Paredes de Coura – Território com Alma” encontra-se no endereço http://paredesdecoura.blogs.sapo.pt/ e constitui um elo de ligação entre Paredes de Coura e os courenses espalhados pelo país, além de tratar-se de uma voz que acompanha toda a vida social courense.

DEPUTADO MANUEL DOMINGUES BASTO LEVA À ASSEMBLEIA NACIONAL, EM 1953, OS PROBLEMAS RELACIONADOS COM O RIO LIMA

Em 1953, o deputado Manuel Domingues Basto levou à Assembleia Nacional os problemas relativos ao rio Lima, nomeadamente os relacionados com o seu assoreamento e a regularização dos caudais. A referida intervenção registou-se na sessão que ocorreu a 23 de Março daquele ano, no âmbito da V Legislatura, sob a presidência de Albino dos Reis Júnior.

Manuel Domingues Basto era natural de Monção e foi fundador da Acção Católica de Braga. Sacerdote católico, foi eleito deputado para a V e VI Legislatura da Assembleia Nacional, não tendo chegado a exercer o mandato nesta última em virtude de ter entretanto falecido. Foi vereador da Câmara Municipal de Monção e Presidente da Comissão Municipal de Assistência de Fafe. Em virtude dos seus ideais monárquicos e na sequência do fracasso da Monarquia do Norte, exilou-se em Espanha.

Pelo seu interesse sobretudo do ponto de vista histórico, transcreve-se um extracto da sua extensa intervenção na Assembleia Nacional, na parte respeitante às questões relacionadas com o rio Lima.

“Sr. Presidente: quando o turista, português ou estrangeiro, se dirige ao Alto Minho, para aceder ao convite do autor do Minho Pitoresco e poder confrontar as belezas das margens do rio Minho com as do rio Lima - que se disputam à porfia vantagens e primazias, pleito difícil que o referido autor se não decide a resolver, comparando-o ao eterno e insolúvel problema dos olhos azuis e dos olhos negros -, e, entrando em Viana do Castelo, sobe a esse incomparável miradouro que é o monte de Santa Luzia, sentirá todo o assombro da maravilha da paisagem, viva, garrida e variegada.

Se, porém, além de admirar a paisagem, o interessa a vida da gente que habita esse rincão português de incomparável beleza, notará bem depressa que o rio - que em linguagem poética beija os pés da cidade, sua dama, e abraça os campos -, assoreado no seu leito, invade os terrenos marginais e rouba às gentes de Viana e de Ponte de Lima o pão, ou seja as culturas de algumas centenas de hectares de terreno.

É a nota triste e desoladora no meio de tanta garridice e policromia de tons da paisagem e do traje das raparigas.

Muitas vezes tenho contemplado entristecido este pormenor da paisagem e da vida da gente das margens do rio Lima e perguntado a mim próprio se não há quem veja aquilo e se para o caso se não encontrará remédio.

Tendo exposto a alguém o meu sentir em conversa de minhoto que mais ama a sua pátria através da região em que nasceu, vim a saber que já há estudos feitos sobre o aproveitamento total do rio Lima, de que resultará, com outras vantagens, não só o desaparecimento do espectáculo desolador que entristece o turista, mas ainda o melhoramento da barra de Viana do Castelo, a rega e o enxugo do muitas terras marginais e o aproveitamento hidroeléctrico do rio.

De facto, vêm de longe os estudos sobre o assunto, que é hoje de mais importância e de mais urgência na solução, dado que na sua parte inferior se agravam cada vez mais o estado do leito do rio e o lamentável desperdício das terras marginais invadidas pelas águas.

É o rio Lima, na opinião dos técnicos, um dos poucos rios portugueses cujo aproveitamento total se impõe, e esse aproveitamento reveste-se na actualidade da maior necessidade e urgência, por se tratar de uma região de grande densidade de população, em que as indústrias são escassas ou quase não existem, sendo por isso mais necessário intensificar a produção agrícola e aproveitar todos os recursos da terra.

Pelos elementos que me vieram à mão, verifica-se que as duas mais importantes obras para o aproveitamento completo do rio Lima estão já realizadas, e são o porto de Viana do Castelo, na sua foz, e o aproveitamento hidroeléctrico do Lindoso, na fronteira.

Reconhecem os técnicos a que a bacia hidrográfica do rio Lima tem excepcionais condições de aproveitamento e que nela se registam as maiores precipitações anuais médias e, paralelamente, os maiores coeficientes de escoamento de todo o País».

Vê-se dos bem elaborados anuários dos serviços hidráulicos que há possibilidade de um plano geral de aproveitamento a fio de água no rio, a jusante de Lindoso, e de albufeiras de elevada regularização específica nas ribeiras da Peneda e de Castro Laboreiro.

Os resultados desse plano seriam a produção de grande quantidade de energia, a defesa contra cheias, o enxugo do vale inferior do rio a jusante de Ponte de Lima, a rega e valorização com ela de 5 000 ha de terras férteis, o melhoramento da navegação - de grande vantagem económica para a região - e a recuperação integral de algumas centenas de hectares de terrenos de cultura inutilizados.

E se as duas obras maiores deste plano já estão realizadas, há também já muitos estudos feitos para se chegar ao aproveitamento total do rio.

Nos anos de 1939, 1940 e 1941 realizaram-se, por meio de brigadas de estudos dos serviços hidráulicos, levantamentos topográficos e hidrográficos e medições de caudais no rio Lima e seus afluentes.

Maiores foram os estudos e trabalhos dos anos de 1942 e 1943.

Em 1942 fizeram-se os reconhecimentos gerais necessários para a elaboração do plano geral de aproveitamento, o reconhecimento detalhado do rio Lima sob o ponto de vista hidráulico e agronómico e em relação às necessidades de enxugo e rega e ainda o reconhecimento das bacias dos seus afluentes-rio Vez e ribeiro de Castro Laboreiro.

Em 1943 iniciou-se o estudo do plano geral da regularização e aproveitamento das águas de toda a bacia hidrográfica.

O ano de 1944 foi o do início do estudo do aproveitamento hidroeléctrico, estudando-se já os vales do rio Lima e dos ribeiros da Peneda e de Castro Laboreiro.

Dos estudos e trabalhos no ano de 1945 diz o Anuário dos Serviços Hidráulicos:

Prosseguiu a recolha de elementos topográficos, hidrológicos e agronómicos para a elaboração do plano geral de sistematização da bacia deste rio. Ficou concluída a parte referente à correcção torrencial e ao aproveitamento da energia das águas do rio e dos seus afluentes Castro Laboreiro, Peneda e Vez.

O esquema do aproveitamento hidroeléctrico prevê uma possível produção de 450x106 kWh no ano muito seco de 1944-1945, com influência benéfica na utilização de água para a rega e na manutenção de caudais para a navegação e contribuindo ainda para a diminuição dos transportes sólidos.

Nos anos de 1946,1947,1948 e seguintes continuou se com a elaboração do plano geral de regularização e aproveitamento das águas, tendo-se ainda feito o reconhecimento agro-económico dos terrenos a beneficiar e o reconhecimento geológico dos possíveis locais de barragens.

O Sr. Elísio Pimenta: - Não esqueça V. Ex.ª que o problema do rio Lima, nos aspectos que acaba de encarar, não é o único na região do Minho.

Existe um problema paralelo no rio Minho, a poente de Valença, em S. Pedro da Torre.

O Orador:- Tem V. Ex.ª razão. Tanto na veiga de Ganfei como em S. Pedro da Torre, freguesias do concelho de Valença, há problemas idênticos.

Sr. Presidente: parece que os trabalhos sobre o aproveitamento integral do rio Lima pararam ou, pelo menos, não há indicação do que se fez depois de 1950. Diz-se que foi a necessidade de deslocar os técnicos para estudos urgentes no rio Douro o que motivou esta paralisação de trabalhos e estudos.

Permita-me, ao terminar as minhas considerações no debate das contas públicas, lembrar ao Governo a necessidade de se prosseguir nesses trabalhos interrompidos, visto que depende deles o aproveitamento de grandes fontes de receita, bem necessárias à gente do Alto Minho e às prementes necessidades de melhor nível económico, para sustento da sua densa população.

Junte-se à beleza da paisagem e dos trajos regionais a beleza desta possível e urgente realização. As despesas a que obriga são fartamente compensadas pelas receitas que dela hão-de provir para a economia nacional e para melhoria de vida da gente alegre de Viana e da Ribeira Lima.

Que por esta obra tão necessária possam o estrangeiro ou o português que visitam a cidade de Viana ou ali vão pelas festas da Agonia, ao ouvir os cantares das raparigas e ao apreciar as danças regionais, dizer com toda a verdade: «Sente-se que esta gente é mais feliz e canta com mais vivacidade e alegria porque vive no Portugal renovado de Salazar».

Tenho dito.”

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE MUSEOLOGIA ATRIBUI MENÇÃO HONROSA AO CENTRO DE MONITORIZAÇÃO E INTERPRETAÇÃO AMBIENTAL DE VIANA DO CASTELO

O Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Viana do Castelo foi distinguido pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM) como o Melhor Serviço de Extensão Cultural ao ser-lhe atribuída uma menção honrosa nessa categoria dos Prémios APOM 2011.

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Com o objectivo de incentivar a imaginação e criatividade dos museólogos portugueses e o seu contributo na melhoria da qualidade dos museus em Portugal, a APOM premeia todos os anos o Melhor Museu Português, a Melhor Exposição, o Melhor Catálogo, o Melhor Serviço de Extensão Cultural e o Melhor Trabalho sobre Museologia e/ou A Melhor Obra Museológica, destacando dessa forma o que de melhor se realiza no âmbito da museologia.

Numa altura em que se encerram as Comemorações do Ano Internacional das Florestas que incluíram as mais diversas iniciativas como a realização de oficinas de aprendizagem sobre fotografia, observação de avifauna; as Conversas de Fim de Tarde sobre temas como anfíbios, incêndios florestais: os Contos da Floresta e a exposição temática “Florestas, um Património a Descobrir”, viu o CMIA desta forma reconhecido o trabalho que realizou durante o corrente ano.

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O MINHO NOS EX-LÍBRIS

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Os ex-líbris constituem marcas de posse que os bibliófilos utilizam para assinalar os seus livros, geralmente formados por pequenas vinhetas coladas no verso da capa ou nas folhas de guarda. Trata-se de uma expressão de origem latina que designa a divisa ou o sinal que utilizam. No dizer do publicista Fausto Moreira Rato, trata-se do “símbolo pessoal, estampado ou impresso, geralmente em papel – de desenho heráldico, alegórico, simbólico, ornamental ou falante, onde figura também o nome e, facultativamente, a divisa do bibliófilo – que se cola no verso da capa de cada livro possuído para garantir a pertença da obra e favorecê-la com este derradeiro requinte de arte”.

Entre nós, o uso dos ex-líbris remonta ao século XVI, pertencendo a Wolfgang Holzschuher, alemão que viveu em Portugal e foi nobilitado por D. Manuel I, o mais antigo ex-líbris até ao momento conhecido em Portugal.

Os ex-líbris podem ser produzidos através das mais variadas técnicas, desde a xilogravura e a zincogravura à serigrafia e à moderna fotocópia, sendo alguns exemplares considerados são verdadeiras obras de arte às quais, não raras as vezes, estão associados consagrados artistas.

Para além do interesse que os mesmos suscitam entre os coleccionadores, os ex-líbris constituem um importante documento de carácter iconográfico que contribui nomeadamente para identificar a origem da propriedade dos livros, a natureza das bibliotecas e a sua associação com a vida e os valores que os norteiam ou ao meio a que se encontram ligados.

Inúmeros são os ex-líbris de bibliófilos minhotos, muitos deles consagrados escritores, os quais são bastante procurados por todos quantos se interessam pela bibliografia minhota.

GRUPO ETNOGRÁFICO DO ALTO MINHO REPRESENTA O NOSSO FOLCLORE NO LUXEMBURGO

Foi nos grupos folclóricos de Santa Marta de Portuzelo, Etnográfico da Areosa e Lavradeiras da Meadela que um grupo de portugueses e luso-descendentes radicados no Luxemburgo se inspirou para formar o Grupo Etnográfico do Alto Minho. Já lá vão mais de dez anos – o Grupo foi constituído em 18 de Abril de 2000 – e já levaram o nosso folclore a numerosas cidades luxemburguesas.

Os seus trajes e as suas danças e cantares são as que existem de mais representativas do folclore das aldeias de Viana do Castelo, trajes de festa e de trabalho, cantares alegres e vivos como o são as gentes do Alto Minho.

A alegria, o colorido e a jovialidade minhota marcam presença no Luxemburgo através do Grupo Etnográfico do Alto Minho que ensaia regularmente no Odeón, situado na 10 r. München-Tesch e pode ser contactado pelo e-mail: etnográfico@etnografico.com

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Fotos: Grupo Etnográfico do Alto Minho

FILME “ALTO DO MINHO” TEM ANTESTREIA NO LINDOSO

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O filme “Alto do Minho” tem a sua antestreia já no próximo dia 17 de Dezembro, no Lindoso, devendo a sua estreia ter lugar entre Janeiro e Fevereiro do próximo ano, em Viana do Castelo.

Com realização de Miguel Filgueiras e produção de José Filgueiras, “Alto do Minho” é um filme documental sobre Identidade, Espectáculo e Etnografia das gentes do Alto Minho.

ILUSTRAÇÕES DE MANUEL COUTO VIANA

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Ex-líbris em zincogravura, desenhado por Manuel Couto Viana, em 1955, com a legenda: “Nasci à beira do rio Lima, rio saudoso todo cristal”

 

Manuel dos Passos Couto Viana era pai do conceituado poeta e escritor vianense António Manuel Couto Viana. Nasceu em Viana do Castelo, a 13 de Março de 1892. Artista identificado com o modernismo, Diogo de Macedo, na revista “Aventura”, nomeia-o entre os primeiros modernistas referindo que “iam espalhando pelo país além o gosto novo, por vezes nefelibata, em páginas de revistas, em capas de livros, em cartazes, em cenários de teatro, em inovações de indústrias nacionais, em exposições, etc., educando o povo das cidades e agradando ao das aldeias, ao ponto de não ser considerado como obra civilizada qualquer realização de arte onde alguns desses nomes não colaborassem”.

Manuel Couto Viana foi editor e redactor principal do jornal “Notícias de Viana” e do “Arquivo de Viana do Castelo”, tendo sido um dos primeiros escritores a publicar no “Anuário do Distrito de Viana do Castelo”.

Foi um notável ilustrador, tendo publicado inúmeros dos seus desenhos nomeadamente no “Mensário das Casas do Povo” e na “Alma Nova” em relação à qual aqui reproduzimos algumas das suas ilustrações.

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Ilustrações publicadas na revista "Alma Nova"

O MINHO NA CARTOGRAFIA FRANCESA DO SÉCULO XVII

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Esta carta data de 1654 e tem por título “Parte Septentrional do Reyno de Portugal”. É da autoria de Nicolas Sanson d'Abbeville e foi editada em Paris, na casa do autor. Faz parte de uma série de cartas que respeitam às divisões políticas e administrativas de Portugal e encontra-se depositada no Departamento de Cartas e Planos da Biblioteca Nacional de França.

Nicolas Sanson foi um célebre geógrafo e cartógrafo francês ao tempo do rei Luis XIII e do Cardeal Richelieu, tendo inclusive dado aulas de geografia a Luis XIII e a Luis XIV. Nasceu em Abbeville em 1600 e faleceu em Paris em 1667.

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Nicolas Sanson d'Abbeville

 

REAL, REAL, REAL, POR D. JOÃO IV NOSSO SENHOR E REI DE PORTUGAL!

Há precisamente 371 anos, D. João IV foi aclamado Rei de Portugal, em consequência da Restauração da Independência em 1640. Para além de Duque de Duque de Bragança, D. João IV detinha ainda os títulos de Duque de Guimarães e de Barcelos, Conde de Barcelos, Guimarães e Neiva.

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Aclamação de D. João IV em Ponte de Lima. (Foto: Wikipédia)

Conta-nos o Conde da Ericeira, D. Luís de Meneses, na sua História de Portugal Restaurado, que a cerimónia decorreu num grandioso palanque junto à varanda do Paço da Ribeira onde, diante de representantes das três classes – Clero, Nobreza e Povo – prestou juramento no sentido de manter os tradicionais foros, liberdades e garantias dos portugueses usurpadas pelos reis espanhóis, as quais haviam sido juradas nas Cortes de Tomar.

As cerimónias prosseguiram nomeadamente com a oração da aclamação, o pronunciamento do brado tradicional – Real, Real, Real, por El-Rei de Portugal! – e a entrega ao Rei das chaves da cidade de Lisboa, tendo por fim se realizado o cortejo processional à Sé Catedral onde foi celebrado um solene Te Deum de graças, tendo D. João IV no acto de coroação, depositado aos pés de Nossa Senhora da Conceição a coroa de rainha. A partir desse momento, D. João IV tornou-se Rei de Portugal e Nossa Senhora da Conceição, a sua Padroeira.

A MULHER DE VIANA DO CASTELO

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A aldeã do distrito de Viana é, por via de regra, tecedeira. É preciso não se confundir o que no Minho se chama tecedeira com o que geralmente se entende por teceloa. A tecedeira de Viana não se emprega numa fábrica nem tem propriamente uma oficina. Sabe simplesmente tecer como a menina de Lisboa sabe fazer crochet; e junto da janela engrinaldada por um pé de videira o seu pequenino tear caseiro, como o da casta Penépole, tem o aspecto decorativo de um puro atributo familiar, como um cavalete de pintura ou um órgão de pedais no recanto de um salão. A tecedeira trabalha mais para si do que para os outros nesse velho tear herdado e transmitido de geração em geração, e não tece servilmente e automaticamente, como nas fábricas, sobre um padrão imposto pelo mestre da oficina, mas livremente, como artista, ao solto capricho da sua fantasia e do seu gosto, combinando as cores segundo os retalhos da lã de que dispõe, contrastando os tons e variando os desenhos ao seu arbítrio. Tecer em tais condições é educar a vista e o gosto para a selecção das formas num exercício infinitamente mais útil que o de todas as prendas de mãos com que nos colégios se atrofia a inteligência e se perverte a imaginação das meninas de estimação, ensinando-lhes ao mesmo tempo como se abastarda o trabalho e como se desonra a arte.

(…) O marido minhoto, por mais boçal e mais grosseiro que seja, tem pela mulher assim produtiva um respeito de subalterno para superior, e não a explora tão rudemente aqui como em outras regiões onde a fêmea do campónio se embrutece de espírito e proporcionalmente se desforma de corpo acompanhando o homem na lavra, na sacha e na escava, acarretando o estrume, rachando a lenha, matando o porco, pegando à soga dos bois ou à rabiça do arado, e fazendo zoar o mangual nas eiras, sob o sol a pino, à malha ciclópica da espiga zaburra.

- Ramalho Ortigão, in As Farpas

Ilustração: Couto Viana

GUIMARÃES: O PATRIMÓNIO SOMOS NÓS!

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Centenas de viamaranenses afluíram ontem, ao final da tarde, ao Largo do Toural e à Alameda de São Dâmaso, para se associarem à cerimónia de reabertura ao público daqueles espaços da cidade de Guimarães que estiveram sujeitos a obras de requalificação.

A reabertura daqueles locais registou-se precisamente no dia em que Guimarães comemora o 10º aniversário da classificação do seu centro histórico como Património Cultural da Humanidade reconhecido pela UNESCO.

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Fotos: Câmara Municipal de Guimarães

CÂMARA DOS DEPUTADOS DA PRIMEIRA REPÚBLICA HOMENAGEOU O COURENSE NARCISO ALVES DA CUNHA

O ilustre courense que foi Narciso Alves da Cunha faleceu no dia 15 de Janeiro de 1913. Aproxima-se, pois, a data do centenário do seu falecimento que, por certo, os seus conterrâneos não deixarão de assinalar na altura própria.

No dia seguinte à sua morte, todos os parlamentares e grupos políticos representados na Câmara dos Deputados associaram-se às manifestações de pesar que então se verificaram, prestando-lhe a devida homenagem. Registamos as intervenções feitas na sessão realizada nesse dia, sob a presidência de José Augusto Simas Machado.

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O Sr. Presidente: - Cumpro o doloroso dever de participar á Câmara a morte do

Sr. Senador Narciso Alves da Cunha que fez parte da Assembleia Constituinte, donde foi eleito para o Senado.

Narciso Alves da Cunha foi um digno funcionário público e um homem que prestou relevantes serviços ao seu país (Apoiados). Distinguiu-se, sempre pelas suas altas qualidades de carácter, e quer como membro da Assembleia Nacional Constituinte quer como membro do Senado, prestou á República valiosos serviços. (Apoiados). E creio interpretar o sentir da Câmara propondo que na acta seja exarado um voto de profundo sentimento pela morte do ilustre homem público, -que, à semelhança do que, em ocasiões idênticas se tem feito, se levante a sessão por cinco minutos (Apoiados).

O Sr. Casimiro de Sá: - Sr. Presidente: em meu nome pessoal e, também, por indevida honra, em nome do Partido Evolucionista a que pertenço, associo-me, comovidamente, à triste comemoração que agora fazemos.

O Sr. Narciso Alves da Cunha era da minha terra; vivi nas suas relações pessoais durante largos anos. Afirmou-se, sempre, um homem de inteligência, um homem de cultura e um homem de estudo (Apoiados). Foi, principalmente, um grande amigo da sua terra; e para a história local, deixou em um livro, que é uma página de amor à terra onde nasceu, subsídios importantes para a história do meu concelho: Paredes de Coura.

Assim, eu, lamentando a morte prematura e inesperada do meu ilustre conterrâneo, do homem com cujas relações pessoais longos anos me honrei, do homem que soube amar e honrar, também, a sua e minha terra, eu, neste momento, em meu nome e igualmente em nome do Partido Evolucionista, associo-me, repito, comovidamente, com verdadeira sinceridade ao voto de pesar proposto pelo lamentável acontecimento. (Apoiados).

S. Exa. não reviu.

O Sr. Barbosa de Magalhães: - Sr. Presidente: o Parlamento da República acaba de sofrer uma grande perda, porque o Sr. Narciso Alves da Cunha, cujo falecimento todos nós deploramos, era uma dessas figuras que se impunham ao respeito e à consideração de todos, pelas suas qualidades de carácter, pela sua inteligência e pela afabilidade do seu trato (Apoiados).

Em cada um dos seus colegas tinha um verdadeiro amigo (Apoiados), que o considerava e estimava (Apoiados).

Sendo um sacerdote ilustre, e não obstante poder incorrer nas iras de Roma, nas iras dos reaccionários, daqueles que não viam bem a República, êle soube integrar-se nela e soube, desde o primeiro momento, prestar-lhe os valiosos serviços que, pela sua inteligência e pela muita consideração de que gozava, não só na sua terra, no seu concelho, mas em todo o distrito, lhe podia prestar. Prestou, efectivamente, grandes e alevantados serviços ao seu país, á República e ao Partido Democrático, a quem, desde logo, deu a sua mais calorosa adesão. (Apoiados).

Não e só em meu nome, mas em nome do Grupo Parlamentar Democrático, por quem tenho a honra de falar, e bem assim por todo o Partido Democrático, que eu, sincera e comovidamente, me associo à proposta de V. Exa., declarando que, realmente, a morte do digno Senador foi uma perda grande para o Parlamento da República, porque Narciso Alves da Cunha a todos se impunha pelas suas grandes qualidades (Apoiados).

Vozes: - Muito bem, muito bem.

S. Exa. não reviu.

O Sr. Brito Camacho: - Pedi a palavra para declarar, em nome dos Deputados da União Republicana, que nos associamos a todas as homenagens prestadas â memória do ilustre Senador, cujo falecimento todos pranteiam.

S. Exa. não reviu.

O Sr. Amorim de Carvalho: - Encarregado pelos Deputados independentes desta Câmara, tenho a declarar a V. Exa., Sr. Presidente, que nos associamos á homenagem prestada à memória do Senador Sr. Narciso Alves da Cunha.

Devo acrescentar que foi ele um grande trabalhador, que prestou serviços à causa da República.

É sempre, para nós, lamentável ver desaparecer trabalhadores como ele foi.

É por isso que os Deputados independentes tomam parte na homenagem prestada à memória do ilustre extinto.

S. Exa. não reviu.

O Sr. Ministro do Interior (Rodrigo Rodrigues): - Pedi a palavra para declarar a V. Exa., Sr. Presidente, e à Câmara, que o Governo se associa ao voto de condolências pelo falecimento do Sr. Senador Narciso Alves da Cunha.

A sua individualidade escusa de mais palavras de exaltação. Bastou a sua presença, dentro do Congresso, para afirmar, não só o seu alto espírito de civismo e o espírito de cordura e boa orientação que às leis da República tem presidido, mas, também, que ele foi um bom sacerdote e um bom cidadão republicano.

S. Exa. não reviu.

O Sr. Presidente: - Em vista das manifestações prestadas pelos ilustres Deputados que usaram da palavra, considero aprovada a minha proposta e suspendo a sessão por cinco minutos.

Eram 15 horas e 20 minutos.

BANDA GALEGA “LUAR NA LUBRE” REALIZA CONCERTO NA CORUNHA

A conceituada banda galega LUAR NA LUBRE vai efectuar um concerto no Teatro Colón, na Corunha, para apresentar Paula Rey, a sua nova vocalista. O espectáculo realiza-se no próximo dia 7 de Janeiro, a partir das 20h30, encontrando-se os bilhetes de ingresso já à venda.

LUAR NA LUBRE é uma das formações musicais mais prometedoras e referenciais da moderna música folk produzida na Galiza. O “Solstício” é a sua mais recente produção discográfica e reinterpreta as velhas melodias da lírica medieval que constitui um património comum a todo o espaço galaico-minhoto.

Acerca da origem e da identidade da banda LUAR NA LUBRE, transcrevemos do seu próprio site as seguintes palavras: “No ano 1986 nace LUAR NA LUBRE na cidade de A Coruña converténdose co paso dos anos e o seu teimoso traballo nunha das formacións máis prometedoras e referenciais da música feita na Galiza.

O traballo que desenrola a banda está enfocado dende a óptica de entender que a música é un dos factores culturais máis importantes para a afirmación do dereito á diferenza enriquecedora do pobo galego. O grupo pretende que na Galiza predomine a súa cultura aínda que non rexeita influenzas que melloren a súa proposta sen deturpar o carácter central do seu proxecto.

O proxecto baséase fundamentalmente nas músicas de raíces galegas polo que dedican especial atención ao estudo dos cancioneiros galegos así como ao traballo de campo que lles proporciona un fondo coñecemento sobre a realidade musical galega que tamén se revela determinante nas composicións propias”.

TEATRO DIOGO BERNARDES EM PONTE DE LIMA: DESCUBRA AS DIFERENÇAS!

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Entre as duas imagens existe uma separação no tempo de apenas 20 anos. Ponte de Lima recuperou uma interessante sala de espectáculos e passou a usufruir de um palco que tinha deixado de dispor. E, sobretudo, tomou uma atitude de defesa do seu património edificado, preservando a sua memória histórica e identidade.

É importante adquirir uma visão de modernidade sem com isso sacrificar os centros históricos, condenando-os à descaracterização e ao despovoamento. A recuperação do Teatro Diogo Bernardes foi um bom exemplo que deve ser integrado na área histórica da vila limiana. 

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GRUPO ETNOGRÁFICO DE PAREDES DE COURA PRESERVA TRADIÇÕES DO ALTO MINHO

«A lavoura tem nesta região, um feitio característico e pouco usado noutras partes do país. O seu “modus faciendi”, torna o amanho menos fatigoso, chegando, ás vezes a ser festivo por ser “ de favor “.É a prática de mutualidade de serviços, onde vizinhos e outras pessoas prestam o seu serviço, esperando que essa pessoa também as ajude quando necessitarem.»

Narciso Alves da Cunha in ”No Alto Minho, Paredes de Coura”

É dentro deste espírito de cooperação mútua que a Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Paredes de Coura (ACRDPC) tem exercido as suas funções. Durante os seus 35 anos de vida, esta instituição de cariz cultural e social tem vindo também a praticar a mutualidade de serviços. Desde a sua fundação em1976, aACRDPC tem oferecido à comunidade courense e também à região alto-minhota um leque de actividades e serviços, onde apenas espera como recompensa o reconhecimento do seu trabalho, e a valorização da sua obra social, cultural e desportiva. Esta colectividade não quer separar-se do meio que a envolve, o Alto Minho Interior, sendo assim há uma contínua procura desde a sua fundação até aos dias de hoje, de tudo o que é típico desta região. Neste trabalho realizado por quase todos os seus membros, há uma recolha de tudo que estava a cair no esquecimento, como é o caso de canções, danças, lendas, jogos populares, orações antigas (que demonstram o fervor da crença das gentes do Minho), de processos antigos de agricultura e principalmente de trajes já caídos em desuso (principalmente do século XIX). Este trabalho de recolha de trajes antigos é executado em todas as freguesias courenses, refira-se que já foi possível recuperar (apesar dos acentuados custos) dois tipos de trajes antigos de grande valor, que foram os trajes dos Senhores da Casa do Outeiro (Agualonga) e ainda dos Viscondes de Mozelos. Devido a esta recuperação tanto a geração presente como a futura poderá ter acesso a tudo o que já foi usual, a tudo o que já fez movimentar a sociedade de antanho e é este também um dos grandes objectivos desta associação, ou seja, a ACRDPC pretende deixar um vasto e variado legado às gerações vindouras.

Paredes de Coura, foi um concelho essencialmente agrícola, onde predominava a lavoura dos cereais, usufruindo assim do cognome de “Celeiro do Minho”, devido à sua actividade agrícola, e é à volta desta actividade que todo o nosso trabalho de recolha incide principalmente, mas não é caso isolado.

Também a arqueologia tem lugar dentro das nossas actividades, e como o concelho é rico a nível arqueológico, a associação tem vindo a conseguir excelentes trabalhos de investigação e procura de materiais arqueológicos. Esta actividade teve mais vigor nos primeiros anos da ACRDPC.

A nível social, a colectividade tem vindo a exercer uma acção deveras exemplar, com a prestação de variadíssimos serviços à comunidade courense. Esta instituição já teve a seu cargo o transporte quer de jovens (de suas casas para o infantário, escolas e diversos locais e vice-versa), quer de idosos.

Para usufruto dos seus sócios, e de toda a comunidade, a ACRDPC possui uma biblioteca que contém colecções, alguns estudos e trabalhos que poderão ser solicitados para consulta. Esta biblioteca é composta por livros adquiridos pela instituição e por ofertas

Na sua sede social, funciona o núcleo de informática courense, secção pertencente á ACRDPC, onde principalmente os mais jovens, usufruem desse espaço e de todo o equipamento necessário.

No patamar da animação cultural, o teatro tem um papel primordial. No passado houve formação e o ensino das artes teatrais a novos formandos. Assim sendo, foram encenadas grandes obras teatrais, como por exemplo: ”Frei Luís de Sousa” de Almeida Garrett. Desta forma há uma ocupação dos tempos livres, e leva-se, em especial os mais novos, a uma valorização da cultura.

Também a dança rítmica, o bailado, é uma das actividades da associação, onde os membros mais jovens conseguem realizar grandes espectáculos de animação, satisfazendo grandemente o público que assiste a estes espectáculos.

Mas os dois grandes embaixadores desta associação, logo da cultura courense e da alto-minhota, são o Grupo Coral e o Grupo Etnográfico.

O grupo coral, data da fundação da associação em 1976 e desde então até 1986 (data da inactividade) abrilhantou diversos actos culturais e não só. Com efeito, o grupo coral contava com um extenso palmarés de actuações. O coral participou em diversos actos institucionais e oficiais, deixando a sua presença bem marcada em quem o ouvia. A sua acção também se prolongava ao campo religioso, onde efectuou algumas recolhas nessa área. Aquando de um trabalho de recolha e investigação nuns antigos baús pertencentes às Senhoras da Casa do Outeiro, foram encontradas umas valiosas partituras musicais, nas quais estava incluído o Hino de Paredes de Coura, que de imediato o Grupo Coral tratou de ensaiar e de apresentar ao público. Hoje em dia, por todos sobejamente conhecido, esse hino passou a ser mais um dos símbolos de Paredes de Coura.

Grupo Etnográfico – 28 anos

Foi em 1983, por altura das festas concelhias locais, que o Grupo Etnográfico se deu a conhecer. Inspirado no extinto Grupo Folclórico Miguel Dantas, o Grupo Etnográfico procurou uma recolha fiel de danças, de canções e de trajes do concelho de Paredes de Coura, sendo esse trabalho contínuo. Tem participado em inúmeros festivais, dentre os quais refira-se o Festival Folclórico do Alto Minho. O Grupo Etnográfico foi responsável pela organização do segundo festival (1992), que se veio a lograr um verdadeiro êxito, e pelo do corrente ano (realizou-se em Junho último).

Quando é chamado para actuações para festas e diversos actos de instituições públicas e de solidariedade social da região, nunca nega a sua comparência, e está sempre presente quando é necessário.

Já participou em várias gravações: áudio e também vídeo, possuindo uma gravação em cassete áudio com todos os temas do seu repertório. O grupo é composto por dançarinos, tocadores, cantadeira, cantadores, coro e também figurantes. Como exemplos do seu repertório, mencione-se: chula de Paredes de Coura, malhão de Paredes de Coura, chula dos montes, e em especial uma dança muito apreciada por todos os que a vêem a ser executada: o fandango de Paredes de Coura, que é uma dança de bailado por excelência entre homem e mulher. A forma como a tocata realiza o número e a forma rítmica como os pares executam as danças, conferem-lhe um estatuto especial entre as danças deste grupo. O Etnográfico conta com diversas actuações na região, por todo o país e estrangeiro. Como se pode ver o grupo é um digno embaixador da cultura courense, da cultura minhota, e da cultura portuguesa.

Em todas estas actividades desempenhadas, o principal objectivo é o reconhecimento do seu trabalho, e a alegre confraternização de todos os seus membros. 

“No final do trabalho, depois de ingerida frugal refeição organiza-se o bailarico, a dança, e saracoteia-se, animadamente, o vira, o fandango espanhol.”

Narciso Alves da Cunha in ”No alto Minho, Paredes de Coura”

Traje de Noivos -"Visconde de Mozelos"

Homem - Fato preto, camisa e meia branca, sapato preto de cordão e chapéu.

Senhora - Saia e casaca preta com barra de veludo bordada a lantejoulas e vidrilhos, com rendas nos punhos; avental de veludo com renda e bordado a missangas; lenço de cabeça de seda branco; chinelas pretas de couro; no braço um xaile preto de franja. Em dias de sol era usado com uma sombrinha branca.

Traje de luxo – Senhora da Casa do Outeiro

Homem - calça preta; camisa branca com gola de trincha, bordada nos punhos, e na frente a "espinha de peixe", em vermelho e azul escuros; casaca preta com duas fiadas de botões brancos; meia branca com sapato preto ou botins, em couro.

Senhora - saia preta, geralmente comprida, com barra de veludo bordada a vidrilhos; avental de veludo bordado e com rendas; blusa branca com gola redonda com os punhos rematadas a rendas; casaca preta bordada a missangas; chinelas pretas com meia branca rendada.

Traje domingueiro ou de ir à Feira de Paredes

Homem - calça preta, camisa branca de trincha bordada nos punhos e na frente; colete preto sendo as costas de fazenda quadrejada; sapato preto e meia branca;

Senhora - saia preta comprida com barra bordada; blusa branca; colete de tecido fantasia ornado a fita algodão de cor a condizer, justinho no corpo, apertando na frente com cordões de algodão; lenço de merino ou chinês; chinela preta com meia branca; podem usar pequenas cestas ou condessas.

Traje de Trabalho

Homem - calça de estopa ou de cotim, camisa de riscado; calçavam socos abertos de pau e couro, com ou sem meias de lã;

Senhora - saia de chita ou riscado, comprida; blusa também de chita; avental a condizer; socos de pau e nos trabalhos, em dias de sol, usavam os chapéus de palha;

Texto e fotos de Eduardo Cerqueira

Grupo Etnográfico de Paredes de Coura

acrdpc@gmail.com

A MENINA DA FOTO VAI ESTAR AMANHÃ EM VIANA DO CASTELO

Ainda é possível ver a Exposição sobre o “Cinquentenário da Emigração para França: 1961-2011”, patente no Espaço Cultural Estação Viana, a qual deverá encerrar dentro dos próximos dias.

Entretanto, a convite da Câmara Municipal de Viana do Castelo, a menina da foto do jornal “Público” que se tornou um ícone da migração portuguesa em França nos anos sessenta, vai estar amanhã em Viana do Castelo para visitar esta exposição e ter uma conversa com os vianenses mais interessados.

Este encontro está marcado, para as 21h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Viana do Castelo. Maria da Conceição Tina Melhorado, a menina que aparece na fotografia, partilhará o seu testemunho de emigração clandestina para França, em criança, e dará também notícia do seu recente encontro com o fotógrafo Gérald Bloncourt, em Paris.

O QUE REPRESENTA A FAMOSA GÁRGULA DA IGREJA MATRIZ DE CAMINHA?

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A imagem mostra a famosa gárgula da Igreja Matriz de Caminha (Foto: Manuel Passos, in http://www.1000imagens.com/autor.asp?idautor=371)

Situada defronte do município galego da Guarda, da província de Pontevedra, Caminha detém junto à foz dos rios Minho e Coura onde, de uma área amuralhada, ergue-se a Igreja Matriz cuja construção foi iniciada em 1488, ainda ao tempo de D. João II, tendo as obras sido realizadas por Pêro Galego e João Tolosa, mestre pedreiros provenientes da Galiza e da Biscaia. Apesar disso, nela também participaram artistas portugueses que terão sido os autores de uma curiosa gárgula antropomórfica que, na fachada do lado nascente da Igreja, exibe as nádegas voltadas para norte ou seja, para as bandas da Galiza.

Muito usuais na arquitectura gótica, as gárgulas servem para escoar a água dos telhados, funcionando como uma espécie de gargalo, daí derivando o seu nome. Adquirindo uma função ornamental e também protectora na medida em que as representações de monstros e outras figuras assombrosas serviam como guardiães das catedrais e dos templos religiosos, existem gárgulas que representam as imagens mais variadas, desde animais e monges até figuras cómicas.

No que respeita à famosa gárgula da Igreja Matriz de Caminha, à semelhança aliás de outras existentes noutras localidades fronteiriças, insere-se muito provavelmente no contexto da guerra da Restauração e representa, de forma vernácula, a recusa portuguesa da dominação filipina.

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Para além da curiosa gárgula, a Igreja Matriz de Caminha possui elevado interesse artístico pelo qual merece ser visitada. (Foto: Wikipédia)

GUIMARÃES: LARGO DO TOURAL E ALAMEDA DE SÃO DÂMASO REABREM AO PÚBLICO

As obras de requalificação urbanística do Largo do Toural e da Alameda de São Dâmaso, em Guimarães, já terminaram e estes locais vão ser amanhã reabertos ao público. Para assinalar, o município vimaranense preparou um programa cultural que visa assinalar também o 10º Aniversário da Classificação do Centro Histórico de Guimarães como Património Cultural da Humanidade.

PROGRAMA

13 de Dezembro, terça-feira, 18h00

Junto à Igreja de São Pedro

A Christmas Festival – Leroy Anderson

The Swinkling Christmas – Willy Hautvast

Orquestra de Sopros e Coro Infantil da Academia de Música Valentim Moreira de Sá

Direcção: Vasco Silva de Faria

Intervenção do Presidente da Câmara de Guimarães

Hino da Cidade de Guimarães – Vasco Leão

Orquestra de Sopros e Coro Infantil da Academia de Música Valentim Moreira de Sá

Direcção: Vasco Silva de Faria

Brinde ao 10º Aniversário da Classificação do Centro Histórico de Guimarães como Património Cultural da Humanidade.

Ligação da instalação de luz no Toural.

Visita à exposição Renovação / Largo Toural / Alameda S. Dâmaso / Rua de S. António / Guimarães 2010-2011

Percurso pela Alameda até ao Largo da Oliveira

Património iluminado

Fonte: http://www.cm-guimaraes.pt/

GUIMARÃES: O LARGO DO TOURAL ATRAVÉS DOS TEMPOS

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A estátua de D. Afonso Henriques esteve no Largo do Toural antes de ter sido transferida para o Parque do Castelo e substituído o pedestal.

Iniciada a sua construção no século XVII, o Largo do Toural é actualmente uma das mais centrais e movimentadas da cidade de Guimarães. No início, não era mais do que um largo fora das muralhas da vila, junto à principal porta de entrada, onde se realizava a feira de gado bovino, razão de ser da sua denominação.

Ao longo dos tempos, foi também uma das que registou mais alterações, não apenas na sua toponímia como ainda no seu enquadramento e arranjo urbanístico.

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Largo do Toural antes da implantação da República.

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Largo do Toural ou Praça D. Affonso Henriques, durante a Primeira República.

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O Largo do Toural, em meados do século XX, vendo-se a fonte monumental no local onde anteriormente esteve a estátua de D. Afonso Henriques

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Praça do Toural, na actualidade.

O MINHO NA INTERNET: PONTE DE LIMA ESTÁ ON-LINE!

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Tal como o nome indica, o blogue “Ponte de Lima” é um espaço de informação, de opinião, de fotografia e partilha de ideias a propósito de Ponte de Lima. “Ponte de Lima” encontra-se on-line desde 2003 e, a avaliar pela diversidade e interesse dos temas, promete continuar por muitos anos ao serviço do concelho com que se identifica.

O blogue “Ponte de Lima” encontra-se no endereço http://pontelima.blogspot.com/ e recomenda-se!

GRUPO FOLCLÓRICO DE SANTA MARTA DE PORTUZELO ACTUOU NO ESTÁDIO DO RESTELO HÁ 46 ANOS!

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A imagem mostra o Grupo Folclórico de Santa Marta de Portuzelo aquando da sua participação no Festival de Folclore realizado em 1965, no Estádio do Restelo, em Lisboa. A fotografia, da autoria de Armando Serôdio, pertence ao Arquivo Municipal de Lisboa e foi feita a partir de negativo de gelatina e prata em acetato de celulose.

FERNANDO PIRES DE LIMA FOI UM DOS ORGANIZADORES DO I CONGRESSO DE ETNOGRAFIA E FOLCLORE REALIZADO EM 1956 NA CIDADE DE BRAGA

Fernando de Castro Pires de Lima nasceu a 10 de Junho de 1908, no Porto, e morreu a 3 de Janeiro de 1973.

Formou-se em Medicina pela Universidade do Porto, assumindo anos mais tarde a Direcção da Enfermaria do Hospital Geral de Santo António, e as funções de Médico-Escolar e Professor de Higiene no Conservatório de Música do Porto. Foi também Presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e da Academia de Ciências da mesma cidade.

Para além da sua actividade clínica e de ensino, destacou-se no domínio da Etnografia Portuguesa do século XX, pela importância que atribuiu aos estudos relativos à cultura popular e tradicional no Norte de Portugal, nomeadamente do Minho e do Douro Litoral.

No âmbito da sua actividade etnográfica foi Presidente do Instituto de Etnografia e Director do Museu de Etnografia e História do Douro Litoral (1960). Destacou-se pela edição da Revista de Etnografia da Junta Distrital do Porto, editada de 1963 a 1972, uma das mais prestigiosas publicações científicas de Etnografia à época em Portugal, que contou com contributos de consagrados especialistas nacionais e internacionais. Foi responsável pela organização de Congressos de Etnografia, entre os quais se destacam, o I Congresso Nacional de Etnografia e Folclore (1956, Braga), Colóquio Internacional de Estudos Etnográficos Dr. José Leite de Vasconcelos (1858, Porto), Colóquio Internacional de Etnografia (1963, Santo Tirso) e o Colóquio Internacional de Estudos Etnográficos Rocha Peixoto (1966, Póvoa do Varzim).

Tendo efectuado um trabalho de pesquisa e estudo bastante extenso e variado, conciliou as suas áreas de conhecimento, privilegiando o estudo da medicina popular. Neste campo de investigação foi autor das obras Medicina Popular Minhota (em colaboração com Alexandre Lima Carneiro) e A Medicina Popular em S. Simão de Novais, em 1931. Desenvolveu funções como director das publicações Biblioteca Popular, A Virgem em Portugal e do Arquivo de Medicina Popular (edição do Jornal Médico, no Porto, compilado em dois volumes orientados por Pires de Lima e Mendes Correia, em 1944 e 45).

A produção etnográfica de F. C. Pires de Lima considerou igualmente outros domínios de investigação como a hagiografia popular, as tradições e expressões orais, reproduzindo nas suas obras o registo das formas de narrativa popular que recolheu, tais como, o romanceiro, cancioneiro, contos e lendas. Foi autor de Tradições populares de Entre-Douro-e-Minho (1938), em colaboração com Joaquim Pires de Lima; O Vinho Verde nas cantigas populares (1939), com colaboração de D. Maria Clementina Pires de Lima; S. João na alma do povo (1944). Publicou o Cancioneiro de São Novais, na revista Guimarães (1922 a 1929), compilando cerca de mil quadras populares que foram posteriormente publicadas, em 1942, na sua obra Cantares do Minho (2 vols.), incluindo também o Cancioneiro de Celorico de Basto (anteriormente publicado em 1935, na revista Trabalhos de Antropologia e Etnologia) e o Adagiário Português (1963).

Os seus interesses no âmbito da Etnografia alargaram-se a outros territórios de investigação, designadamente às ex-colónias portuguesas, consagrando a estes territórios diversos artigos no Boletim Geral das Colónias. Das suas obras mais representativas, destaca-se o estudo sobre A Arte Popular em Portugal: ilhas adjacentes e ultramar, publicado em 3 volumes, de 1968 a 1975, publicada com o Alto Patrocínio da Junta de Investigação do Ultramar e da Agência Geral do Ultramar.

Fonte: http://www.matrizpci.imc-ip.pt/MatrizPCI.Web/Home.aspx

CONGRESSO DE ETNOGRAFIA E FOLCLORE DE BRAGA, EM 1956, FOI ANALISADO PELOS DEPUTADOS DA ASSEMBLEIA NACIONAL

É frequente, nos dias que correm, o termo folclore ser empregue depreciativamente por parte de quem mais responsabilidade possui na defesa do nosso património cultural. Mas nem sempre foi assim…

Em 1956, o conceituado antropólogo António Augusto Esteves Mendes Correia, docente da Faculdade de Ciências do Porto e deputado à Assembleia Nacional, na sessão de 29 de Junho daquele ano, sob a presidência de Albino dos Reis Júnior, pronunciou um brilhante discurso acerca do Congresso de Etnografia e Folclore realizado em Braga, o qual foi feito na sequência da intervenção feita na sessão do dia anterior, pelo deputado Alberto Cruz, a respeito do mesmo tema.

As intervenções então proferidas ajudam-nos a compreender o enquadramento do folclore na política cultural do Estado Novo. Pelo seu interesse, nomeadamente do posto de vista histórico, transcrevemos seguidamente as duas intervenções então realizadas, começando pela do deputado Alberto Cruz, na Sessão nº. 159, da VI Legislatura da Assembleia Nacional realizada no dia 28 de Junho.

"Sr. Presidente: acaba de realizar-se na minha terra, na capital desse alegre Minho, e em época de festas e romarias, mais um congresso, que chamou a Braga um seleccionado e numeroso grupo de cultores do folclore e da etnografia e onde também se exibiram ranchos folclóricos da França, Espanha e Portugal continental e insular.

Esse congresso, presidido pelo nosso colega nesta Câmara Sr. Prof. Mendes Correia, teve a honrá-lo a presença de dois membros do Governo, quo presidiram às sessões de abertura e encerramento, o Sr. Ministro das Corporações e Previdência Social e o Subsecretário de Estado da Educação Nacional, que tiveram ensejo de proferir notáveis e muito apreciadas orações.

Foram apresentadas e discutidas teses do mais alto valor e foram emitidos votos, que serão apreciados por quem de direito e pura os quais me permito chamar a esclarecida atenção das entidades competentes.

Sr. Presidente: ouvi tecer hinos de louvor às belezas incomparáveis das terras minhotas, mas muito especialmente à estância paradisíaca do Bom Jesus do Monte, enquadrada nos pequenos campos de cultura que a rodeiam, semelhantes a canteiros de floridos jardins, amorosamente tratados e onde, a cantar e a rezar, aquele bom povo semeia, planta e colhe o pão e o vinho necessários à sua sustentação.

Ouvi ainda louvores também à hospitalidade dos seus habitantes e fiquei com a certeza de que todos os congressistas farão nas suas terras a propaganda do que os seus olhos viram, e que deve traduzir-se em desenvolvimento crescente da quase única indústria que nos resta - o turismo. Mas, para isso, é indispensável que o Governo, pelo seu departamento de propaganda e turismo, auxilie aquela terra, pletórica de encantos naturais, mas pobre de recursos materiais, a apetrechar-se de tudo que é necessário para atrair e fixar aqueles que futuramente podem vir a ser factores da sua riqueza e que pelo Mundo andam à procura de repouso para o espírito e deslumbramento para os olhos!

A natureza prodigalizou-nos belezas sem par, mas temos de dar u quem nos visita o conforto que quase por completo nos falta. A estância do Bom Jesus do Monte necessita de hotéis condignos, e, a exemplo do que se tem dado, e muito bem, a outras terras, eu peço também, e com a maior urgência, o estudo, seguido da realização, de tudo o que possa contribuir para o desenvolvimento do turismo, indústria de que Braga pode, por mercê de Deus, que lhe deu excepcionais condições, tirar os maiores proveitos.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Atrevo-me a continuar a pedir ao Governo, pelos departamentos competentes, auxilio para as suas indústrias, e, se puder ser, no próximo plano de fomento industrial, a criação doutras novas também, para dar ocupação a tantos braços que dia a dia vão surgindo para a labuta da vida e ao mesmo tempo contribuir para o engrandecimento desta Pátria, a que tanto queremos e pela qual tudo sacrificaremos".

Dr. António Mendes Correia 

Na Sessão nº. 160, da VI Legislatura da Assembleia Nacional realizada no dia 29 de Junho, o deputado António Mendes Correia toma a palavra e fala sobre o Congresso de Etnografia e Folclore de Braga, nos seguintes termos:

“Sr. Presidente: na sessão de ontem o nosso colega Dr. Alberto Cruz referiu-se, a propósito das impressões que teriam deixado a terra e a gente bracarenses e o Minho em geral nos membros do recente Congresso de Etnografia e Folclore, realizado em Braga, as tradições regionais de hospitalidade e à necessidade de se apoiar o desenvolvimento do turismo naquela província.

Não precisa o nosso colega da minha solidariedade nas aspirações que formulou, e que naturalmente perfilho sem restrições, mas pedi a palavra para, ainda com um mandato que me permite traduzir o sentir de todos os congressistas, sublinhar a hospitalidade e a cortesia que todos encontrámos em Braga e na boa gente do Minho, aproveitando este ensejo para, mais uma vez, salientar o significado nacional e político da assembleia realizada e a importância - nos mesmos aspectos, além do científico - de muitas matérias nela versadas e de muitos dos votos finais ali adoptados.

Não trago, evidentemente, a esta Câmara um relato pormenorizado do que foi o Congresso e do que ele representa na vida cultural e social do Pais.

Mas acentuarei que a sua magnitude decorre do tema dos seus relatórios e das suas duzentas comunicações. Esse tema é o povo português, a sua psicologia, as suas tradições, a sua arte, os seus anseios, as suas tendências e as suas capacidades.

Tema que é hoje versado cientificamente, com métodos e técnicas adequados, de maneira sistemática, imparcial e objectiva, e não ao modo antigo, por coleccionadores

a esmo, por simples amadores sem preparação, por devaneadores e fantasistas, com maior ou menor brilho literário, maior ou menor sentimento e entusiasmo, mas numa ausência total, ou quase, de espírito cientifico. Há ainda quem suponha que etnografia e folclore são puras colectâneas amenas de temas pitorescos da vida popular.

Ora, o último Congresso definiu posições nítidas e úteis quanto à natureza dos objectos dessas disciplinas e quanto à maneira de os tratar e utilizar. Pôs em evidência o interesse de certas investigações. Salientou as ligações entre o âmbito das ditas disciplinas e a história, a filosofia, a religião, a arte, a sociologia, a política, a economia, etc. Pôs sobretudo em relevo o valor nacional daqueles estudos.

E a todos foi grato verificar que, a par das contribuições mais singelas sobre um ou outro facto local ou regional, surgiram naquela assembleia teses de conjunto ou de carácter genérico e doutrinário, como as de metafísica, do folclore e da ética dos provérbios populares, tratados pelos reverendos Drs. Bacelar e Oliveira e Craveiro da Silva, da Faculdade Pontifícia de Filosofia, de Braga.

Não faltaram outros elementos universitários e académicos, participantes do Brasil, Espanha e México, os temas mais variados. Mas desejo aqui congratular-me, sobretudo, com o apoio e interesse manifestados ao Congresso, não só por corpos administrativos, como as Câmaras Municipais de Braga -a autora da iniciativa e sua grande realizadora, Viana do Castelo, Santo Tirso e Porto, e algumas juntas de província, mas também por organizações como o Secretariado Nacional da Informação e Cultura Popular, a Mocidade Portuguesa, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, etc.

O Governo da Nação, o Governo de Salazar, dispensou ao Congresso o apoio mais expressivo, sendo notáveis os discursos proferidos no mesmo pelos ilustres Ministro das Corporações e Subsecretário de Estado da Educação Nacional.

Verificou-se, assim, este facto altamente consolador: é que de sectores os mais variados da vida nacional, de todos os planos hierárquicos, dos domínios directamente ligados ao assunto como de outros, do Governo ao próprio povo - como o de Braga e como o que participou nos festivais folclóricos então realizados, houve geral concordância no reconhecimento do vasto e profundo significado da bela iniciativa da Câmara de Braga, e especialmente do seu extraordinário presidente.

Como ó oportuna e confortante tal verificação, precisamente quando nesta Assembleia se está discutindo o Plano de Formação Social e Corporativa, marcando-se o desejo de, abrindo os braços a todos os progressos reais e fecundos, conservar as melhores e mais sãs tradições nacionais!

O Congresso emitiu numerosos votos, como em matéria de ensino, investigação, propaganda, museus, protecção, etc., de assuntos etnográficos e folclóricos. Sublinharei apenas, neste instante, os que dizem respeito às actividades ultramarinas nesse domínio e à recusa ao fado do título, tão correntemente usado, de canção nacional por excelência.

O estudo da etnografia e folclore das populações ultramarinas mereceu ao Congresso uma atenção especial, salientando-se a necessidade dessa matéria nos centros de estudos sociais e políticos e nos novos institutos de investigação científica de Luanda e Lourenço Marques, entre as ciências humanas ou sociais.

Quanto ao fado, proclamou-se o inconveniente nacional e folclórico da sua difusão excessiva, quer pela sua proveniência, quer pelo pessimismo e desanimo que traduz, em contradição com as fontes e as manifestações mais autênticas e construtivas da inspiração popular. O fado lembra as guitarras plangentes de Alcácer, não um brado de vitória ou de fé.

Não pretendo negar a beleza de alguns fados, das toadas mais melancólicas, de versos profundamente tristes. Mas não se chame canção nacional por excelência a uma canção folclòricamente tão discutível e tão distinta, em tudo, das belas, joviais e empolgantes canções de que é felizmente tão rico. O autêntico folclore nacional.

Vi um dia, num festival folclórico, no Porto, centenas de visitantes estrangeiros, como um só homem, perante uma exibição de ranchos de Viana, erguerem-se a aplaudir e a gritar: «Viva Portugal»! Em vez do fado depressivo, como não hão-de ser estimulantes e gratas para nós, Portugueses, essas manifestações da nossa música popular que têm assim o dom de arrebatar os próprios estrangeiros?

Sem recusar a possibilidade de introdução e adopção de factos novos, ou seja do processo chamado de aculturação pelos etnógrafos e sociólogos, o Congresso pronunciou-se pela definição do facto etnográfico e folclórico como caracterizado por serem tradicionais e de origem espontânea e anónima na alma popular.

A aculturação só pode dar-se quando esta alma lhe é favorável, quando nesta encontra eco, aceitação, concordância psicológica. Nos nossos territórios ultramarinos é do maior interesse o estudo da aculturação das populações nativas sob a influência da cultura que tenho chamado luso-cristã.

Por estas singelas considerações creio ter dado uma ideia da importância nacional e científica do Congresso de Braga. Mas o que sobretudo desejei sublinhar, usando da palavra, foi a gratíssima impressão que congressistas nacionais e estrangeiros trouxeram do convívio, da hospitalidade, da afabilidade, da cortesia, do trato, da doçura, do irradiante poder de simpatia, da boa gente de Braga e do Minho, daquele admirável povo em que se conservam e florescem tantas virtudes tradicionais de suavidade de alma, de bondade, de apego ao lar, de dedicação pelo trabalho, de amor pelo seu berço e de fidelidade aos altos valores espirituais que garantem a perenidade da Pátria e da civilização.

Posso depor com firmeza que na multidão que em avalancha jovial festejava o S. João, na noite de 23, em Braga, não vi senão atitudes simpáticas e dignas. Quem dava involuntariamente um encontrão pedia desculpa.

Ausência de palavrões, de qualquer grosseria, de brutalidade. Bom povo, admirável povo, que a dissolução tendenciosa de outros meios ainda não inquinou nem perverteu.

Tenho a certeza de que a acção de organizações como as que citei manterá indemnes a sua alma e as suas tradições sãs contra a vaga cosmopolita ou exótica de materialismo pretensamente científico e humano que ameaça subverter o que há de melhor e mais luminoso no património moral da nossa civilização. Bom povo de Portugal, porque creio em ti e nos valores espirituais que te animam, creio na eternidade da Pátria.

Tenho dito."

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A imagem regista o almoço realizado em Viana do Castelo no âmbito do Congresso de Etnografia e Folclore de Braga. Identificam-se o Coronel Mário cardozo e Alberto Vieira Braga, respectivamente o segundo e o quarto a contar da esquerda. (Foto: Casa de Sarmento – Centro de Estudos do Património).

Carlos Gomes in http://www.folclore-online.com/

“OS MORROS DE NÓQUI”: UM LIVRO DE FICÇÃO DE CLÁUDIO LIMA

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O livro“Os Morros de Nóqui”, de Cláudio Lima é uma pequena obra que reúne três relatos ficcionados que reconstituem cenários da guerra colonial vividos no norte de Angola, experiência aliás vivida pelo próprio autor entre 1967 e 1969 com a patente de alferes miliciano. Retratos humanos de quem foi chamado a cumprir um dever em paragens longínquas que se acreditava serem parte integrante da Pátria, o dilema de um graduado cujo destino acabaria por resolver ou o acerto de contas do humilde soldado que na sua simplicidade havia sido humilhado. São histórias de gente simples que viveu momentos particularmente marcantes em contextos bastante diferentes aos que se encontravam habituados e em relação aos quais teve de se adaptar e sobreviver. Em síntese, experiências vividas pelos portugueses num período ainda recente da nossa História. Como adverte o próprio autor, “são estórias, não é a História. Daí que nomes, situações, toponímias, etc. sejam fictícios, adulterados ou descontextualizados. Serão, porventura, verosímeis; não são, factualmente, verdadeiros.”

Os Morros de Nóqui” tem a chancela da Editora Ausência e apresenta uma capa graficamente bem concebida da autoria de Nuno Rogério. A cerimónia do seu lançamento teve lugar no passado mês de Outubro, na Casa-Museu Nogueira da Silva por iniciativa da Biblioteca Pública de Braga da Universidade do Minho e da Editora Ausência, tendo a sua apresentação sido feita pelo escritor Dr. Jaime Ferreri.

CANTARES GALLEGOS: POESIA DE ROSALÍA DE CASTRO É PARTE INTEGRANTE DA LITERATURA PORTUGUESA

Considerada a fundadora da moderna literatura galega, a escritora e poetisa Rosalía de Castro foi a iniciadora do Rexurdimento, movimento cultural que constitui o germe do nacionalismo galego. A publicação da sua obra Cantares Gallegos, da qual extraímos o poema “Adeus, rios; adeus, fontes”, é actualmente assinalado como o Dia das Letras Galegas.

Rosalía de Castro é um dos grandes vultos da literatura galega, o mesmo é dizer da Língua portuguesa que se emprega na Galiza. E, tal como se verifica com o cancioneiro medieval galaico-minhoto, também a poesia de Rosalía de Castro e, de uma maneira geral a literatura galega, deveria ser difundida e estudada em Portugal.

Adeus, rios; adeus, fontes

 

Adeus, rios; adeus, fontes;

adeus, regatos pequenos;

adeus, vista dos meus olhos;

não sei quando nos veremos.

 

Minha terra, minha terra,

terra onde me eu criei,

hortinha que quero tanto,

figueirinhas que plantei,

 

prados, rios, arvoredos,

pinhares que move o vento,

passarinhos piadores,

casinha do meu contento,

 

moinho dos castanhais,

noites claras de luar,

campainhas timbradoras

da igrejinha do lugar,

 

amorinhas das silveiras

que eu lhe dava ao meu amor,

caminhinhos entre o milho,

adeus para sempre a vós!

 

Adeus, glória! Adeus, contento!

Deixo a casa onde nasci,

Deixo a aldeia que conheço

Por um mundo que não vi!

 

Deixo amigos por estranhos,

deixo a veiga pelo mar,

deixo, enfim, quanto bem quero…

Quem pudera o não deixar!...

 

Mas sou pobre e, malpecado!

a minha terra n’é minha,

que até lhe dão prestado

a beira por que caminha

ao que nasceu desditado.

 

Tenho-vos, pois, que deixar,

hortinha que tanto amei,

fogueirinha do meu lar,

arvorinhas que plantei,

fontinha do cabanal.

 

Adeus, adeus, que me vou,

ervinhas do campo-santo,

onde meu pai se enterrou,

ervinhas que biquei tanto,

terrinha que nos criou.

 

Adeus, Virgem da Assunção,

branca como um serafim;

levo-vos no coração;

vós pedi-lhe a Deus por mim,

minha Virgem da Assunção.

 

Já se ouvem longe, mui longe,

as campanas do Pomar;

para mim, ai!, coitadinho,

nunca mais hão de tocar.

 

Já se ouvem longe, mais longe…

Cada bad’lada uma dor;

vou-me só e sem arrimo…

Minha terra, adeus me vou!

 

Adeus também, queridinha…

Adeus por sempre quiçá!...

Digo-che este adeus chorando

desde a beirinha do mar.

 

Não me olvides, queridinha,

Se morro de solidão…

Tantas léguas mar adentro…

Minha casinha!, meu lar!

 

Rosalía de Castro, Cantares Gallegos, edição de Higino Martins Esteves

MUSEU DE ARTE POPULAR: ARTESANATO E PRODUTOS REGIONAIS DE TODO O PAÍS MOSTRAM-SE EM LISBOA

Começou ontem com grande sucesso a MOART - Mostra de Artesanato e Produtos Regionais, iniciativa da Progestur em parceria com o Museu de Arte Popular (MAP) e que conta com o apoio da Associação de Artesãos da Serra da Estrela. Este certame prossegue nos dias 8, 9, 10, 11, 17 e 18 de Dezembro, das 10h às 18h, excepto Sábados que encerra às 21h, com entrada livre.

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Pretende-se com esta iniciativa criar uma oportunidade de trazer até Lisboa e juntar num espaço de excelência como é o MAP, o melhor do artesanato português, os nossos produtos regionais mais relevantes e uma dinâmica de animação diária, com actuações de grupos etnográficos, música tradicional, exposições, ateliês, provas de produtos DOP, magustos, entre muitas outras acções.

Na MOART, daremos visibilidade tanto ao melhor do nosso artesanato tradicional como ao New Craft, apresentando em simultâneo as novas tendências da fusão entre artesanato e design e as peças dos grandes mestres da cerâmica, olaria e de muitas outras artes e ofícios.

A programação será dinâmica e diversificada. Venha aprender como se faz uma peça de cerâmica e desfrute de um bom vinho acompanhado por uma fatia de pão alentejano com queijo da serra da estrela. Serão ainda todos os dias sorteados vouchers cujos prémios vão desde a um fim-de-semana na Quinta Nova N.S do Carmo a muitas outras surpresas que estamos a preparar.

É nossa intenção tornar a MOART um evento desejado no calendário da programação de actividades culturais nacionais, contando para isso com a vossa colaboração que será certamente imprescindível ao êxito desta iniciativa.

Este evento é organizado sob a óptica da sustentabilidade das entidades presentes assim como pelo dever, que é de todos, de Responsabilidade Nacional de promoção e valorização do produto português!

Na MOART, motivos não faltam para conhecer e descobrir, viver e saborear Portugal, tudo num só espaço em Lisboa!

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MÁRCIA CONDESSA: UMA MINHOTA QUE FOI UMA DAS MAIS CÉLEBRES CANTADEIRAS DO FADO

Numa altura em que o fado acaba de ser reconhecido pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, parece-nos oportuno recordar aquela que foi uma das mais famosas cantadeiras do fado: Márcia Condessa.

Ficou célebre a sua casa típica à Praça da Alegria, em Lisboa. Aliás, muitos foram os minhotos que ali actuaram, com os nossos trajes tradicionais, após os ensaios realizados nas casas regionais, recebendo o respectivo pagamento pela sua actuação. Márcia Condessa nunca esqueceu as suas gentes e ajudava sempre que podia.

Acerca da sua biografia, transcrevemos o que é referido no Portal do Fado, em http://www.portaldofado.net/

“Márcia Condessa nasceu em Monção a 28 de Setembro de 1915. Não tendo possibilidade para realizar estudos, veio ainda jovem para Lisboa para procurar trabalho.

A sua ligação ao fado inicia-se no restaurante da Bica onde Márcia Condessa trabalhava e, por vezes, cantava fados e também algumas canções galegas.

Em 1938, quando o jornal "Canção do Sul" organiza o Concurso da Primavera, os frequentadores e habitantes do bairro pedem a Márcia Condessa que participe em representação da Bica. A fadista acede aos pedidos, passa nas eliminatórias e chega à final do concurso, realizada a 11 de Julho de 1938, numa das salas da redacção do jornal.

Nesta prova cada cantadeira interpreta dois fados do seu repertório, um castiço e outro canção e, conforme é referido na edição do jornal de 16 de Julho, onde se publica a acta do concurso, foi atribuído pelo júri o "1º prémio e por unanimidade, o título de «Rainha do Fado - 1938» à candidata do Bairro da Bica, Márcia Condessa, a qual reúne sobejamente os predicados requeridos de dicção, voz e expressão."

Vencido o concurso e apresentada a fadista na capa da referida edição do jornal "Canção do Sul", a cantadeira passa a actuar em várias casas de fado e espectáculos vários até abrir, na década de 1950, o seu próprio restaurante típico.

Quando em 1938 Márcia Condessa arrecadou o título de «Rainha do Fado», no Concurso da Primavera do jornal "Canção do Sul", abraçou a carreira de fadista como sua profissão.

Os locais onde interpretou o fado abarcam várias casas de fado, mas foi na Adega Machado que integrou o elenco permanente durante vários anos, até ter inaugurado o restaurante "Márcia Condessa", desde aí condicionando a sua carreira artística para as apresentações diárias e gestão deste espaço.

A 16 de Abril de 1942, Márcia Condessa volta a ser a capa do jornal "Canção do Sul" que apenas quatro anos passados da sua estreia a adjectiva como "Uma Titular no Fado Antigo" e "A Voz da Humildade".

Em 1944, a fadista actuou no Coliseu do Porto, no espectáculo "Mãe Portuguesa", onde se juntava na interpretação a dois outros grandes nomes do universo fadista, Ercília Costa e a Júlio Proença. (cf: "Canção do Sul", 16 de Setembro de 1944).

É no nº 38 da Praça da Alegria que a fadista abre a casa "Márcia Condessa", a qual se tornará um ponto de referência nos circuitos de exibição dos fadistas mais destacados. Para além das actuações da própria Márcia Condessa, passaram por este espaço artistas como Celeste Rodrigues, Alcindo Carvalho, Teresa Nunes, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha ou Beatriz da Conceição.

Este será o espaço onde a cantadeira se manterá até decidir afastar-se da carreira artística em meados da década de 1970, passando depois o espaço a ser gerido por um sobrinho seu e, mais tarde, passando pelas mãos de vários sócios, que mantiveram o nome da casa. No decorrer da década de 1990 a casa deixou de ser espaço de apresentação de fado e passou a ser o restaurante "O Púcaro".

Márcia Condessa fez também actuações no estrangeiro. Durante 8 meses esteve no Brasil, integrada numa companhia de teatro, da qual faziam também parte Irene Isidro, António Silva e Ribeirinho. E, já depois de ter a sua casa aberta ao público, fez um espectáculo em Marrocos, integrando uma comitiva de Estado.

Apesar da sua longa carreira não existem quase registos discográficos de Márcia Condessa. Em formato CD existe apenas uma edição conjunta com Adelina Ramos e Berta Cardoso, na colecção "Fados do Fado" da Movieplay. Aqui surgem reeditados os quatro temas que a fadista gravou para a editora Alvorada em 1962: "Embuçado", "Fado menor (quadras soltas) ", "Canção do Mar" e "Fado das Caravelas".

Márcia Condessa faleceu a 1 de Julho de 2006, quando estava perto de completar 91 anos. O seu funeral realizou-se na sua terra natal, em Monção.”

NAMORO E CASAMENTO NO ALTO MINHO

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As imagens registam o encontro de namorados e o casamento, à saída da igreja, em Santa Marta do Portuzelo, no Concelho de Viana do Castelo. As fotos foram publicadas no livro “Portugal e o Mar”, de Frederic P. Marjay, editado pelo autor em 1957 com o patrocínio da Junta Nacional da Marinha Mercante e dos Organismos Corporativos da Pesca.

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JOVENS SOCIAIS-DEMOCRATAS DE PONTE DE LIMA PROMOVEM CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE

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Numa altura em que Portugal se bate com tempos difíceis, a JSD Ponte de Lima, a semelhança dos anos anteriores, promove a VIII Campanha de Solidariedade de Natal a realizar nos dias 10, 11, 17 e 18 de Dezembro.

Esta campanha consiste na angariação de donativos na época de Natal (brinquedos, alimentos e vestuário) para posteriormente entregar aos Vicentinos (Conferência de São Vicente de Paulo) para procederem à sua distribuição pelas famílias mais carenciadas.

A campanha de solidariedade funcionará nos dias assinalados das 9 horas às 18 horas, num Stand localizado junto à Caixa Geral de Depósitos, no Passeio 25 de Abril, na proximidade ao Largo de Camões, onde poderão ser depositados todos os donativos.

A comissão política da JSD de Ponte de Lima renova o apelo para que, nesta quadra tão especial, todos os que queiram colaborar, o podem fazer no local e horário definido.

HOJE É DIA DA IMACULADA CONCEIÇÃO, PADROEIRA E RAINHA DE PORTUGAL

Painel de azulejos existente na cidade de Guimarães

As Nações sobrevivem à erosão do tempo e permanecem vivas na história dos povos se prosseguirem na fecundidade que lhes vem da sua espiritualidade e da sua cultura. A diluição espiritual e cultural de um povo significará inevitavelmente a perca da sua identidade e a sua fusão num hoje sem futuro.

A História de Portugal regista dois momentos altos na recuperação da sua independência: a Revolução 1383-1385 e a Restauração de 1640.

Na Revolução de 1383-1385 salienta-se o cerco de Lisboa, que durou cerca de cinco meses e terminou em princípios de Setembro de 1384, acentuando-se durante o assédio, o significado da vitória alcançada por D. Nuno Álvares Pereira em Atoleiros a 6 de Abril de 1384 e a eleição do Mestre de Aviz para Rei de Portugal, curiosamente a 6 de Abril de 1385. Em 15 de Agosto travou-se a Batalha de Aljubarrota, sob a chefia de D. Nuno Álvares Pereira, símbolo da vitória e da consolidação do processo revolucionário de 1383-1385.

No movimento da restauração destaca-se a coroação de D. João IV como Rei de Portugal, a 15 de Dezembro de 1640, no Terreiro do Paço em Lisboa.

A Solenidade da Imaculada Conceição liga estes dois acontecimentos decisivos na História da independência de Portugal e no contexto das Nações Europeias. Segundo secular tradição foi o Condestável D. Nuno Álvares Pereira quem fundou a Igreja de Nossa Senhora do Castelo em Vila Viçosa e quem ofereceu a imagem da Virgem Padroeira, adquirida na Inglaterra. Este gesto do Contestável reconhece que a mestiça que levou Portugal à vitória veio da devoção de um povo a Nossa Senhora da Conceição.

Aliás, já desde o berço, já a quando da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, havia sido celebrado um pontifical de acção de graças, em Lisboa, em honra da Imaculada Conceição.

A espiritualidade que brotava da devoção a Nossa Senhora da Conceição foi novamente sublinhada no gesto que D. João IV assumiu ao coroar a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal nas cortes de 1646.

Esta espiritualidade imaculistas foi igualmente assumida por todos os intelectuais, que na prestigiada Universidade de Coimbra defenderam o dogma da Imaculada Conceição sob a forma de um juramento solene.

De tal modo a Imaculada Conceição caracteriza a espiritualidade dos portugueses, que durante séculos o dia 8 de Dezembro foi celebrado como "Dia da Mãe" e João Paulo II incluiu no seu inesquecível roteiro da Visita Pastoral de 1982 dois Santuários que unem o Norte e o Sul de Portugal: Vila Viçosa no Alentejo e o Sameiro no Minho.

O dia 8 de Dezembro transcende o "Dia Santo" dos Católicos e engloba indubitavelmente a comemoração da Independência de Portugal, que o dia 1 de Dezembro retoma. O feriado do dia 8 de Dezembro é religioso, mas é também celebrativo da cultura, da tradição e da espiritualidade da alma e da identidade do povo português.

Não menos importante, e em âmbito religioso e litúrgico, o tema da Imaculada Conceição da Virgem Maria é já abundantemente abordado pelos Padres da Igreja. Será o Oriente cristão o primeiro a celebrá-la. Festividade que chega à Europa Ocidental e ao continente europeu pelas mãos das cruzadas Inglesas nos séc. XI e XII. Vivamente celebrada pelos franciscanos a partir de 1263, será o também franciscano Sixto IV, Papa, que a inscreverá no calendário litúrgico romano em 1477.

De facto, o debate e a celebração desta festividade em toda a Europa são acompanhados pela história do próprio Portugal. Coimbra, como já vimos, tem um importante papel em todo este processo.

Em 8 de Dezembro de 1854, viverá a Igreja o auge de toda esta riqueza teológica e celebrativa. Através da bula "Ineffabilis Deus", Pio IX, após consultar os bispos do mundo, definirá solenemente o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

Não estamos diante de uma simples festa cristã ou de capricho religioso. O dogma resulta de tudo quanto a Igreja viveu até aqui e vive hoje em toda a sua plenitude. Faz parte da identidade da Igreja. Isso mesmo o prova o texto proclamado por Pio IX que apoia a sua argumentação nos Padres e Doutores da Igreja e na sua forma de interpretar a Sagrada Escritura. Ele, de facto, reconhece que este dogma faz parte, depois de muitos séculos, do ensinamento ordinário da Igreja.

Portugal, segundo Nuno Álvares Pereira, ou melhor, São Nuno de Santa Maria e D. João IV, isso mesmo o demonstram, não só como resultado da sua própria fé mas como expressão de um povo deveras agradecido pela sua Independência e Liberdade.

O Dia 8 de Dezembro na História de um Povo. Padre Francisco Couto, ISTE, Reitor Santuário de Vila Viçosa; Padre Senra Coelho, ISTE, CEHR, APH

In http://nucleomonarquicoabrantes.blogspot.com/

EM 1939, ABEL VARZIM, DEPUTADO À ASSEMBLEIA NACIONAL, QUESTIONA AS CONDIÇÕES DE TRABALHO NAS MINAS DA CABRAÇÃO

O padre Abel Varzim foi um ilustre barcelense que sempre pugnou pela justiça social e a defesa dos direitos dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos em geral. Fundador da Acção Católica Portuguesa cujos estatutos redigiu, esteve também na origem da Liga Operária Católica. Foi vasto e diversificado o seu campo de intervenção. Enquanto deputado à Assembleia Nacional, na legislatura de 1938 a 1942, salientou-se através de brilhantes intervenções questionando aspectos da organização sindical corporativa e ainda a legislação que regulamentava as condições económicas do casamento dos militares em serviço. As suas intervenções e acção social valeram-lhe, aliás, a perseguição política.

Na sessão de 20 de Janeiro de 1939 da Assembleia Nacional, referente à II Legislatura, reunida sob a presidência do Dr. José Alberto dos Reis, o deputado Abel Varzim apresentou diversos requerimentos ao Instituto Nacional do Trabalho e Previdência diversos documentos comprovativos das condições laborais dos trabalhadores de diversas empresas. Um desses requerimentos referia-se às minas da Cabração e aparece publicado no Diário das Sessões, nos seguintes termos:

“Requeiro que, pelo Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, me seja fornecida nota dos salários pagos, nas diferentes categorias de trabalhos, pelas minas de Cabração, concelho de Ponte do Lima, exploradas pela Compagnie Française des Mines, bem como dos horários de trabalho autorizados.

Assembleia Nacional. 19 de Janeiro de 1939. - O Deputado Abel Varzim.”

A ARTE DE MARINHEIRO E O OFÍCIO DOS MOLEIROS DOS MOINHOS DE VENTO

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Quem já teve a felicidade de contactar de alguma forma com o labor do moleiro, num moinho de vento, certamente se apercebeu da extraordinária semelhança de numerosos vocábulos empregues neste ofício relativamente à linguagem das gentes do mar. Com efeito, existem muitos termos que lhes são comuns, em grande medida resultante da identidade de processos utilizados em ambas as actividades.

Com efeito, à semelhança das naus e, em geral, de todas as embarcações à vela, também os moinhos de vento aproveitam a mesma fonte de energia, recorrendo a uma técnica semelhante para assegurarem o seu próprio funcionamento. Tal como o marinheiro, também o moleiro deve saber medir a direcção e intensidade do vento e manobrar as velas para dele tirar o máximo rendimento. Para tal, utiliza o cata-vento estrategicamente colocado sobre o capelo do moinho e os búzios atados na extremidade das vergas. Na realidade, o moinho de vento é como um veleiro a navegar em terra firme que requer a sabedoria do seu marinheiro – o moleiro!

Quando os portugueses se fizeram ao mar, a tripulação das naus partiu de terra e era naturalmente constituída por gente que, nas suas lides quotidianas, se dedicava aos mais variados ofícios. Entre ela encontravam-se certamente os moleiros cuja arte foi seguramente determinante para as actividades de manobra uma vez que, à semelhança dos moinhos, as naus e as caravelas navegavam à vela, sendo necessários marinheiros experimentados na arte de marinharia que era, afinal de contas, a arte dos próprios moleiros.

Não admira, pois, que ambas as linguagens se confundam em grande medida. De resto, é bastante sintomática a expressão outrora utilizada pelos navegadores quando, ao constatarem a evolução demasiado lenta da nau, a ela se referiam dizendo que “a nau ia moendo”, numa clara alusão ao ritmo pachorrento com que o moinho procede à moagem do grão.

O estudo dos moinhos é de uma extraordinária riqueza e elevado interesse cultural, sob todas as suas variantes, desde o ponto de vista tecnológico como ainda etnográfico, histórico e linguístico. Refira-se, a título de exemplo, que os construtores de moinhos eram outrora apelidados de engenheiros por se tratarem, na realidade, de construtores de engenhos.

Desde que o Homem sentiu necessidade de recorrer a processos mais eficazes para moer os grãos que utilizava na sua alimentação, ultrapassando a forma primitiva de os esmagar à mão com o emprego de duas pedras, os moinhos acompanharam a evolução do seu conhecimento e reflectiram a sua própria organização social. Aproveitando os mais diversos recursos naturais e apresentando-se sob variadas formas, incluindo as azenhas e os moinhos de maré, eles encontram-se presentes nas novas tecnologias para captação da energia eólica ou ainda para bombagem de água como sucede na captação de água dos poços ou na manutenção dos diques da Holanda.

Atendendo ao valor cultural que o estudo dos moinhos representa, junta-se um pequeno dicionário comparado da linguagem utilizada pelos moleiros que trabalham nos moinhos de vento relativamente à empregue no meio náutico.

Andadeira –Mó de cima. Corredor.

Bolacho – Diz-se quando a vela tem três voltas em torno da vara.

Braços – Varas, Vergas.

Búzio – Alcatruz. Pequeno objecto de barro, por vezes com a forma de uma cabaça, contendo um só orifício, que se coloca na ponta das vergas das velas dos moinhos de vento e que, com o girar destas, produz uma espécie de assobio que permite ao moleiro calcular a intensidade do vento e a velocidade adquirida pelas velas.

Cabrestante – Sarilho. Dispositivo para fazer rodar o capelo do moinho. – Nos navios, refere-se ao sarilho para manobrar e levantar a âncora e outros pesos.

Cabresto – Corda comprida que segura as varas e que serve para efectuar a amarração das velas no exterior. – Cada um dos cabos que, da ponta do gurupés vem à proa do navio, junto ao couce do beque. O gurupés é o mastro oblíquo situado na proa dos navios.

Calha – Peça que leva o grão da tremonha para o olho da mó. Ligação entre o tegão e o olho da mó. Quelha.

Canoura - Vaso de madeira donde o grão vai caindo para a mó. Moega. Tremonha.

Capelo – Parte superior do moinho que roda em função da direcção do vento. Existem, contudo, moinhos que são rodados a partir da base, com a utilização de rodados. – Em linguagem náutica, diz-se da volta da amarra na abita que constitui a peça de madeira ou ferro, existente na proa dos navios, para fixar a amarra da âncora. Esta peça, apresenta-se geralmente de forma rectilínea e liga ao “pé de roda” e termina na roda de proa. Nos barcos rabões, embarcações da família dos rabelos durienses, indica a sua extremidade superior. Nos valvoeiros, refere-se à parte superior da caverna.

Carreto – Roda colocada na parte superior do eixo central do moinho e ligado à entrosa.

Corredor – Mó de cima, com raio idêntico ao poiso, mas com altura inferior a esta.

Eixo – Mastro.

Entrosa – Rosa dentada existente no mastro do moinho, com os dentes na lateral engrenando noutra roda dentada.

Frechal – Calha onde assenta a cúpula móvel sobre a torre do moinho.

Forquilha – Vara comprida e com a ferragem em ponta em forma de “V”. – No meio náutico também se designa por forqueta e é constituído por duas hastes de madeira onde os pescadores arrumam o mastro, a verga e a palamenta enquanto pescam. A forquilha de retranca é uma cruzeta de madeira ou de ferro colocada na borda do navio, à popa, a meia-nau, para descanso da retranca.

Mastro – Eixo do moinho de vento. – Numa embarcação designa cada uma das peças altas constituídas por vergônteas de madeira que sustentam as velas.

Meia-ponta – Diz-se quando a vela tem cinco voltas em torno da vara.

Meia-vela – Diz-se quando a vela do moinho tem uma volta em redor da vara.

– Pedra cilíndrica em forma de anel que serve para moer o grão.

Moageiro – Aquele que produz moagem.

Moagem – Acto ou efeito de moer. Moedura

Moedura – Moagem.

Moega – Canoura. Tremonha.

Moenda – Mó. Acto ou efeito de moer. Maquia que o moleiro retribui em géneros. Moinho. Moenga.

Moenga – Moenda

Moer – acto ou efeito de transformar o grão em farinha – Em linguagem antiga de marinha, “a nau ir moendo” referia-se à evolução demasiado lenta de um navio.

Olho da mó – Parte vazia no centro da mó.

Pano – Diz-se quando a vela do moinho se encontra toda aberta. – Os marinheiros referem “navegar a todo o pano” quando se pretende que o navio obtenha a sua velocidade máxima, aludindo ao completo desfraldar das velas.

Pião – Eixo do moinho de vento. Mastro.

Picadeira – Ferramenta usada para picar a mó a fim de criar novos sulcos. Picão.

Picão – Picadeira.

Poiso – A mó que fica por debaixo, estática.

Ponta – Diz-se quando a vela tem quatro voltas em torno da vara.

Quelha – Calha.

Sarilho – Dispositivo para fazer rodar o capelo. Cabrestante. – Nos navios consiste na máquina onde se enrola o cabo ou cadeia do cabrestante.

Segurelha – Suporte metálico regulável que fixa o corredor ao eixo vertical. Peça onde entra o ferro que segura a mó inferior ou poiso para tornar uniforme o movimento da superior ou andadeira.

Taleiga – Saco pequeno para condução de farinha.

Tegão – Peça por onde o grão passa para moer.

Traquete – Diz-se quando a vela do moinho tem duas voltas em redor da vara. – Nos navios, é a maior vela do mastro da proa.

Tremonha – Canoura. Moega.

Varas – Hastes de madeira de auxílio à amarração. Vergas. – Nos navios, constituem peças longas de madeira colocadas horizontalmente sobre os mastros para nelas se prenderem as velas.

Vela – Pano forte e resistente que se prende aos braços dos moinhos para os fazer girar sob a acção do vento. – Nos navios e embarcações, é o pano que se prende aos mastros para as fazer navegar.

Vela fechada – Diz-se quando a vela tem seis voltas em torno da vara.

Vela latina – Vela de formato triangular geralmente utilizada nos moinhos e nos navios.

Velame – Conjunto das velas de um moinho ou de um navio.

Vergas – Varas de auxílio à amarração. – Na linguagem náutica, existe uma grande variedade de designações, as quais remetem para as velas que nelas envergavam. De sublinhar, aliás, a proveniência do verbo envergar.

Bibliografia:

LEITÃO, Humberto; LOPES, J. Vicente. Dicionário da Linguagem de Marinha Antiga e Actual. Edições Culturais de Marinha. Lisboa. 1990.

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Moinhos de Cima e do Marinheiro, em Carreço, no Concelho de Viana do Castelo.

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