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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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CÂMARA DOS DEPUTADOS DEBATEU EM 1912 A CONSTRUÇÃO DA LINHA DE COMBOIO DE BRAGA A MONÇÃO

A discussão acerca da construção de uma rede de caminhos-de-ferro no Minho foi uma constante durante a Primeira República. Os resultados foram os que se viram…

Na sua sessão de 23 de Janeiro de 1912, o projecto-lei relativo à construção e à exploração dos caminhos-de-ferro no Alto Minho foi discutido na Câmara dos Deputados. Deixamos duas breves passagens, referindo-se a primeira à leitura do documento por parte do seu Presidente, António Aresta Branco e a segunda relativa à intervenção do deputado Simas Machado.

Na transcrição, respeitamos a grafia da época.

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O Caminho de Ferro de Guimarães por Braga a Monção sobe primeiramente a Serra da Falperra, que passa na Portela de Balazar, subindo 160m,90, entre as Taipas e aquela, com rampa média de 0m,02433, sem nunca ultrapassar 25 milímetros, num percurso de 6:614m,30, em rampa, para depois descer 156m,01 com 6:664m,16 em declive antes de subir 20m,80 para atingir Braga. O raio mínimo empregado foi a 100 metros, e a extensão total de Guimarães a Braga é de 28:734m,63.

De Braga em diante desce para o Cávado, havendo até a Ribeira de Sabariz 3:970m,21 em patamar, 3:796m,42 em rampas de 8:032m,04 em declive com inclinação média de 0m,02209, não excedendo nunca o limite de 25 milímetros por metro. E daí sobe até a Portela do Vade, na divisória do Cávado e do Lima, em terreno descoberto, vencendo 254m,93 de diferença de nível, só com l:484m,22 em patamar e 53m,95 em declive, para 10:763m,98 em rampa dentro do limite do 25 milímetros sem baixar do raio 100 metros em planta. Da Portela do Vade até o Lima nos Arcos de Valdevez o traçado é difícil, pois tem de descer 277m,80 o que obrigou a 12:606m,91 em declive para 4:276m,21 em patamar, e 2:704m,60 em rampa, sem nunca ultrapassar inclinação de 25 milímetros, nem baixar o raio alêm de 90 metros.

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Simas Machado era natural de Braga

O Sr. Simas Machado: - Sr. Presidente: pedi a palavra por causa dumas referências feitas pelo meu colega Rodrigo Fontinha. Antes, porêm, de me referir ao que S. Exa. disse, permita-me V. Exa. e a Câmara que eu felicite os signatários dêste projecto. E faço-o com tanto mais entusiasmo, quanto é certo que estive o ano passado na parte da província do Minho que vai ser beneficiada por êste caminho de ferro, podendo afirmar a V. Exa. e á Câmara que, quer no serviço de propaganda, que ali se fez, quer no serviço militar, conversando com aquele bom povo do Alto Minho, eu ouvi, frequentíssimas vezes, declarar-me que da melhor vontade se colocariam ao lado da República se os Governos republicanos tratassem, com mais cuidado dos seus interesses, do que os tinham tratado os monárquicos.

O que lhes ouvia pedir era Que os Governos republicanos lhe dessem estradas e escolas e o que é certo é que êles tinham carradas de razão; senão atenda V. Exa. no seguinte:

Quasi todas as freguesias importantes do concelho de Arcos de Valdevez estão ligadas a esta formosíssima vila por caminhos intransitáveis. A povoação de Cabreiros é já uma terra importante. Pois, Sr. Presidente, o caminho que a liga aos Arcos é perfeitamente um precipício. Atravessei-o, várias vezes, com alguns oficiais, - e o que é certo é que em alguns pontos, se escapasse uma pata ao cavalo, como os abismos se escancaram a um e outro lado do atalho, aí desapareceram cavalos e cavaleiros.

Eu, Sr. Presidente, quando passava por Ia ia sempre com o credo na boca. A minha lialdade leva me a confessar o seguinte: eu, na arte da gineta e da estardiota nunca fui forte, mas creio que os que me acompanhavam iam nas mesmas condições; quer dizer que os caminhos são realmente deploráveis. Emquanto isto estiver nestas condições, e absolutamente impossível que aqueles povos possam progredir, e possam estimar as instituições se por acaso a República não tratar com mais cuidado dos seus interesses, do que tratou a monarquia.

HÁ 100 ANOS, DEPUTADO RODRIGO FONTINHA INTERPELOU NA CÂMARA DOS DEPUTADOS O MINISTRO DO FOMENTO SOBRE AS OBRAS PÚBLICAS NO MINHO

Faz hoje precisamente 100 anos que o deputado Rodrigo Fontinha interpelou na Câmara dos Deputados o Ministro do Fomento, Estêvão de Vasconcelos, a respeito da situação das obras públicas na nossa região, mormente no que dizia respeito à construção de novas estradas e linhas de caminho-de-ferro. Publicamos o conteúdo da referida interpelação, bem assim a resposta do Ministro do Fomento ao deputado Rodrigo Fontinha.

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O Sr. Rodrigo Fontinha: - Sr. Presidente: o objecto da interpelação que anunciei é o seguinte: viação acelerada e ordinária em alguns pontos do distrito de Viana do Castelo.

Devo desde já dizer que não é meu intento tratar do assunto com aquele desenvolvimento que ele merece, porque, além de me faltar a competência, acho suficiente, na ocasião presente, chamar para ele a atenção do Governo e nomeadamente a do Sr. Ministro do Fomento.

Sr. Presidente: o Alto Minho tem sido, até hoje, votado ao mais completo e condenável desprezo pelos poderes públicos.

Não falando agora na falta de escolas, que todos sabem que existe, concelhos há pessimamente servidos e alguns até quasi completamente desprovidos de telégrafo, correio, estradas, caminhos de ferro, de tudo quanto é imposto pelas exigências da vida moderna, numa palavra, em condições dum tal abandono que, dir-se-hia, não pertencerem essas terras a Portugal, mas sim a alguma parte do sertão.

Restrigindo agora as minhas considerações à questão das vias de comunicação no Alto Minho, eu permito-me chamar a atenção do Sr. Ministro do Fomento para a maneira deplorável como tem sido tratado êste ramo da fazenda nacional naquela região.

Por várias vezes se tem reclamado providencias, nesse sentido, aos poderes públicos.

Reclamaram-se no tempo da monarquia, reclamações que não deram resultado algum, porque, como toda a Câmara sabe e era natural a monarquia, em vez de procurar satisfazer os justos interesses dos povos, tratava unicamente de lhes sugar a vitalidade.

Mas já na República se tem feito diversas representações sem que se tenha feito absolutamente nada, no sentido de atender às justas reclamações daquela região, onde a população é muito densa, onde o tráfego é grande, onde o solo é fertilíssimo, onde a natureza é de uma vegetação luxuriante sem igual, onde há inúmeras quedas de água, que convêm aproveitar para as indústrias, que ali estão num estado primitivo, onde é excelente, não só em qualidade, mas também em quantidade, a produção vinícola, onde há riquezas soberbas, que estão por explorar, por não existirem os meios de transporte, quer de estradas, quer de caminhos de ferro, que não só valorizariam extraordinariamente esses traços de terreno, mas seriam um elemento admirável para a mobilização de tropas, como creio estar cabalmente demonstrado pela última mobilização, na fronteira.

Sr. Presidente: quando se organizou o primeiro Ministério Constitucional, eu exultei de alegria e suponho que o mesmo aconteceu a todos os homens do Minho, por haver sido encarregado da pasta do Fomento, e digo-o sem espírito de lisonja, o Sr. Sidónio Paes, que, além de ser um homem de grande talento, é um minhoto, como eu, e que, como tal, conhece de vista aquela região, e saberia que não são exageradas as minhas despretensiosas considerações, em relação à viação acelerada no Alto Minho.

Foi por isso, que eu, como presidente da Câmara de Viana do Castelo, redigi uma representação na qual solicitava a atenção de S. Exa. para este ponto de tanta importância, de tanto valor económico e até de tanto valor político, porque, a meu ver, nenhuma propaganda a favor da República, pode ser profícua senão a propaganda pelo facto, meter pelos olhos dentro àqueles campónios, simples, que, se é certo que a monarquia gastava os dinheiros públicos em manigâncias de toda a ordem, não acontece o mesmo com a República.

Nessa representação lembrava-se a S. Exa. a necessidade de que fosse concluída a linha-férrea de Valença a Monção, já construída em grande parte, com várias estações, sob pena de se retardar o desenvolvimento económico dos povos de uma região tão fértil.

Alem disso estão-se estragando duma forma deplorável as obras já feitas.

Na mesma representação aludia-se também ao projectado caminho-de-ferro do Alto Minho, de Braga a Guimarães, de Braga a Monção, de Viana do Castelo a Ponte da Barca e dos Arcos a Monção, caminho-de-ferro esse cuja construção foi adjudicada por concessão, em 1907, à firma Canha & Formigai que, segundo um relatório publicado há meses, tem 50:000$000 réis em depósito para garantia do contracto, e alem disso já gastou mais de 400:000$000 réis em trabalhos, estudos, material, expropriações, etc.

Também se falava na mesma representação do ramal da estação de Viana para a doca, que o Estado pode construir afoitamente, sem receio de espécie alguma, porque os resultados que daí auferirá são positivamente seguros, pois é relativamente grande o movimento principalmente de toros de pinheiro, de peixe, de vinho verde, etc., para embarque.

Também se falava na estrada distrital n.º 2, da Praia de Ancora a Lanhezes, começada há mais de vinte anos, e de que faltam apenas uns 3 quilómetros e alguns metros para ser concluída. Esses terrenos serão muito facilmente macadamizados.

Idêntica sorte teve uma outra estrada de Ponte do Lima a Paredes de Coura, e que falta pouco para ser concluída, o que exigiria uma verba diminutíssima.

A primeira vista parece que pedir isto tudo ao mesmo tempo, é de mais, é impertinente, mas não é; tudo isto foi já reclamado por muitas vezes e já há muitos anos, e alem disso porque tais obras constituiriam um elemento admirável de riqueza para aquela região e, portanto, para todo o país.

O Ministério do Sr. João Chagas caiu, e vi com mágoa sair da pasta do Fomento o Sr. Sidónio Paes, que já tinha prometido uma viagem ao norte, para tomar conhecimento mais preciso e mais exacto destas e doutras necessidades urgentes, como sejam as obras do porto e doca de Viana do Castelo.

Isto não significa um desprimor para o actual Ministro do Fomento, pois S. Exa. é dotado de excepcionais qualidades de trabalho, tem um fundo nobilíssimo, tem um acendrado patriotismo e desejo de que todo o país progrida, sem restricções para as terras pequenas, porque a despeito de serem pequenas, e terras de província, nem por isso deixam de ser parte deste todo chamado Pátria. (Apoiados).

E, pois, a S. Exa. que me dirijo, pedindo para que, se é possível, me esclareça sobre os seguintes pontos:

Porque razão estão paralisadas, e até que tempo estarão paralisadas, as obras do caminho de ferro de Valença a Monção, onde estão gastos mais de 700:000$000 réis, segundo informações que tenho, despesa esta que não dá rendimento absolutamente nenhum a ninguém, e antes pelo contrário, está empatando e está obrigando o Estado ao pagamento de juros? E o que é pior é que aquilo que está feito, está-se deteriorando por uma forma lastimável?

Com relação ao caminho-de-ferro do Alto Minho, eu desejava ser esclarecido sobre o seguinte:

Porque motivo, em relação á rede dos caminhos-de-ferro do Alto Minho, não tem sido dada solução à questão posta em 1908 pela firma adjudicatária, Ganha & Formigal?

Naturalmente responde-se-me que o que a firma agora deseja é diferente do que estava no contracto primitivo.

A tal respeito direi que é necessário atender às vantagens e desvantagens das modificaç5es que a firma agora propõe.

Desvantagem não vejo absolutamente nenhuma, porque a distância de Viana do Castelo para Ponte da Barca é sensivelmente a mesma, quer se faça o traçado pela margem direita, quer se faca o traçado pela margem esquerda, e as vantagens são grandes, porque a firma diminui o limite máximo das pendentes, o que é importante, aumenta o limite mínimo das linhas de curva, o que é também importante, reduz o prazo, de sete a cinco anos, para a construção do troço de Arcos de Valdevez a Monção, e agora propõe a construção de uma ponte em Lanhezes, para comunicar a margem esquerda com a margem direita e, alem disso, compromete-se a fazer uma estação de recreio, para o turismo, em Santa Luzia, que é um ponto formoso, e que há-de vir a ser um elemento de riqueza para aquela terra.

Por isso julgo que há tudo a lucrar com a mudança do traçado.

Desejava saber porque não se permite a essa firma a emissão de obrigações de que ela necessita para fazer essa construção, se o juro é garantido e a amortização também é assegurada?

Naturalmente respondem-me que o Código Comercial o não permite, mas exemplos desses temo-los frequentíssimos. Poder-me hão objectar que um erro não justifica outro erro.

É para obviar a isso que elaborei um projecto de lei, que vou mandar para a mesa, que vai assinado pelos Deputados do distrito, e que, a meu ver, remedeia o mal.

Parece-me que o Estado em nada se prejudicaria com a permissão da emissão das obrigações.

Desejava também saber porque não se permite a fusão das empresas de caminhos de ferro do Porto a Famalicão e da Trofa a Guimarães e Fafe com a do Alto Minho, fusão que já foi admitida, em princípio, em 1909, e que, a meu ver, seria de grande importância, porque, por um lado, põe de parte a inconveniência que há em haver uma linha comum entre a Trofa e Lousado, e por outro lado alarga a linha da Póvoa, que é estreitíssima, assim como, pela exploração do ramal chamado da Senhora da Hora, canalizar se há para o porto de Leixões um tráfego enorme.

Devo dizer que não tenho procuração da firma Canha & Formigal para aqui advogar a sua causa; o que desejo é que a obra se faça. Pouco importa aos Deputados pelo distrito de Viana do Castelo que seja a firma Canha & Formigal que faça a construção, que seja qualquer outra empresa, ou que seja mesmo o Estado, mas não creio que tal suceda; o que desejo é que a obra se faça, não importando nada com quem a tenha de fazer.

Porque não se autoriza também a construção do ramal da estação de Viana à doca, ramal sôbre que, me disse o Sr. engenheiro Bazílio da Silva Pinto, o Conselho Superior dos Caminhos de Ferro do Estado já tinha dado parecer favorável e cujos interesses para o Estado são seguros?

Porque não estão ainda construídos os 3 quilómetros que faltam, da estrada a macdam da Praia de Âncora a Lanheses, tanto mais que já estão feitas expropriações no valor de 700$000 réis e ainda há na verba respectiva mais de 3:000$000 réis de saldo positivo?

Porque não se conclui também a estrada distrital n.º 1, de Caminha a Melgaço, cujos trabalhos estão completos no concelho de Caminha, quási todos em Paredes de Coura e a que falta só uma parte em Arcos de Valdevez, para depois ser levada até Melgaço?

Esta estrada é importantíssima não só pelo movimento comercial, como até pela razão de defesa do país, e por isso a sua conclusão é urgente.

Esta estrada traria para aquela região um benefício enorme, porque a poria em contacto com centros mais civilizados, os habitantes da Gavieira, Penedo, Suajo, etc., que vivem num estado quási primitivo.

É possível que o Sr. Ministro do Fomento não possa responder de pronto a todas estas perguntas, nem isso mesmo eu exigo. Basta-me que S. Exa., que é um homem de bem, me dê a sua palavra de honra de que estudará com atenção o assunto e que procurará resolvê-lo no mais curto espaço de tempo.

Terminando, peço a S. Exa., em nome dos habitantes daquela região, que, na primeira oportunidade a visite, para ver com os seus próprios olhos quanto estas reclamações são justificadas, e como isto é uma questão de justiça, porque, se não fôsse, nem uma palavra sairia da minha boca.

Mando para a mesa o meu projecto.

Tenho dito.

O Sr. Ministro do Fomento (Estevão de Vasconcelos): - Agradece ao Sr. Rodrigo Fontinha a forma gentil como se lhe dirigiu, tratando da questão sob o ponto de vista geral, e não exigindo dele, orador, uma resposta pormenorizada, ainda que se tinha prevenido com os elementos precisos para lhe dar uma resposta completa.

Começará pelas estradas.

Não há dúvida alguma de que S. Exa. tem razão em tudo o que disse. Todos os Deputados, tanto os do Alto Minho, como os do Algarve, os do Alemtejo e os da Estremadura podem dizer que as suas regiões têm sido votadas ao maior despreso por parte dos poderes públicos. Na questão de estradas, porém, é necessário que o Parlamento e o país conheçam as circunstâncias em que se encontra o Ministério do Fomento, para que não se lhe atribuam responsabilidades que sejam absolutamente injustas e descabidas.

A Câmara e o país ficarão completamente inteirados de quais são as responsabilidades que no assunto estradas podem caber ao Ministro do Fomento, desde que êle, orador, lhe leia os elementos que ainda hoje lhe foram fornecidos pela sua Secretaria.

"Sabe a Câmara qual é a verba necessária para a reparação imediata de todas as estradas que carecem de reparação? 2.000:000$000 a 3.000:000$000 réis." E sabe qual é a verba que para esse fim está inscrita no orçamento? 600:000$000 réis. Esta verba, que só para as pequenas reparações seria insuficiente, para as grandes reparações é manifestamente insignificante.

E sabe também qual seria a verba necessária para se completar a rede da viação, tal como está estudada? 25:000 contos de réis.

E quer saber quanto para isso está inscrito no orçamento? 300 contos apenas.

É necessário que isto se diga, não só para que não pesem sobre os seus antecessores responsabilidades que lhes não cabem, como para que todos saibam que não está na mão do Ministro mandar proceder a todas as obras, embora elas sejam indispensáveis.

Relativamente a Viana do Castelo, deve dizer que esse distrito não é dos que tenham maior razão de queixa. Afirmou-lhe perentóriamente o Sr. Director das Obras Publicas que a reparação de estradas nesse distrito se pode considerar regular, e que no Orçamento tem inscrita a verba de dezoito contos de róis.

Para a estrada de Caminha a Melgaço, pode informar S. Exa. de que está destinada a verba de 800$000 réis.

Quanto a caminhos-de-ferro, a resposta é quási a mesma.

£ Porque não se conclui o caminho-de-ferro de Valença a Monção? Perguntou S. Exa. Porque, segundo a informação de Conselho da Administração dos Caminhos-de-ferro do Estado, que lê à Câmara, embora os trabalhos estejam muito adiantados, são ainda precisos 80:000$000 róis para os concluir. Se no fundo dos Caminhos-de-ferro houvesse disponibilidades para essa construção, ele poderia estar concluído dentro de oito meses, mas as suas receitas estão hipotecadas a um empréstimo.

Para essa construção, como para outras igualmente urgentes, se fazer, era necessário contrair um grande empréstimo, mas para isso é necessário primeiro consolidar o crédito do país, o que só se conseguirá desde que todos compreendam os seus deveres e responsabilidades de bons patriotas.

Sobre este assunto fala desafrontadamente, porque num aviso prévio que realizou a um Ministro da monarquia sobra caminhos-de-ferro, disse que era necessário desenvolver a viação acelerada, porque sem isso não era possível melhorar as condições económicas do país.

O fundo especial de caminhos-de-ferro tem aumentado consideravelmente, mas por mais que ele aumente é materialmente impossível realizar todos os caminhos-de-ferro que seria necessário construir.

Referiu-se S. Exa. também à rede do Alto Minho e à respectiva concessão.

Antes de responder a S. Exa. deseja rectificar uma informação que viu publicada no jornal O Século. Efectivamente, ele, orador, foi procurado por um representante da firma concessionária dessas linhas, teve com ele uma larga conversa, mas não lhe disse o que o Século lhe atribui "que estranhava a demora que tinha havido na resolução do assunto". O que disse foi que estudaria o assunto e que procuraria resolvê-lo o mais rapidamente possível.

Foi isto o que disse, nem podia ser outra cousa, pois o contrário seria uma censura dirigida aos seus antecessores, o que ele seria incapaz de fazer, porque reconhece quanto a questão é escabrosa.

O que o conselho de administração dos caminhos-de-ferro diz a este respeito é o que ele, orador, lê à Câmara.

A questão, como o Sr. Deputado Fontinha vê, não é fácil de resolver, mas se S. Exa. no projecto que mandou para a mesa o consegue, ele, orador, muito prazer terá em o votar.

COMUNIDADE GALEGA EVOCA ALFREDO GUISADO

O Prof. Doutor Carlos Pazos Justo, da Universidade do Minho, proferiu hoje na Xuventude de Galiza – Centro Galego de Lisboa uma palestra subordinada ao tema “Alfredo Guisado e a colónia galega de Lisboa”. A ocasião serviu também para apresentar o seu último trabalho intitulado “Traxectoria de Alfredo Guisado e a sua relacion com a Galiza” (1910 – 1921) ”.

A iniciativa teve lugar na Biblioteca Manuel Cordo Boull e contou ainda com a participação do Prof. Doutor Emilio Cambeiro, da Uiversidade Nova de Lisboa e de Antonio Guisado, familiar de Alfredo Guisado, poeta e jornalista português de ascendência galega.

PAREDES DE COURA CELEBRA BEATO REDENTO DA CRUZ

O Concelho de Paredes de Coura celebra hoje um dos seus filhos mais célebres, o Beato Redento da Cruz, que foi mártir em terras que pertencem actualmente à Indonésia, numa altura em que o domínio filipino atraía sobre os domínios portugueses a cobiça dos inimigos de Espanha, mormente dos holandeses que procuraram apoderar-se da região.

Com a devida vénia, reproduzimos o artigo publicado no blog “Paredes de Coura – Terra com Alma” em http://paredesdecoura.blogs.sapo.pt/43464.html

MEMÓRIA DO BEATO REDENTO DA CRUZ

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A 29 de Novembro celebra-se a memória do Beato Redento da Cruz, courense, religioso e mártir. Lembrado na Diocese de Viana do Castelo, na Ordem Carmelita e na Ordem dos Carmelitas Descalços.

O Beato Redento da Cruz, nasceu no lugar de Lizouros, freguesia de Cunha, com o nome de Tomás Rodrigues da Cunha, sendo filho de Baltazar Pereira e de Maria da Cunha.

Faleceu, sofrendo martírio, a 29 de Novembro de 1638, em Achém, na ilha de Samatra, na Indonésia.

Beatificado pelo Papa Leão XIII a 10 de Junho de 1900.

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Monumento em honra do Beato Redento da Cruz, inaugurado em 1998 no lugar de Abróteas, freguesia de Cunha, aquando as comemorações do IV Centenário do seu nascimento.

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Da pagela publicada pela Igreja:

“Vida do Beato Redento da Cruz

Redento da Cruz, no século Tomaz Rodrigues da Cunha, português, nobre por ascendência, nascido em 1598, era filho de Baltazar Pereira e D. Maria da Cunha, e natural da povoação de Lizouros, freguesia de Santa Maria da Cunha, concelho de Paredes de Coura.

Ainda adolescente partiu para as Índias orientais e, seguindo a carreira das armas, foi Capitão da guarda da cidade de Meliapor; porém depois tomou o hábito dos irmãos conversos na Ordem dos Carmelitas Descalços.

Como se fosse insigne na piedade e suavidade de costumes, foi destinado aos lugares de porteiro e sacristão em vários conventos.

Tendo desempenhado estes cargos com a maior perfeição, foi finalmente, por ordem dos superiores, dado como companheiro ao Beato Dionísio, que partia para a Ilha de Samatra, missão que recebeu de ânimo tanto mais alegre que, por uma inspiração quase divina, pressentira que lhe era seguro caminho para o martírio.

Chegando porém á ilha, foi carregado de ferros com o Beato Dionísio e todos os companheiros, e reduzido à escravidão. Coube-lhe em sorte um senhor feroz que depois de o ter atormentado com todas as espécies de vexames e tormentos, rapada a cabeça, barba e sobrancelhas, o expôs ao ludíbrio dos infiéis; ligou-lhe os pés com ferros de arestas vivas e pôs-lhe a vida em grande risco com acerbíssima fome.

Tudo isto, Redento sofreu intrepidamente, e não temeu resistir ao próprio rei que pretendia abalar a sua constância.

Levado finalmente à praia do mar com os restantes confessores da fé, foi o primeiro de todos que, alvejado com setas e trespassado com espadas e lanças envenenadas, morreu mártir.

Sobre os corpos dele e dos restantes mártires, que conjuntamente pereceram, enquanto estiveram insepultos, várias vezes durante a noite, com grande admiração dos infiéis e hereges, foram vistos brilhar esplendores de luz e ouvidos celestes concertos.

O que tudo devidamente provado, o Sumo Pontífice Leão XIII, no ano do jubileu de 1900, inscreveu Dionísio da Natividade e Redento da Cruz no catálogo dos Bem-aventurados Mártires.

(Do antigo Breviário Bracarense)

Oração

Ó Deus, que por admirável disposição conduziste os bem-aventurados Dionísio e Redento, através dos perigos do mar, à palma do martírio, concedei-nos, pela sua intercessão, que entre as dissipações e desejos deste mundo, permaneçamos fiéis até á morte na confissão do vosso nome. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Amén

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Painel de azulejos existente na Casa Grande de Paredes de Coura

CENTRO DE MONITORIZAÇÃO E INTERPRETAÇÃO AMBIENTAL DE VIANA DO CASTELO PROGRAMA ACTIVIDADES PARA DEZEMBRO

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“PODA DE ÁRVORES ORNAMENTAIS”OFICINA DE APRENDIZAGEM para o público em geral.

Local: Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (Antigas Azenhas de D. Prior)

Data: 10 de Dezembro de 2011 (Sábado)

Horário: 09H00 - 12H00

Se chover, a actividade não se realizará | participação gratuita | inscrição obrigatória.

Iniciativa integrada nas comemorações do “Ano Internacional das Florestas 2011”

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“UM OLHAR NAS FLORESTAS DE PORTUGAL

”EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA DE LUIS QUINTA

Local: Antigos Paços do Concelho (Praça da República)

Iniciativa integrada nas comemorações do “Ano Internacional das Florestas 2011”

Até 12 de Dezembro de 2011 | Entrada livre

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“O VINHO E A VINHA EM VIANA DO CASTELO”

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA

Local: Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (Antigas Azenhas de D. Prior)

Iniciativa integrada nas comemorações da “Cidade do Vinho 2011”

Até 31 de Dezembro de 2011 | Entrada livre

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“A FLORESTA AUTÓCTONE”

EXPOSIÇÃO DE TRABALHOS DAS ESCOLAS DO CONCELHO

Local: Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (Antigas Azenhas de D. Prior)

Iniciativa integrada nas comemorações do “Dia Nacional da Floresta Autóctone” (23 de Novembro)

Até 31 de Dezembro de 2011 | Entrada livre

CONJURADOS DO ALTO MINHO REUNEM-SE EM PONTE DE LIMA

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A Real Associação de Viana do Castelo leva a efeito, no próximo dia 30 de Novembro, o tradicional Jantar dos Conjurados com vista a assinalar o 371º Aniversário da Restauração da Independência de Portugal. O encontro dos conjurados do Alto Minho realiza-se em Ponte de Lima.

As inscrições podem ser feitas através do e-mail real.associacao.viana@gmail.com ou pelo telemóvel 961 623 905.

PROFESSORES DO CONCELHO DE VILA VERDE: CONTAGEM DO TEMPO DE SERVIÇO PARA EFEITOS DE APOSENTAÇÃO DEBATIDO NO PARLAMENTO

Ao tempo da Primeira República, quase tudo era decidido na Câmara dos Deputados que era como então se designava o parlamento. Os aspectos relacionados com a contagem do tempo de serviço de um grupo de professores do Concelho de Vila Verde para efeitos de aposentação subiram então a plenário na sessão realizada em 22 de Maio de 1913, sob a Presidência de José Augusto Simas Machado. Tratou-se de uma sessão nocturna que teve o seu início às 21h55, prática usual à época.

Pelo carácter bizarro que a situação se apresenta decorrido quase um século e pela curiosidade que a mesma possui nomeadamente para quantos exercem a profissão de professor e, de um modo geral, fazem os seus descontos para a Caixa Geral de Aposentações, transcreve-se do Diário da Câmara dos Deputados as passagens que dizem respeito ao problema levantado.

Parecer n.º 187

Senhores Deputados - A vossa comissão de instrução primária e secundária, apreciando o projecto de lei n.º 153-A, da iniciativa do Sr. Deputado Joaquim José de Oliveira, é de parecer que deveis aprová-lo com a seguinte redacção:

Artigo 1.° É contado, para os efeitos de aposentação, o tempo de serviço prestado por professores diplomados em escolas primárias não oficiais, que hajam sido depois convertidas em escolas oficiais, contanto que êsses professores contribuam para a Caixa de Aposentações com as cotas correspondentes ao período em que fizeram serviço naquelas escolas.

Lisboa e sala da comissão de instrução primária e secundária, em 8 de Maio de 1913. = António José Lourinho = José Vale de Matos Cid = Vitorino Godinho = Tomás da Fonseca, relator.

Projecto de lei n.° 153-A

Senhores Deputados. - Abel Augusto de Almeida e sua mulher, Rosa de Sousa Ribeiro Araújo, são professores das Escolas Leonardo, situadas no lugar de Palmas, freguesia de Parada de Gatim, concelho de Vila Verde.

Estas escolas foram criadas pelo falecido conselheiro Leonardo Caetano de Araújo, e, por decreto de 11 de Julho de 1905 (Diário do Govêrno n.º 105), rectificado no Diário do Govêrno n.º 261, de 15 de Novembro do mesmo ano, foram convertidas em escolas oficiais, tendo aqueles professores, que então exerciam nelas o magistério, sido nomeados pelo mesmo decreto, para o magistério oficial.

O professor exercia as funções desde 18 de Julho de 1892 e a professora exercia-as desde l de Agosto de 1890, tendo prestado ambos excelentes serviços á instrução.

Pretendem aqueles professores, e isto é extremamente justo, que o tempo decorrido desde a data em que começaram a prestar serviço naquelas escolas oficiais lhes seja contado para os efeitos de aposentação, logo que contribuam para a Caixa de Aposentações com as cotas correspondentes àqueles períodos, e por isso apresento á vossa apreciação o seguinte

Projecto de lei

Artigo 1.° É contado, para os efeitos de aposentação, o tempo de serviço prestado pelos professores das escolas Leonardo, situadas no lugar das Palmas, freguesia de Parada de Gatim, concelho deVila Verde, Abel Augusto de Almeida e Rosa de Sousa Ribeiro de Araújo, anteriormente a terem aquelas escolas sido consideradas oficiais, respectivamente desde 18 de Julho de 1892 e de l de Agosto de 1890, logo que os mesmos contribuam para a Caixa de Aposentações com as cotas correspondentes a êsses períodos.

Art. 2.° É revogada a legislação em contrário.

Palácio do Congresso, em 14 de Abril de 1913. = O Deputado, Joaquim José de Oliveira.

Foi lido na mesa, assim como uma proposta de substituição da comissão de instrução primária e secundária.

Foi aprovado, sem discussão, na generalidade, entrando em discussão na especialidade.

O Sr. Germano Martins: - Como me parece que os professores de instrução primária só foram obrigados a concorrer para a Caixa das Aposentações duma certa época em diante, desejava que alguém me informasse a êsse respeito, para que êsses professores não fiquem em condições de desigualdade para com os seus colegas.

Neste sentido, vou mandar para a mesa uma proposta.

Aditamento

Proponho o seguinte aditamento ao artigo 1.°:

"...e desde que, por lei, foram obrigados a concorrer os professores primários para a referida Caixa" = Germano Martins.

O orador não reviu.

O Sr. Joaquim de Oliveira: - Concorda com a substituição da comissão, mas é preciso que os professores, que exerciam as suas funções em escolas não oficiais, não fiquem em melhores condições do que os seus colegas que já eram considerados oficiais. Por isso concorda tambêm com a proposta que vai mandar para a mesa o Sr. Germano Martins.

O discurso será publicado na íntegra quando o orador restituir as notas taquigráficas.

Foi lido na mesa e admitido o aditamento do Sr. Germano Martins.

O Sr. Vitorino Godinho (por parte da comissão de instrução pública): - É para dizer a V. Exa. e à Câmara que a comissão aceita a proposta apresentada pelo Sr. Germano Martins. Efectivamente podiam alguns professores encontrarem-se em exercício desde 1892 ou mesmo anteriormente, e só terem sido obrigados a descontar para a Caixa de Aposentações desde 1895, e não era justo que ficassem em desigualdade de circunstâncias.

O orador não reviu.

Foi aprovada a emenda do Sr. Germano Martins.

Foi aprovado o artigo 1.º com a emenda.

Foi aprovado o artigo 2.° sem discussão.

BRAGATT PASSEIA NO ALTO MINHO

O Clube BRAGATT vai realizar o 5º Passeio de Natal que será um passeio de carácter turístico e gastronómico a pensar na família. Os participantes vão poder desfrutar das mais belas paisagens do Alto Minho.

A ideia é aproveitar esta quadra festiva para juntar mais uma vez os amigos de modo a que possam transmitir pessoalmente os habituais votos de Feliz Natal e Bom Ano Novo e, ao mesmo tempo, proporcionar um agradável convívio e tirar partido das máquinas com que habitualmente participam nas provas.

MINHOTOS NO BRASIL FAZEM ARRAIAL

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A Casa do Minho no Rio de Janeiro leva a efeito no próximo dia 3 de Dezembro, a partir das 20h30, o maior arraial minhoto que desde há mais de 30 anos tem lugar fora de Portugal, fazendo parte da programação social daquela colectividade.

Vai haver música ao vivo para dançar com o Conjunto “Os Típicos do Beira Show”, actuação de folclore do Minho, cabeçudos e zés pereiras, além de uma representação das marchas de Lisboa. E, como não podia deixar de acontecer, haverá também sardinha assada, frango no churrasco, caldo verde e vinho da nossa região.

Convém lembrar que, ao contrário do que sucede em Portugal, o Verão está a chegar ao Brasil pelo que é tempo de festa e romaria para as nossas gentes que ali vivem.

PAREDES DE COURA REALIZA CONCERTO DE SOLIDARIEDADE

O Centro Cultural de Paredes de Coura leva a efeito no próximo dia 30 de Novembro, pelas 21h30, um Concerto de Solidariedade a favor das crianças, de apoio ao Comité Português da UNICEF. Neste Concerto vai actuar o grupo “Sons do Minho” com as suas concertinas e desgarradas que decerto vão animar o público que, de uma forma alegre, vai participar numa causa nobre que merece a solidariedade de todos.

 

É verdade que todos nós estamos em crise. Mas terá esta palavra o mesmo significado em todo o mundo?

É uma questão pertinente. Na verdade para algumas pessoas, "crise" significa não trocar de carro, não ir de férias este ano, não poder pagar a prestação da casa… Mas para muitas outras, "crise" significa má alimentação, doença e muita dor! Se tudo isto é mau nos adultos, será ainda pior nas crianças. São a esperança do futuro (se lhe derem a oportunidade de ter um). O Sarampo, por exemplo, “mata 500 crianças em cada dia que passa, podendo ser evitado com uma vacina que custa apenas 0,20€” (não foi engano, são vinte cêntimos)! São dados UNICEF que reflectem o muito trabalho que ainda há por fazer.

A UNICEF é uma organização não governamental que trabalha em mais de 150 países em todo o mundo, com objectivos centrados nos direitos das crianças: cuidados de saúde, escolaridade, nutrição. É, por isso, determinante qualquer ajuda que possamos dar no sentido de valorizar este trabalho.

É apelando ao voluntariado e generosidade de todos, que a delegação de Viana do Castelo está a organizar um Concerto de Solidariedade, que irá decorrer no dia 30 de Novembro, pelas 21:30, no Centro Cultural de Paredes de Coura.

A esta iniciativa associou-se um grupo musical conhecido do panorama nacional – "Sons do Minho", e é com a sua música tradicional e popular que pretendem cativar a adesão do público para um espectáculo de solidariedade onde a diversão estará garantida.

Para os mais pequenos a animação estará também garantida com pinturas faciais feitas pela equipa dos "Momentos Coloridos".

Todos estes momentos serão registados pela fotoreportagem da "Vivacena".

Os bilhetes para este concerto encontram-se à venda nos seguintes locais:

- Bibliotecas Municipais de Monção, Valença, VN Cerveira, Caminha, Arcos de Valdevez e Viana do Castelo;

- Centro Cultural de Paredes de Coura, inclusive no próprio dia;

- Delegação da UNICEF em Viana do Castelo;

- Discoteca Galáxia (Rua da Bandeira)

O preço do bilhete é de 4 euros, existindo a possibilidade de optar por um donativo de maior valor. Se optar por 7 euros, por exemplo, poderá estar a fornecer 264 saquetas de alimento para crianças mal nutridas; com 10 euros consegue 50 doses de vacinas contra o sarampo; e 15 euros servirão para adquirir material escolar para equipar 12 salas de aulas.

O valor do bilhete/donativo é dedutível em IRS.

Para mais informações: 966 061 386 e 965 663 829

Facebook: "Concerto de Solidariedade com Sons do Minho"

Juntos pelas Crianças!

Ajude-nos a ajudar e... Siga a festa!

PINTORA RICARDINA SILVA EXPÕE EM TOMAR

A pintora Ricardina Silva vai a partir do próximo dia 3 de Dezembro expor as suas obras na Galeria da Livraria Ao Pé das Letras, em Tomar. Este espaço encontra-se situado na Praça da República nº 11 e a mostra ficará patente até ao dia 30 de Dezembro. A Exposição, com entrada livre, pode ser visitada das 10h às 13h e das 15h às 19h, de Segunda a Sábado.

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Ricardina Silva expôs recentemente em Ponte de Lima e Paredes de Coura, tendo vindo a apresentar os seus trabalhos com grande sucesso nomeadamente em Ourém, tendo já agendadas exposições noutros pontos do país. As suas obras de carácter Surrealista e Realista e abordam várias temáticas. O título “Transformação” com que identifica a exposição significa que a artista está a passar por uma fase de mudança. É como uma viragem, uma descoberta da sua própria identidade e, à medida que o tempo avança, com uma vontade imensa de usufruir de um estilo próprio, explora os materiais, explora o desenho, explora as cores e a sua intensidade e essência com um simples objectivo: a transformação.

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Ricardina Silva nasceu em Esposende e vive actualmente em Leiria. Como ela própria refere, “desde tenra idade que adorava desenhar apenas com um lápis e uma folha branca, guardava todos os desenhos num dossier”. Aos dezassete anos experimentou a pintura sobre tela em acrílico.

Em 2006 realizou a primeira exposição e, a partir de então nunca mais parou. Sucederam-se os concursos e as bienais, passou a experimentar outras técnicas como a pintura a óleo, mista, pastel, aguarela e os desenhos começaram a ser realizados a carvão e grafite.

Para a artista, “cada obra é como um poema harmonioso, de cores luminosas que transparecem num clima rimático e transmitem a paz interior que desejo. Quando realizo um desenho ou uma pintura entrego o meu coração… a minha alma. É como se viajasse para um sítio maravilhoso e mágico, onde não existe o sofrimento, mas sim alegria e cor. Normalmente, para a realização das minhas obras utilizo diversas técnicas como o óleo, o acrílico e a mista. Apesar do diversificado leque de temáticas que já executei, nas minhas obras a que predomina é a do mar, remontando às minhas origens”.

O MINHO NA INTERNET: RESPIRE FUNDO! ESTÁ EM VILA VERDE!

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“Respire Fundo! Está em Vila Verde!” é um blogue bem estruturado que divulga o Minho em geral e o Concelho de Vila Verde em particular, dando a conhecer muitos dos acontecimentos que constituem o quotidiano social e cultural na nossa região. Na realidade, trata-se de uma jornal regional em formato digital que se encontra no endereço http://vila--verde.blogspot.com/

“MIUFAS” SOBE À CENA EM ESPOSENDE

MIUFAS cartaz

O Grupo Amador Teatro Esposende Rio Cávado (GARTEC) apresenta no próximo dia 2 de Dezembro, pelas 22 horas, a peça “Miufas”, no Auditório Municipal de Esposende. O espectáculo insere-se no Encontro de Teatros que vai ter lugar em Esposende, até ao dia 21 de Janeiro.

De acordo com a informação disponibilizada peçp GARTEC no seu site oficial, em http://gaterc.blogspot.com/, “"MIUFAS" é o resultado do Curso de Teatro - Jovem 2011 que o GATERC promove anualmente. Em 2009, apresentámos o "PAPALAGUI" e em 2010, a peça, "DESCONCERTOS", este ano estreamos esta representação teatral, composta por vários quadros e cenas sobre o tema dos Medos.

Durante um curso de teatro, é natural constatar, de que foram vencidas algumas barreiras por parte dos participantes, a da inibição, da timidez, do medo de errar, de se expressarem.

Num trabalho de pesquisa efectuado, descobrimos um texto que enumerava, vários medos existentes, eram muitos, mais do que podíamos imaginar, é que é possível ter medo por tudo e por nada. E outros, o ter medo de ser ou não ser, medo de amar ou não ser amado, medo de criar ou fracassar, medo de viver ou morrer,  medo à mudança ou à perda... e mais os medos pessoais e intransmissíveis. Os medos bloqueiam, paralisam, tiram a iniciativa, inibem, distorcem a realidade mas também podem ser úteis e nos protegem de alguns perigos. Aprendemos a brincar com os medos, a compreende-los, a aceitá-los e a viver com eles, para isso, utilizámos vários materiais;  textos colectivos, um do José Carretas, outro do António Mota, de ideias, de jogos, de improvisações, de músicas, de imagens, criando uma história que representasse a vida, em poucos minutos, entre a morte e o nascimento, com alguns medos escolhidos, representados, dramatizados e aqui também "desdramatizados".

Transcrevo uma frase de um muro que descreve uma utopia, um sonho de construção de uma vida;

"Não tenho medo a morrer, como mais um... mas a viver, como mais um".

Jorge Alonso

A peça apresenta o seguinte elenco: Adriana Quintão, Ana Calçada, Bruno Ferreira, Carolina Vasconcelos, Diana Gonçalves, Diogo Monteiro, Filipa Ribeiro, Joana Moreira, Matilda Enes, Rafael Rei, Sara Martins.

Direcção artística: Jorge Alonso e Nuno Valente

Realização Vídeo de animação: Andreia Ribeiro

Selecção musical: Jorge Alonso

Cenários e Figurinos: Colectivos

Operação luz e som: Jorge Alonso e Nuno Valente

O MINHOTO E A CONCERTINA

Sempre que emigra, o minhoto leva consigo a concertina que o ajuda a manter viva a sua alma alegre e jovial. Mesmo nos momentos mais penosos como as que ocorreram desde a segunda metade do século dezanove, que os levava a aventurarem-se clandestinamente nos porões dos navios que os levaram ao Brasil para aí começarem uma vida nova, por vezes na miragem de um rápido enriquecimento, era ainda a concertina que afagava as tristezas de uma existência difícil e lhes redobrava as energias com seus acordes vivos que logo os predispunham para dançar o vira e a chula, a gota e o picadinho. E essa alegria contagiante do minhoto depressa envolvia outros portugueses que partilhavam a mesma sorte de emigrante e assim, à volta de uma concertina, todos se sentiam como fazendo parte da mesma família que é, afinal de contas, o verdadeiro significado do conceito de nação.

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A concertina é um instrumento popular que teve a sua origem na Europa por volta de 1830 e faz parte dos membrafones ou seja, dos instrumentos musicais que produzem o seu som graças à actuação de uma membrana. Estou convencido de que não existe método nem escola para se proceder à sua aprendizagem, facto que tem sido responsável pela sua gradual substituição pelo acordeão nos últimos tempos, sobretudo entre os grupos folclóricos portugueses. Não obstante e apesar da sua leve aparência, o acordeão produz uma sonoridade completamente distinta da concertina, pois tratam-se na realidade de dois instrumentos distintos. No entanto, existem acordeões que possuem como alternância o som da concertina, bastando para o efeito accionar um botão específico. Com efeito, em virtude da evidente falta de tocadores de concertina, muitos grupos folclóricos optam pela substituição deste instrumento pelo acordeão, o que se na realidade não satisfaz constitui por vezes a única forma de viabilizar a existência desses agrupamentos.

A ameaça de desaparecimento da concertina coloca um problema sério principalmente ao folclore, sobretudo da região de Entre-o-Douro-e-Minho. É que, sem o toque da concertina desaparece toda a sonoridade que caracteriza a música desta região e tudo se altera, como se o minhoto perdesse a sua pronúncia característica ou a música tradicional passasse a ser interpretada por meio de modernos instrumentos electrónicos. É que, por melhor executada que fosse, o vira jamais seria o mesmo!

A preservação do uso e conhecimento da concertina coloca um problema sério aos grupos folclóricos e, em geral a todos aqueles que desejam manter vivas as nossas tradições populares. Importa saber como poderá manter-se a continuidade da sua utilização sabendo-se que o seu ensino não é ministrado. Naturalmente, a sua aprendizagem pela sensibilidade auditiva passa pela prática do uso nos grupos folclóricos, embora sabendo-se que a formação de um excelente tocador é demorada e coloca algumas dificuldades na própria actuação dos grupos. Mas, entre uma solução atamancada que vai adulterar a sonoridade original da música e a possibilidade de dar continuidade ao emprego da concertina, importa escolher a melhor opção. E essa terá de ser necessariamente a que melhor aproveita ao folclore português.

Carlos Gomes in http://www.folclore-online.com/

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O RIO ÂNCORA, EM S. LOURENÇO DA MONTARIA, OFERECE PAISAGENS DE RARA BELEZA

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A revista Illustração Portugueza nº 97, de 11 de Setembro de 1905, publicou duas interessantes fotografias do rio Âncora. Na foto acima, podemos observar um engenho de serragem aproveitando a força motriz da corrente do rio à semelhança de uma azenha. Abaixo, vemos o Pincho ou Ferida Má que constitui a área das lagoas e cascatas, entre Amonde e S. Lourenço da Montaria, um local de uma beleza indescritível que merece ser visitado. Mais de um século decorrido, é caso para comparar o que mudou ao longo deste tempo no rio Âncora.

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COMO VIVIA O MINHOTO NOS COMEÇOS DO SÉCULO PASSADO?

Sob o título “Como vive e de que vive o agricultor do Minho”, a revista “Ilustração Portugueza”, na sua edição nº 9 da II Série de 1906, publicou uma extensa reportagem da autoria de F. Neves Pereira, fazendo um retrato social do Minho nos começos do século XX, descrevendo o modo de vida das suas gentes no ambiente rural e, sobretudo, das dificuldades que enfrentava para sobreviver sem perder a alegria da vida. Pelo seu interesse sociológico e também etnográfico, reproduzimos aqui algumas passagens do trabalho publicado naquela revista.

“No único aposento da casa, coberta de colmo esburacado ou telha vã, de rudes paredes de pedra sobreposra, por cujas fendas entra o frio e o vento, nasce, sem assistência de parteira, no mesmo catre bárbaro do noivado, a creança minhota. Uma hora antes de dar á luz, a mãe pôz ao fogo do lar a trempe de ferro com agua para o banho. O marido está nos campos a sachar, a lavrar ou a podar as vinhas. Vae uma visinha chamal-o para ver o filho, que nasceu. No dia seguinte é o baptisado. Quatro dias depois, a mãe apparece na eira com o filho ao colo. Passada uma semana, leva-o com sigo para o campo ou para o monte. Durante dois annos, – ás vezes mais, – lhe dá o seio. Já o pequeno come boroa e ainda mama. Exposta ás intempéries, ao calor e ao frio, ao sol e á chuva, como um animalsinho bravio nascido no monte, sob uma lapa, a creança ou succumbe ou fortalece. As mais das vezes cria-se, resistente e forte, n’esse severo regímen de selecção natural. Apartada do leite, é então invariavelmente abandonada á educação do proprio instincto. Aos cinco annos ensinam-lhe a resar. Aos sete annos confiam-lhe a guarda dos bois. A creança passa já os dias no monte, solitária, pastoreando o gado. O monte é a sua primeira escola e quasi sempre a única. Aos dez annos, começa a preparar-se para a communhão, indo á doutrina. Aos doze annos communga. E a vida de trabalho ininterrupto principia. Rapaz ou rapariga, que já é de communhão, é uma creatura emancipada. Se os pães são pobres, vão servir. Se são filhos de um lavrador remediado, fazem em casa o tirocínio árduo da lavoura. O creado de servir começa por ganhar a soldada de dois mil réis por anno e os usos. Mais tarde, dos dezoito aos vinte annos, chegam a ganhar, os mais diligentes, ao serviço de lavradores mais abastados, três moedas. Mas esta soldada é um fenómeno. Os usos variam com a edade dos serventes: uma a três camisas de estopa, um ou dois pares de calças de cotim ou saias de riscado, um collete e uns tamancos. Aos rapazes, as amas, por contracto, remendam-lhes e lavam-lhes a roupa.

As relações entre estes servos pobres e estes amos tão pobres como elles são familiares sem isenção de respeito. O minhoto tem, como o romano, seu antigo senhor, a noção innata da hierarchia.

Por volta dos vinte e dois annos, o moço de lavoura, tendo concluído a sua aprendizagem, e livre de soldado, casa-se. É tão raro ficar um lavrador ou lavradeira sem casar como haver moço que não lucte tenazmente, para se furtar ao tributo do sangue. O casamento é no Minho a base essencial á independência. Moço ou moça que não case fica condenado a servir toda a vida ou a trabalhar a jornaes. Toda a economia social d’esta vasta província portugueza assenta sobre a constituição da família. Quando se fizer o estudo social minucioso, que de há muito devera estar concluído, da população do reino, ver-se-há que a densidade do Minho, a intensidade das suas culturas e a sua imensa capacidade tributária derivam do seu regímen familiar. D’ahi e porque a caserna contamina o minhoto com o desprezo pela labuta da terra e lhe predispõe o organismo para exigências maiores de alimentação, de vestuário e de conforto, o recusarem systematicamente os pães a mão das filhas a todo o pretendente que um dia vestiu farda. Ter sido soldado, ter comido o rancho, ter dormido n’uma tarimba, é ser um repudiado. O soldado conheceu no quartel uma vida melhor. Esse passado afasta-o da communhão dos rústicos. Implacavelmente, o campo expulsa-o para a cidade, de onde elle veiu. Por isso o lavrador se despoja de quanto tem para livrar o filho de soldado e casal-o. O casamento é a aspiração unânime, o fim para que tendem todos os esforços, o premio conquistado com as canceiras as mais indescriptiveis, quando, afinal, esse casamento representa apenas a pobreza a dois, o trabalho a dois. O idyllio, meio sensual e meio lyrico, iniciado nas romarias, nas desfolhadas e no adro da egreja, termina com a boda para se converter n’uma obstinada refrega pelo pão.

Ordinariamente, a noiva leva para o casal um cordão e umas arrecadas de oiro e o noivo as alfaias indispensáveis para o grangeio das terras. Os parentes e os amigos offerecem aos esposados, este duas gallinhas, aquelle uma raza de milho ou de centeio, outros dois afuzaes de linho, um colher de ferro para a panella, meia dúzia de tigelas ou de pratos de barro, meio alqueire de feijão, a pá para o forno, um molho de lenha… Se um delles é filho de lavrador abastado, este abona-lhes o gado: uma junta de bois medianeirinhos para principiar e uns touros novos para a engorda. Algumas vezes, raras, levam ainda em dote uma ceva morta e meia pipa de vinho. O primeiro dia de casados é para os noivos pobres o primeiro dia de trabalho árduo. Vão amanhar os dois umas terras pequenas, que tomam de renda barata; assoldam um creadito novo, de pequeno ganho, que os ajude no mourejar dos campos e a ama nos arranjos da casa. Desde o nascer do dia até noite fechada trabalham ambos no campo ou na eira. À noite, até altas horas, a mulher fia, junto da lareira apagada, a teia com que há de fazer as primeiras camisas e os primeiros lençóes. O homem descança da labuta do dia, ajudando a mulher a dobar o fiado.

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Feitas as podas, as mergulhias, os enxertos e as sementeiras, e antes das colheitas, quando a lavoura abranda, o homem vae ás feiras, vende os bois, compra outros mais baratos e ganha alguns tostões em carretos de pedra. A mulher, no entanto, córa a teia, lança ninhadas de frangos e galinhas e engorda os cevados… para vender. Mas esses pobres teem uma riqueza: são independentes. Emquanto pagarem com o que a terra lhes dá a renda por que a tomaram, essa terra que eles lavram e cavam e semeiam pertence-lhes. É d’essa terra, adubada com o seu suor, que lhes vem, com o sustento, o orgulho de um domínio que se lhes afigura sem partilha. São d’elles as aguas, os campos, as arvores, os montes, a eira e a casa. Não existe para elles, como para o operário, um patrão dominador e imperativo. Só elles mandam na sua fabrica, de que são, simultaneamente, rendeiros e operários.

O alimento d’este casal de noivos pobres reduz-se a pouco mais do que a caldo e pão. O homem que trabalha da aurora até á noite, a mulher que o acompanha na sua lida incessante, comem menos do que as creanças da cidade. E attentae na mulher. Se a gravidez a não deformou já, é uma mocetona corada e jovial, de larga bacia fecunda, de aflantes seios, de roliços braços de trabalhadora e de amorosa. O homem é musculoso e rijo. Ambos cantam enquanto sacham. Nenhuma tristeza perturba esse casal pacifico e laborioso. Gosam amplamente as duas saúdes humanas: a moral e a physica, de cuja união resultam as felicidades perfeitas. O trabalho é o seu regímen moral. Vae ver-se em que consiste o seu regímen alimentar, base da saúde do corpo.

O caldo d’estes trabalhadores infatigáveis reduz-se a algumas couves gallegas, apanhadas na horta, a alguns feijões – poucos, porque são caros, – e um magro fio de azeite como adubo. O pão é de milho e centeio, cozido em grandes fornadas de dois ou três alqueires… para durar, tornar-se rijo e render mais! O cozer pão a miúdo é prejudicial á economia. Come-se mais emquanto é fresco e quantas mais vezes se accende o forno mais lenha se consome! Raras, muito raras vezes, á merenda, comem os lavradores, como presigo, a sardinha. De longe a longe, quando o sardinheiro as vende a mais de 5 ao vintém, a mulher aventura-se a gastar dez réis n’esse luxo supérfluo!

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Quando se diga que um quartilho de azeite, que nas aldeias do Minho póde cstar seis ou sete vinténs, dura a um casal pobre de 15 dias a um mez, ter-se-há completado o quadro impressionador da espantosa economia minhôta.

Annos há, porém, em que o pão escasseia, a arca se esgota, e o preço do alqueire de milho sobe, como há quatro annos, acima de oito tostões. Então, o lavrador passa a comer pão de centeio e semeia batatas para substituir o thesouro alimentício da boroa de milho. Á salgadeira – os que a teem – vão apenas pelas festas do anno: o Entrudo, a Paschoa e o Natal, ou em dias de trabalho extraordinário, quando não podem de todo, sozinhos, grangear as terras, e rogam o auxílio dos visinhos, que vêem ajudar, sem jornal, só pela mantença.

Uma família de lavradores minhôtos que, não satisfeita com as dadivas generosas da terra: pão, batatas, hortaliça, feijão, fructa e lenha, gasta em alimentação, vestuário e demais necessidades da vida para cima de dez tostões por mez, ou é rica ou está erdida!

Parecendo á primeira vista impossível que tão insignificante quantia possa chegar ao custeio de uma casa, verifica-se, em face de um ligeiro orçamento, que ella é sufficiente e não é mesmo attingida as mais das vezes.

O exíguo orçamento de um casal de lavradores no Baixo-Minho póde resumir-se, para as primeiras necessidades, a quatro verbas únicas e modestíssimas:

Azeite…………...240 réis

Sardinhas…..……100 réis

Sal…………….….20 réis

Sabão…………….60 réis

Ou um total de    420 réis

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Ficam de fora as despezas de vestuário. Uma andaina de roupa para homem, que póde custar aproximadamente 8$000 réis, dura entre 5 e 10 annos. Quasi sempre descalço, o lavrador não chega a romper por anno um par de tamancos. O chapéu, que custa de seis a dez tostões, serve apenas nos dias de feira ou de romaria. No serviço, o lavrador usa a carapuça de lã no Inverno e o chapéu de palha, de vintém, no verão.

Aparte o ouro que compram com as economias do casal e que, como o gado, é considerado fortuna commum, as mulheres gastam ainda menos do que os homens! Duas saias de chita clara, dois aventaes com barras de veludilho, um collete de riscado cor de rosa com guarnições de fitilho preto, um lenço farto para o seio e mais dois para a cabeça, são objectos que as mais pobres adquirem apenas duas vezes na vida: quando noivas e quando, mais tarde, casam o primeiro filho! As mais abastadas compram de dez em dez annos uma saia de baeta crepe, de anno a anno um lenço de seda, de dois em dois annos umas chinelas de verniz. São as pródigas.

Roupa branca, lenções, toalhas e ainda as calças de uso dos homens sahem do linho, da estopa ou dos tomentos – da teia fiada em casa. Em noites de luar, as mulheres fazem o seu serão á porta, economisando a luz.

A própria doença parece respeitar esse culto sagrado da economia dos lavradores do Minho. Mata-os a velhice. Quando entram na agonia, a família manda chamar o padre para os confessar e ungir. Depois do padre vem então o medico, que raro receita e as mais das vezes chega a tempo de verificar o óbito.

E assim morrem economicamente, como economicamente nasceram e viveram…”

VENDA DE PEIXE EM VILA PRAIA DE ÂNCORA

Sob o título “Venda de peixe na praia de Âncora”, a revista “Ilustração Portugueza”, na sua edição de 14 de Outubro de 1922, dedicou uma página a Vila Praia de Âncora com breves referências ao seu património histórico e ao ambiente pitoresco que anima o portinho junto ao Forte da Lagarteira.

“Âncora é uma das mais lindas povoações do Minho, e pode considerar-se privilegiada da Natureza, pois que ao encanto da sua praia alia a beleza dos seus campos, onde não se nota a aridez própria das proximidades do mar. Quando este é rude, no Inverno, a gente laboriosa da pitoresca estancia volta-se para a terra, que não lhe nega o sustento.

Muito frequentada no verão por banhistas, principalmente do norte, é para estes um espectáculo interessante o da venda do peixe na praia, quando, á tarde, os barcos voltam da sua faina, depois de levantadas as redes.

Âncora é também um logar de atração para os amadores de arqueologia, visto que no sítio existem dolmens e outras antiguidades prehistoricas já estudadas pelo notável arqueólogo Martins Sarmento, bem conhecido pela exploração completa que fez da citania de Briteiros, perto de Guimarães.”

O PAÇO DE CALHEIROS NA “ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA”

Sob o título “Solar e Paço de Calheiros”, a revista “Ilustração Portuguesa”, de 26 de Agosto de 1918, destacou, numa das suas páginas, aquela importante casa no Concelho de Ponte de Lima, fazendo uma descrição do local e a apresentação do seu proprietário, o Conde de Calheiros, sr. Francisco Lopes de Calheiros, a qual a seguir se transcreve.

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“Ao fim de uma bela estrada de dois quilómetros e que entronca, a légua e meia de Ponte de Lima, com a estrada que vai de Viana do Castelo aos Arcos de Val-de-Vez, uma das mais interessantes casas nobres do Minho e que, quando se fizer a historia das residências solarengas em Portugal, decerto fornecerá assunto para um dos seus capítulos. A estrada que conduz ao paço de Calheiros é já um encanto pelo seu traçado e pela sua opulenta e florida vegetação que forma como que um túnel de deleitosa sombra em que o ar se impregna de inebriantes perfumes…

O palácio, a que dão acesso dois largos lanços de escada, é elegante e majestoso. O lanço da direita leva a uma ampla varanda de colunatas, em parte envidraçada e armada em estufa. A fachada da capela impõe-se ao mais exigente gosto arquitectónico e interiormente admira-se uma soberba obra de talha. As salas e aposentos da casa de Calheiros estão à altura das tradições da família ilustre a que pertence o seu proprietário, o sr. Francisco Lopes de Calheiros e Menezes, conde de Calheiros, que costuma receber com a bizarria que distinguiu os seus maiores. Não só os seus eguaes como os pobres e os humildes conhecem a delicadeza e a longaminidade do seu generoso coração.

O paço de Calheiros reserva ainda a todos os seus visitantes um verdadeiro deslumbramento: o magnífico panorama sobre que se abrem as suas janelas de onde se descortina um horisonte extensíssimo e variado… Como nota final, recordaremos que no brazão dos Calheiros, que data de 1459, figuram cinco vieiras e três estrelas em facha. No portão, reconstruído em 1889, vê-se á esquerda esse brazão e sobrepostas as seguintes palavras em caracteres góticos: “Desta antiga e nobre casa procedem os Calheiros, fidalgos do solar”.

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Um trecho da escadaria de acesso ao Paço de Calheiros

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Altar da Capela do Paço de Calheiros

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Francisco Lopes de Calheiros, Conde de Calheiros

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Página da revista “Ilustração Portuguesa” que destaca o Paço de Calheiros

MUSEU DE ARTE POPULAR MOSTRA ARTESANATO E PRODUTOS REGIONAIS DE TODO O PAÍS

A Progestur em parceria com o Museu de Arte Popular (MAP) e com o apoio da Associação de Artesãos da Serra da Estrela desenvolveu a MOART - Mostra de Artesanato e Produtos Regionais, que se irá apresentar ao público no MAP nos dias 8, 9, 10, 11, 17 e 18 de Dezembro.

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Pretende-se com esta iniciativa criar uma oportunidade de trazer até Lisboa e juntar num espaço de excelência como é o MAP, o melhor do artesanato português, os nossos produtos regionais mais relevantes e uma dinâmica de animação diária, com actuações de grupos etnográficos, música tradicional, exposições, ateliês, provas de produtos DOP, magustos, entre muitas outras acções.

Na MOART, daremos visibilidade tanto ao melhor do nosso artesanato tradicional como ao New Craft, apresentando em simultâneo as novas tendências da fusão entre artesanato e design e as peças dos grandes mestres da cerâmica, olaria e de muitas outras artes e ofícios.

A programação será dinâmica e diversificada. Venha aprender como se faz uma peça de cerâmica e desfrute de um bom vinho acompanhado por uma fatia de pão alentejano com queijo da serra da estrela. Serão ainda todos os dias sorteados vouchers cujos prémios vão desde a um fim-de-semana na Quinta Nova N.S do Carmo a muitas outras surpresas que estamos a preparar.

É nossa intenção tornar a MOART um evento desejado no calendário da programação de actividades culturais nacionais, contando para isso com a vossa colaboração que será certamente imprescindível ao êxito desta iniciativa.

Este evento é organizado sob a óptica da sustentabilidade das entidades presentes assim como pelo dever, que é de todos, de Responsabilidade Nacional de promoção e valorização do produto português!

Com entrada livre, de 8 a 11 e 17 e 18 de Dezembro, das 10h às 18h excepto Sábados que encerra às 21h, motivos não irão faltar para conhecer e descobrir, viver e saborear Portugal, tudo num só espaço em Lisboa!

 

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A MAÇONARIA NO ALTO MINHO

Entre 1843 e 1849, funcionou em Viana do Castelo uma primeira loja maçónica cuja designação com segurança se desconhece, mas que se presume poderá ter sido “fraternidade” em virtude de, anos mais tarde, ali ter existido uma com tal denominação. Esta loja integrava então o Grande Oriente Passos Manuel, também conhecido por “Maçonaria do Norte”, o qual constituía uma das quatro obediências existentes à altura. Desta derivou, em 1903, a constituição de um triângulo em Ponte de Lima, o qual viria curiosamente a extinguir-se em 1910, por ocasião da implantação da I República. Tratava-se do Triângulo nº. 28, e que deverá ter agrupado entre três a seis obreiros.

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O general Norton de Mattos, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, com as insígnias maçónicas.

(…) Em 1926, por ocasião da instauração da ditadura militar que viria a abrir caminho à criação do Estado Novo, a Loja “Fraternidade” dispunha de 75 membros, a Loja “Vedeta do Norte” dispunha de 12 membros e os triângulos de Afife e de Arcos de Valdevez de 6 membros cada. O Grande Oriente Lusitano possuía então 3325 membros do rito escocês distribuídos por 9 consistórios, 24 aerópagos, 44 capítulos, 73 lojas e 14 triângulos. Título de curiosidade, Rodrigo Luciano de Abreu Lima, um dos membros da Loja “Fraternidade” e até então acérrimo republicano, viria a ser o primeiro presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo saído da revolução Nacional de 28 de Maio de 1926.

Uma relação existente no Grande Oriente Lusitano e que amavelmente nos foi cedida pelo ilustre historiador Prof. Doutor A. H. Oliveira Marques, a qual reporta ao ano de 1933, revela que a Loja “Fraternidade” contava então com mais de meia centena de filiados, alguns dos quais conhecidas e prestigiadas figuras do meio ponte-limense, tendo-se a referida Loja mantido em funções pelo menos até ao derrube do Estado Novo, em 1974. Através da referida lista, ficamos a saber que Rodrigo Luciano de Abreu e Lima pertenceu à Loja “Fraternidade”, ocupando o cargo de Orador, com o grau 33 correspondendo a Soberano Grande Inspector-geral e adoptando o nome simbólico Dantec, ou ainda Severino Costa que, no grau 2 correspondente ao de Companheiro, usou o nome Frederico Nietzsche. (...)

Carlos Gomes in A Maçonaria em Ponte de Lima. O Anunciador das Feiras Novas, nº XXIV, Ponte de Lima, 2007

O POSTAL ILUSTRADO E A SUA HISTÓRIA

O aparecimento do postal ilustrado encontra-se associado ao turismo moderno que teve o seu advento sobretudo a partir dos começos do século XX. A Revolução Industrial operada no século XIX permitiu uma evolução notável das vias de comunicação, nomeadamente nos meios de transporte ferroviário e fluvial. Com elas veio também a instalação de grandes hotéis, casinos e outras formas de entretimento para os viajantes, muitos deles estrategicamente situados no centro das capitais ou junto às estações de comboio.

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A partir de então, os países e os continentes tornaram-se mais próximos, encurtando substancialmente o tempo demorado em viagens. Entretanto, surgiu o automóvel e, com ele, a possibilidade de deslocar-se mais facilmente e conhecer novas paisagens.

Beneficiando do progresso então verificado que veio introduzir novos hábitos na sociedade, as pessoas começaram a viajar, partindo à descoberta de novas terras e novas gentes, procurando por esse meio também enriquecer os seus conhecimentos em contacto com novas realidades. À semelhança do que antes se verificava com as estadias nas termas, viajar passou também a constituir uma forma de afirmação do estatuto social das classes mais abastadas.

Mas a industrialização não se reflectiu apenas no desenvolvimento dos transportes e vias de comunicação. Também as artes gráficas registaram um progresso notável com o desenvolvimento da zincogravura e, mais tarde, o aparecimento da impressão em offset. Este avanço dos processos de impressão possibilitou um incremento e uma melhoria na qualidade da imprensa que se reflectiu na produção de uma maior quantidade de jornais, no aparecimento das revistas ilustradas, publicações para viajantes e, como não podia deixar de suceder, na invenção do postal ilustrado.

Ao visitar um determinado local, o viajante tem a possibilidade de enviar à família ou aos amigos uma recordação do local por onde passou, realçando os aspectos locais que mais lhe apraz visitar e, simultaneamente, fazer-se notar na sociedade. Em consequência, o postal ilustrado tornou-se um excelente meio de promoção turística.

O postal ilustrado nunca pretendeu constituir-se como um registo histórico de um acontecimento ou sequer da imagem num determinado espaço temporal. De resto, os seus editores nunca adquiriram o hábito de inserirem a data de edição, até porque, destinando-se a serem vendidos, os mesmos por vezes permaneciam nos expositores por largos períodos de tempo até se esgotarem as edições. Porém, com o decorrer do tempo, as imagens que o postal reproduz vieram de certa forma a tornar-se um documento histórico na medida em que acabaram por registar uma realidade que existia ao momento em que as imagens foram captadas para serem reproduzidas no postal.

Não obstante o registo constante do postal ilustrado poder documentar um determinado momento histórico, ele não é inteiramente fiável porquanto o mesmo registo é propositadamente alterado pelo editor segundo critérios estritamente comerciais. Épocas houve que as cores quentes eram acentuadas e introduzidos elementos não constantes como nuvens e flores para preencher os espaços vazios e conferir um colorido mais atraente, da mesma forma que actualmente se procede a autênticas operações de limpeza com o recurso a programas informáticos de tratamento de imagem.

Não dispondo o postal ilustrado de data de edição, apenas é possível calculá-la aproximadamente através da imagem que reproduz ou ainda das técnicas utilizadas e dos grafismos empregues, como sucede com a utilização da fotografia, a impressão a preto, as diferenças de formatos e de tonalidade das cores, a serrilha e outros elementos estéticos aplicados na sua produção. Todos esses aspectos encontram-se directamente relacionados com a evolução dos meios de produção gráfica e ainda dos gostos gráficos e modas utilizadas em cada época.

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“VATE DO REINO”: UM LIVRO DE POEMAS DE CLÁUDIO LIMA

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“Vate do Reino” é um livro de poemas de Cláudio Lima, publicado pela Editora Ausência. Com excelente apresentação gráfica, reproduz na capa uma iluminura do Cancioneiro da Ajuda. Nesta obra que possui uma estrutura bi-partida, através da qual o autor numa primeira parte canta o litoral, o mar, com o seu apelo dramático enquanto na segunda parte debruça-se sobre a interioridade, numa simbiose de terra e de vida. O poeta canta o mar como um espaço mítico, o cumprimento de um destino, precisamente aquilo que nos faz sonhar com um além e com o desconhecido e nos impele à aventura. Não obstante, o mar surge ainda associado ao trabalho, à morte e ao sofrimento. Em toda a obra marcam constante presença os quatro elementos da Natureza ou seja, a Água, o Ar, a Terra e o Fogo. O poeta evoca a terra com tudo o que ela representa de encanto natural mas também a vida retratada nos seus aspectos mais simples, na graciosidade das coisas aparentemente vulgares, na beleza dos pequenos gestos das pessoas simples. Qual “Vate do Reino”, o poeta profetiza novos rumos distintos daqueles que nos levaram a, “de descoberta em descoberta, repetir Portugal onde calhou”. Mas, não privemos o leitor do prazer da descoberta e da leitura, concedendo-lhe apenas a possibilidade de saborear os seguintes versos em jeito de aperitivo literário:

LAMENTO

Meu Portugal palmo a palmo,

minha angústia légua a légua

transportada em trote calmo

sobre o lombo de uma égua

 

Meu livro quase roto, quase lido,

tão decorado, tão esquecido,

tão nosso, tão estranho,

tão pequenino, tamanho.

 

Sabor de pão saloio, broa

que a alma mastiga e lhe sabe

a um interior que fica enquanto o litoral voa

na crista de um mito, na proa de uma nave.

 

Meu Portugal, pátria descalça

de um vate inconformado;

tão exposto a rima falsa,

tão poema inacabado.

Com uma já considerável obra publicada com especial relêvo para o domínio da poesia, Cláudio Lima possui ainda vasta colaboração literária espalhada em jornais e revistas também no Brasil e Angola, também nas áreas da ficção, da diarística e da crítica literária, fazendo muitos dos seus trabalhos parte integrante de antologias e obras colectivas.

Cláudio Lima é o pseudónimo literário de Manuel da Silva Alves. Nascido em Calvelo, no Concelho de Ponte de Lima, tal facto não podia passar indiferente à sua sensibilidade poética, procurando nas margens do mítico Lethes e nos montes de Parnaso que o rodeiam as musas inspiradoras as quais, com as suas liras também deram o mote a numerosos poetas que ali nasceram e simplesmente passaram algum tempo das suas vidas, entre os quais salientamos Diogo Bernardes e António Feijó. Mas Cláudio Lima não canta apenas a terra que o viu nascer – ele celebra sobretudo o amor e evoca os sentidos, canta o que lhe vai na alma e os sentimentos que o envolvem porque ele é essencialmente um poeta lírico, daquele lirismo que dá sentido à nossa existência, que nos mantém vivos e despertos em relação ao mundo que nos rodeia, mais felizes e compreensivos no que à nossa existência diz respeito enquanto humanos. Cláudio Lima exprime em verso aquilo que o nosso entendimento não raras as vezes tem dificuldade de traduzir, burilando as palavras com a mesma mestria que o ourives minhoto trabalha a filigrana – ele é o Vate do Reino !

VALE DO LIMA: O DESENVOLVIMENTO REGIONAL DEVE SER ENCARADO NUMA PERSPECTIVA INTEGRADA

CARLOS GOMES

in jornal "NOVO PANORAMA" nº. 56, de 17 de Novembro de 2011

O incremento do sector do turismo tem sido uma das apostas dos concelhos do Vale do Lima também para compensar a perda de algumas empresas importantes na região e o consequente aumento do desemprego. Com uma paisagem deslumbrante e uma gastronomia rica e variada, festividades tradicionais e uma diversificada oferta cultural e de lazer, o Vale do Lima constitui um destino privilegiado para muitos visitantes nacionais e estrangeiros e um pólo de atracção turística por excelência.

Desde tempos remotos, os concelhos de Ponte de Lima e Viana do Castelo ligaram-se por via fluvial – durante muitos séculos, o rio Lima foi a principal via de comunicação entre os dois concelhos. Com o advento da era industrial e o aparecimento de novas vias de comunicação, a ligação passou a estabelecer-se por estrada com a utilização da velha diligência e, mais tarde, a chamada auto-viação mecanizada. Porém, desde a segunda metade do século XIX, também se tentou ligar Viana do Castelo ao Lindoso através de Ponte de Lima por meio de via-férrea. As obras chegaram a iniciar-se e foram inclusivamente construídas algumas estruturas, algumas das quais ainda se podem ver ao longo do percurso traçado, mormente em Bertiandes e Arcozelo.

A discussão em torno do traçado da linha férrea do Vale do Lima, levantando-se a questão a saber se a mesma deveria seguir pela margem direita do Rio Lima até Ponte de Lima ou, em alternativa, atravessar para a outra margem em Lanheses, evitando desse modo o comboio passar diante do Paço de Bertiandes com os naturais inconvenientes que isso iria representar, acabou por ditar o abandono definitivo do projecto.

Nos tempos que correm, o projecto da linha férrea do Vale do Lima poderia ser recuperado com as maiores vantagens para a região, adaptado naturalmente a metro de superfície com interesse turístico e facilitando a mobilidade das populações. Sem o impacto ambiental em termos de poluição sonora e atmosférica como sucedia com as antigas composições ferroviárias, o metro de superfície no Vale do Lima permitia aliviar consideravelmente o tráfego da Estrada Nacional 202 facilitando a deslocação de pessoas na margem direita do Rio Lima, entre Viana do Castelo e Ponte de Lima, ao mesmo tempo que se tornaria um meio de atracção turística semelhante à linha de eléctricos que liga Sintra à Praia das Maçãs, nos arredores de Lisboa.

A recuperação do traçado da linha férrea do Vale do Lima, entre Viana do Castelo e Ponte de Lima, deveria ser ainda encarada numa perspectiva de desenvolvimento regional, contemplando a recuperação dos antigos ancoradouros do rio para apoio ao turismo, a actividades desportivas e de lazer, a recuperação das antigas salinas da foz do Rio Lima e uma maior divulgação das “Azenhas de D. Prior”, o único moinho de maré actualmente existente na nossa região. Entre Viana do Castelo e Ponte de Lima existe também diverso património que necessita de ser reabilitado e numerosas localidades que beneficiariam da implementação de uma política de desenvolvimento integrado. Encontram-se, entre tais localidades, Vitorino das Donas com o seu Paço e S. Pedro com as magníficas lagoas ali existentes, para apenas citar estas a título de exemplo.

Finalmente, a implementação do metro de superfície na margem direita do Rio Lima poderia constituir um meio de solucionar parcialmente o problema do estacionamento automóvel em Ponte de Lima, permitindo a utilização de outro meio de transporte mais ecológico e amigo do ambiente e, simultaneamente, criar um estacionamento adequado em Arcozelo e, desse modo, reduzindo o impacto negativo do estacionamento automóvel no areal, situação para a qual a autarquia parece não ter ainda encontrado solução.

UM POUCO DE HISTÓRIA

A primeira concessão para o estabelecimento de uma linha férrea no Vale do Lima data de 18 de Junho de 1874 e foi feita a Alberto Meister. Porém, como o projecto não foi apresentado ao governo dentro do prazo de um ano como constava do respectivo decreto de concessão, o mesmo veio a ficar sem efeito. D. Luís I era então o monarca reinante e António Cardoso Avelino o seu Ministro e Secretário de Estado dos Negócios das Obras Públicas, Comércio e Indústria.

No ano seguinte, de acordo com o Decreto de 27 de Julho, foi feita a concessão a Damião António Pereira Pinto para “construir e explorar um caminho de ferro de via reduzida, servido por locomotivas e assente em leito próprio, para transporte de passageiros e mercadorias entre Vianna do Castello e a villa da Barca”. Também este viria a ficar sem efeito e o projecto uma vez mais adiado. Entretanto, em 20 de Maio desse ano, o comboio já circulava entre o Porto e Braga, inaugurando-se assim este meio de transporte a norte do rio Douro. Apenas em 1877 são ligadas as duas margens do rio Douro através da via-férrea.

O vale do Lima vai continuar a ser exclusivamente servida por via fluvial e também por via terrestre, com a carreira da diligência entre Viana do Castelo e Ponte de Lima, cujas viagens atribuladas nos são descritas por Ramalho Ortigão n’ As Farpas. De novo, em 1897, o projecto volta à liça quando o jornal “O Libertador de Coura”, na sua edição de 11 de Abril, anuncia que “…vai ser feita a concessão de um caminho de ferro que deve ligar Viana com Ponte de Lima, Arcos e Barca, seguindo, mais tarde, até à fronteira, nas proximidades de Lindoso. Essa via férrea terá estações na Meadela, Santa Marta, Serreleis, Lanheses, Bertiandos, Ponte de Lima, proximidades do Carregadouro e outros pontos”. Referia-se aquele jornal à concessão que veio a ser feita em 7 de Julho de 1898 a Alberto da Cunha Leão e a António Júlio Pereira Cabral. Esta concessão apresentava como principal novidade a sua exploração ser feita “por meio de tracção eléctrica” o que, a concretizar-se, representaria um extraordinário avanço para a época.

Em 1898, o Ministério da Obras Publicas, Commercio e Industria publica o “Plano da Rede Ferro-Viaria ao Norte do Mondego” o qual teve por base um inquérito então efectuado aos municípios com vista a elaborar um plano de acessibilidades assente não apenas em aspectos económicos e de desenvolvimento social como ainda geográficos e estratégicos de defesa, pois prevenia que “uma irrupção de tropas hespanholas pela fronteira do rio Minho ou desde ahi até Montalegre póde ser efficazmente debellada com o auxilio d’esta linha, que não deixará ultrapassar o Lima. A invasão por aquelle lado da Galliza, situado entre o Minho e alturas de Montalegre, só se póde fazer por Lindoso e pela margem esquerda do Lima”.

Em 1903 é aberto concurso para a “construcção e exploração das linhas férreas de Vianna a Ponte da Barca, de Braga a Monção, e de Braga a Guimarães”, de acordo com o qual o seu traçado deveria partir “da estação de Vianna do Castello, siga margem direita do Lima até as proximidades de Lanhezes, e, atravessando ahi o rio, vá por Ponte de Lima a Ponte da Barca, ligando-se ahi com a linha antecedente”. Tratava-se de uma linha de bitola estreita para servir composições com carruagens de duas classes, devendo as obras ficarem concluídas num prazo máximo de três anos. Foram assentes carris, adquiridas locomotivas e construídos viadutos. Porém, mais uma vez, a obra não avançou devido à insistência de alguns em fazê-lo avançar pela margem direita do rio Lima até ao Carregadouro, o que implicaria a sua passagem mesmo em frente ao Paço de Bertiandos.

De novo, em 1929 a sua construção volta a ser questionada, desta vez por iniciativa da Direcção Geral dos Caminhos de Ferro, organismo do Ministério do Comércio e Comunicações, o qual submete à apreciação dos municípios o “Plano Geral da Rede Ferroviária do Continente”. De forma algo insistente, também este plano previa a construção da linha pela margem direita do rio Lima e o seu atravessamento no sítio do Carregadouro. Como se referia naquele documento, “Ocioso é relembrar que o traçado deve seguir a margem direita do Lima, desde Viana até ao Carregadouro, onde o rio estreita e deixa de ser navegável, transpondo-o em ponte pouco extensa e de fácil construção, que deve servir também para a viação ordinária”.

O projecto acabaria por ser definitivamente abandonado e alguns terrenos que, por estarem destinados à via-férrea pertenciam já ao domínio público, foram sendo apropriados por moradores para serventias particulares e outras utilizações. Nalguns casos, a sua disputa chegou inclusive à barra dos tribunais, como sucedeu com a posse de um carreiro no lugar da Barrosa, em Santa Marta de Portuzelo.

Em pleno século XXI, quando os meios de transporte mais económicos e menos poluentes constituem uma aposta, o turismo se assume cada vez mais como a área económica do futuro e o principal objectivo do desenvolvimento económico reside na melhoria da qualidade de vida das populações, a linha férrea do vale do Lima pode ser repensada em moldes actuais, respeitando a paisagem e o património arquitectónico, mas tirando dele o melhor partido em proveito da região e das suas gentes. A recuperação deste projecto poderia constituir um elemento aglutinador de vontades e a sua defesa ser interpretada por aqueles que as populações do vale do Lima vão eleger nos próximos actos eleitorais.

Bibliografia:

- GOMES, Carlos. A Linha-Férrea do Vale do Lima. Anunciador das Feiras Novas. XXIV. Ponte de Lima. 2007

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Rua Agostinho José Taveira * 4990-072 Ponte de Lima * novopanorama@sapo.pt

O MINHO NA INTERNET: ARQUITECTURA E PONTE DE LIMA

O BLOGUE DO MINHO inicia hoje uma série de artigos que visam dar a conhecer a presença do Minho na Internet, nomeadamente através de blogues e sites que promovem os valores e as potencialidades da nossa região. A sua publicação não terá qualquer regularidade e privilegiará, naturalmente, aqueles que de forma recíproca contribuem para a divulgação deste espaço.

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“Arquitectura e Ponte de Lima” é um blogue do arquitecto limiano André Rocha que, desde 2008, vem destacando situações e aspectos relacionados sobretudo com a arquitectura e o enquadramento paisagístico de Ponte de Lima. Este site encontra-se no endereço http://arquitecturaepontedelima.blogspot.com/.

SÃO TEOTÓNIO, MINHOTO DE VALENÇA, FOI O PRIMEIRO PORTUGUÊS A SUBIR AOS ALTARES

D. Telo, aliás São Teotónio, foi canonizado em 1163, um ano após a sua morte, pelo Papa Alexandre IV, tornando-se desse modo o primeiro português a subir aos altares. Nasceu em Ganfei, no Concelho de Valença, em 1082 e faleceu em Coimbra em 18 de Fevereiro de 1162. No próximo ano, assinalam-se 930 anos sobre a data do seu nascimento e 850 anos do seu falecimento.

Foto:Wikipédia

Em 1112, S. Teotónio tornou-se Prior da Catedral e Administrador Apostólico da Sé de Viseu. Por essa razão, a Diocese de Viseu iniciou já os preparativos para as celebrações jubilares de São Teotónio a terem lugar durante o próximo ano, tendo já celebrado um acordo de colaboração com o Museu Grão Vasco para celebrar os 900 anos da sua ida para Viseu.

O valenciano S. Teotónio foi ainda um dos fundadores do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, local onde se encontra sepultado, perto do local onde repousam os restos mortais de D. Afonso Henriques de quem foi aliado em vida, tendo contribuído para a afirmação da independência de Portugal face ao rei de Leão.

Decerto, Valença que foi sua terra natal e da qual é o seu padroeiro, não esquecerá aquele que foi um dos seus filhos mais distintos e saberá assinalar condignamente as efemérides do nascimento e falecimento de S. Teotónio.

RICARDINA SILVA ILUSTRA “NOVOS CONTOS DE NATAL”

“Novos Contos de Natal” é um livro colectivo que reúne quinze contos de natal inéditos, contando com a participação de treze escritores, entre os quais Ricardina Silva, a artista natural de Esposende que também colabora na ilustração da obra.

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O livro “Novos Contos de Natal” tem a chancela de Edições Vieira da Silva e o seu lançamento vai ter lugar no próximo dia 3 de Dezembro, pelas 15 horas, na Quinta Pedagógica dos Olivais, sita na rua Cidade de Lobito, em Lisboa.

No final, todos os autores que participam nesta obra vão ser convidados a proferirem algumas palavras e a ler um dos seus contos para os mais pequenos que vão estar presentes. Com esta iniciativa, pretende-se proporcionar às crianças alguns momentos de sonho numa quadra festiva repleta de magia. Os direitos de autor serão cedidos à “Acreditar”, uma instituição de solidariedade social constituída por pais e amigos de crianças vítimas de cancro.

Este evento, denominado “Hora do Conto”, insere-se na programação da Quinta Pedagógica dos Olivais.

D. AFONSO HENRIQUES, O MINHOTO QUE FUNDOU PORTUGAL, NASCEU HÁ 900 ANOS!

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D. Afonso Henriques, o minhoto que foi o fundador do Reino de Portugal, nasceu em Guimarães há novecentos anos. Por tradição, a data de seu nascimento é celebrada a 25 de Julho.

Coma vitória da Batalha de Ourique em 1139, D. Afonso Henriques proclamou-se Rei de Portugal, vindo a sua autoridade a ser reconhecida em 1143 através do Tratado de Zamora. A ele se deve o facto de sermos portugueses, conquista mantida com enormes sacrifícios ao longo de muitos séculos e sucessivas gerações e, não raras as vezes, colocada em risco em determinados momentos históricos particularmente adversos que os nossos antepassados sempre souberam superar.

Nove séculos após a data do seu nascimento, a efeméride parece ter passado despercebida às entidades oficiais, sinal evidente de que, mais do que uma crise económica e financeira, Portugal vive uma profunda crise de identidade que ameaça a sua própria soberania nacional!

RUSGA DE SÃO VICENTE DE BRAGA ORGANIZA 55ª EDIÇÃO DOS “SERÕES NO BURGO – TERTÚLIAS RUSGUEIRAS”

A Rusga de São Vicente de Braga - Grupo Etnográfico do Baixo Minho leva a efeito mais uma edição dos “Serões no Burgo/Tertúlias Rusgueiras”, a ter lugar no novo auditório da Escola Sá de Miranda, em Braga. A iniciativa realiza-se no próximo dia 25 de Novembro, pelas 21h30, e terá como convidados Daniel Pereira, do grupo Origem, Alexandrina Cardoso (Ginha), dos Caminhos de Romaria e Jaime Torres, do grupo Canto D'Aqui.

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A 55ª edição dos "Serões no Burgo/Tertúlias Rusgueiras" constitui um sarau cultural com momentos artísticos da responsabilidade dos grupos convidados e da Rusga de São Vicente e terá como tema “Grupos de música popular - voltear e revirar a tradição”.

Os serões no Burgo Tertúlias Rusgueiras são mais uma iniciativa da Rusga de São Vicente de Braga e têm como principal objectivo debater num ambiente informal assuntos de interesse para o desenvolvimento de associações culturais que intervêm no âmbito da defesa da nossa cultura tradicional.

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PLANO HYDROGRAPHICO DA BARRA E PORTO DO RIO LIMA E COSTA ADJACENTE PUBLICADO EM 1865

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A gravura mostra um exemplar do “Plano hydrographico da barra e porto do rio Lima e costa adjacente”, editado à escala 1:5000 noano de 1865, da Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos. Este documento cartográfico foi produzido com base com levantamento hidrográfico realizado por Carlos de Vasconcellos e Noronha, sob a direcção do Engº Filipe Folque e encontra-se na Biblioteca Nacional de Portugal.

A propósito deste tema, recomenda-se a leitura do artigo “Cartas Hidrográficas do Rio Lima”, de Carlos Gomes, publicado na revista “O Anunciador das Feiras Novas”, nº 27, de 2010. Trata-se de uma “publicação anual de informação, cultura, turismo e artes limianas”, editada pela Associação Empresarial de Ponte de Lima.

A TIRANA: UMA DANÇA RECOLHIDA EM PONTE DE LIMA NOS FINAIS DO SÉCULO XIX

O “Cancioneiro de Músicas Populares” constitui uma obra rara e de elevado interesse sobretudo para os estudiosos da nossa etnografia. Publicada em três volumes, compilando uma colecção de fascículos editados entre os anos 1893 e 1899 e impressos na Typografia Occidental, da cidade do Porto, contém “letra e musica de canções, serenatas, chulas, danças, descantes, cantigas dos campos e das ruas, fados, romances, hymnos nacionaes, cantos patrioticos, canticos religiosos de origem popular, canticos liturgicos popularisados, canções políticas, cantilenas, cantos maritimos, etc. e cançonetas estrangeiras vulgarizadas em Portugal”, recolhida por César A. Das Neves, coordenada a parte poética por Gualdino de Campos e prefaciada pelo Dr. Teophilo Braga.

Uma Tyrana recolhida em Ponte de Lima constitui uma das preciosidades do “Cancioneiro de Músicas Populares”. Esta obra pode ser consultada na Biblioteca Nacional de Portugal.

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ANAQUIÑOS DA TERRA – O FOLCLORE GALEGO EM LISBOA

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O Grupo Anaquiños da Terra é um agrupamento folclórico constituído no seio da Xuventude de Galiza e que visa recrear e divulgar os usos e costumes das gentes galegas na região de Lisboa.

Como o próprio Grupo refere no seu site oficial, “Os “Anaquiños da Terra” acaban por ser o principal vehículo de expresión da tradición galega. O seu nome é indicativo dese papel: significa: “pedaciños da nosa terra”.

A descrição do seu folclore é feita pelo próprio Grupo Anaquiños da Terra: “Os cantares son esencialmente femininos, os instrumentos, entre os cuais destacan as pandeiretas, as cunchas, como as utilizadas polos peregrinos a Santiago de Compostela, as piñas, o tambor, o bombo, o pandeiro, a zanfona (instrumento de cordas medieval) e a gaita, entre outros.

Na danza tradicional galega, onde destaca especialmente a muiñeira, a xota e a pandeirada, características dos bailes tradicionais, tamén existen danzas asociadas a eventos específicos, como son: a danza de maio, a danza dos paos ou a danza da regueifa, típica de bodas. Existe tamén outro tipo de danza máis recente produto de interaccións con outras tradicións, normalmente traídas por emigrantes galegos, como son: a polca, o valse galego ou a mazurca.

Os traxes dos “Anaquiños da Terra” son típicos de Galicia, de varias rexións e con diversas aplicacións”.

A Xuventude de Galiza – Centro Galego de Lisboa foi fundada em 10 de Novembro de 1908, precisamente num período marcante do associativismo popular caracterizado pelo surgimento de numerosas associações, incluindo os primeiros grémios regionalistas, posteriormente designados por casas regionais.

As afinidades étnicas, históricas e culturais que nos ligam à Galiza e ao povo galego não nos podiam deixar indiferentes à sua presença nomeadamente em Lisboa onde a colaboração entre minhotos e galegos deveria, em nosso entender, ser mais estreita. E, é precisamente pela noção de identidade que temos em relação ao povo galego que abrimos as portas deste espaço - o BLOGUE DO MINHO – à Galiza e aos galegos, mormente à Xuventude de Galiza – Centro Galego de Lisboa.

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A presença de galegos entre nós remonta aos primórdios da Reconquista e da formação da nacionalidade. Porém, o fenómeno da imigração galega entendida enquanto tal teve o seu começo a partir do século XVII, facto a que não é certamente alheia a situação política da época caracterizada pela dominação filipina. Vinham sobretudo para a lides dos campos, ocupar-se em trabalhos sazonais, procurando obter o indispensável para regressarem às origens e providenciarem o sustento da família. Mas também havia os que se estabeleciam nas cidades, nomeadamente em Lisboa, dedicando-se às mais variadas profissões e ofícios.

Por essa altura, no alto de uma colina do sítio de Alcântara já se encontrava construída a Capela de Santo Amaro que viria a tornar-se o local mais concorrido dos galegos que viviam em Lisboa, tornando-se palco de festas e romarias em homenagem àquele que se tornara o seu padroeiro nesta cidade. Com efeito, a pequena ermida foi erguida na sequência de uma promessa feita por frades da Ordem de Cristo que, numa viagem de regresso de Roma, a nau em que vinham foi acometida de temporal no mar e, perante o receio de naufrágio, prometeram construir uma capela no local onde aportassem sãos e salvos.

De traça renascentista, a ermida apresenta forma circular e é rodeada por um átrio. A capela original foi construída em 1549 e constitui, muito provavelmente, a actual sacristia. A Capela de Santo Amaro está classificada como Monumento Nacional por Decreto de 16 de Julho de 1910.

Com o tempo, a presença de galegos foi crescendo em número, tendo passado a concentrar-se preferencialmente nas cidades de Lisboa e Porto. Por altura da “Guerra das Laranjas” ocorrida em 1801, altura em que perdemos Olivença, chegou a ser aventada a possibilidade da sua expulsão a qual, proposta que contou com a oposição do Intendente da Polícia porque tal resultaria em deixar de ter “quem servisse as cidades de Lisboa e Porto”. Acredita-se, porém, que em consequência do crescimento económico verificado a partir da segunda metade do século XIX, a comunidade galega tenha atingido perto de trinta mil indivíduos, a maioria dos quais a viver em Lisboa.

Como costuma dizer-se, os galegos eram então pau para toda a obra. Havia entre eles taberneiros e carvoeiros, moços de fretes e hospedeiros. Eça de Queirós, na sua obra “Os Maias”, faz-lhes frequentes alusões, confundindo-os embora com espanhóis. Porém, é a profissão de aguadeiro que mais o identifica e fica associado na vida lisboeta. Com a sua indumentária característica e a respectiva chapa de identificação municipal no boné, o aguadeiro galego percorria a cidade vendendo a água em barris. E era vê-los a abastecer-se nos chafarizes e fontes do Aqueduto das Águas Livres, nas bicas que lhes estavam reservadas pelo município a fim de evitar as brigas que frequentemente ocorriam. De referir que, até ao início do século XX, a maioria da população lisboeta era forçada a recorrer aos fontenários uma vez que poucas eram as habitações que dispunham de água canalizada. Os aguadeiros organizavam-se em companhias e, uma vez que tinham a primazia do abastecimento de água, eram ainda obrigados a participar no combate aos incêndios.

Outra das actividades pela qual ficaram particularmente conhecidos consistiu na venda dos palitos fosfóricos, então feitos de enxofre que tinham de ser mergulhados num pequeno frasco de ácido sulfúrico. Dada a sua utilização demorada e ainda pouco prática, os palitos fosfóricos ficaram então conhecidos por “espera-galego”, criando-se desse modo uma imagem que passou a conotar de forma algo injusta os próprios galegos, sugerindo tratarem-se de mandriões. Porém, a colónia galega não se ocupava apenas das profissões mais labregas, por assim dizer humildes, mas destacava-se em todas as áreas sociais, muitas das quais de grande relevo, tendo nomeadamente eleito vereadores para a edilidade lisboeta como sucedeu com o escritor Carlos Selvagem. É, aliás, no início do século que surge na zona da Graça, em Lisboa, por iniciativa de um empresário galego, um bairro para os trabalhadores da sua fábrica que desperta ainda grande curiosidade devido à simbologia ali sempre presente – o Bairro Estrela d’Ouro.

Todos os anos, por ocasião do dia que é consagrado a Santo Amaro e que ocorre em meados do mês de Janeiro, uma autêntica multidão acorria à Romaria de Santo Amaro para festejar o seu padroeiro. Rezam as crónicas da época que, em redor da capela, era um ver de gaitas-de-foles e pandeiretas e um nunca mais acabar de xotas e muiñeiras, carballesas e foliadas. Contudo, esta festa foi perdendo o seu fulgor e deixou de realizar-se. A própria capela veio a encontrar-se ao abandono, chegando uma das suas dependências a ser utilizada como armazém de carvão.

Entretanto, em 1908, os galegos que vivem em Lisboa constituíram a sua própria associação – a Xuventude de Galicia (Centro Galego de Lisboa). E, em meados do século passado, passaram a celebrar o dia 25 de Julho em homenagem a S. Tiago, Padroeiro da Galiza. E, para o festejar, escolhiam então uma velha capelinha actualmente em ruína, situada no Alto da Boa Viagem, junto ao farol do Esteiro, em Caxias, e para lá acorriam juntamente com os minhotos, o mesmo é dizer os “galegos d’aquém Minho”. Mas, à semelhança do que antes sucedera com a Romaria de Santo Amaro, também esta acabou votada ao esquecimento e deixou de ser celebrada. Também, há pouco mais de meio século, criaram o grupo “Os Anaquinos da Terra” que procura manter e divulgar as tradições folclóricas das gentes da Galiza.

Em virtude da sua identidade cultural e sobretudo linguística, a comunidade galega encontra-se presentemente integrada na sociedade portuguesa a tal ponto que não se faz notar pela forma de estar ou de se exprimir. Pese embora os acontecimentos históricos terem determinado a separação política de um povo que possui raízes comuns, portugueses e galegos continuam irmanados do mesmo sentimento que os une e do supremo ideal de virem ainda um dia a construir uma só nação. Como disse Ramón Cabanillas, no seu poema “Saúdo aos escolares Lusitanos”:

Irmáns no sentimento saudoso!

Mocedade da pátria portuguesa!

Este homilde fogar galego é voso.

É voso este casal,

onde vive a soñar, orante, acesa,

a alma da Galiza e Portugal!

GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/

COURENSES SÃO “PAPEIROS” – MINHOTOS SÃO “PICAMILHO”

- A propósito das rivalidades étnicas

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Existem alcunhas que, não constituindo gentílicos, identificam as gentes oriundas de uma determinada região ou localidade. Elas resultam de uma rivalidade étnica que sempre existiu, as quais por vezes descem aos estreitos limites do lugarejo quando não mesmo do agregado familiar. De resto, a alcunha constitui no meio rural um elemento identificador de um determinado grupo familiar, transmitido de geração em geração.

Porque tinham o hábito de comerem pão de milho, eram os minhotos apelidados de “picamilho” enquanto os tomarenses ficaram conhecidos por “patos-bravos”. Os aveirenses são cagaréus, os do Porto tripeiros e os alentejanos chaparros.

Quando alguém pergunta a um natural de Arcos de Valdevez qual é a sua terra, ele invariavelmente responde:

- Sou dos Arcos, oh!

Aproveitando este jeito peculiar dos arcuenses se exprimirem, os de Ponte da Barca zombam dos seus vizinhos dizendo que são dos “Arcos ó”!

De forma um pouco maldosa, existe também quem identifique os bragançanos – de Bragança – como “bragansuínos” e os de Paredes de Coura como “coirões”…

E, a propósito de Paredes de Coura, o Dr. José Leite de Vasconcelos deixou considerável informação na sua obra “Etnografia Portuguesa”. E, como exemplo da rivalidade étnica que podemos encontrar um pouco por todo o país, citamos precisamente as que aludem aos naturais de Paredes de Coura cujo gentílico se designa por courenses por, numa versão mais arcaica, a região ser denominada de Coyra. Disse o conceituado arqueólogo e etnólogo no volume X da referida obra:

“Às gentes de Coura chamam papas de Coura, porque faziam lá umas papas de farinha de milho e leite que se vendiam nas feiras em cestos (balaios) e se cortavam à navalha, como o manjar branco do Porto. E também a mesma gente se designa de papeiros.

Em S. Paio de Jolda, concelho de Arcos de Valdevez, ouve-se:

O meu amor é de Coira,

É um grande cidadão;

É da raça dos mosquitos,

É de fraca geração.

E também:

- Tu és de Coira.

- Abaixo de Coira, bandalho!

E ainda: Nunca de Braga veio Bom tempo / Nem de Coura bom casamento.”

Paredes de Coura é terra de gente laboriosa e alegre do interior do Alto Minho. Estas rivalidades étnicas devem ser encaradas de uma forma positiva e apenas como elemento de estudo etnográfico. Trata-se de velharias que constituem um testemunho do relacionamento e da proximidade dos povos, com a mesma rivalidade que é frequente observar-se entre os próprios irmãos. E, caso alguém não entenda como tal, façamos como os bracarenses:

- Mandemo-los para baixo de Braga! 

GOMES, Carlos em http://www.folclore-online.com/

FREGUESIA DE CRISTELO, EM PAREDES DE COURA, FOI RESTAURADA EM 1916... SOBREVIVERÁ À REFORMA QUE SE ANUNCIA?

Em 30 de Dezembro de 1916, reuniu a Câmara dos Deputados para, entre outras iniciativas legislativas, apreciar a proposta apresentada pelo deputado Domingos Cruz que visava restaurar a “antiga paróquia de Cristelo”, em Paredes de Coura. Presidiu à sessão Manoel Joaquim Rodrigues Monteiro.

Pode ler-se no Diário da Câmara dos Deputados o teor da referida proposta e o debate que se seguiu. Como se constata, gerou-se alguma confusão entre os deputados em virtude da proposta seguinte ser idêntica, dizendo respeito a uma freguesia com o mesmo nome mas no Concelho de Paredes.

Decorrido quase um século desde a restauração da Freguesia de Cristelo, resta-nos saber se Cristeo, com pouco mais de três centenas de habitantes, sobreviverá à reforma administrativa que se anuncia.

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“ORDEM DO DIA

O Sr. Presidente: - Vai ler-se, para entrar em discussão, o parecer n.º 225, relativo ao projecto de lei n.º 167- A, pelo qual se restaura uma paróquia civil no concelho de Paredes de Coura.

Leu-se na Mesa. É o seguinte:

Parecer n.º 225

Senhores Deputados - O presente projecto de lei é duma simplicidade extrema.

A paróquia de Cristelo, do concelho de Paredes de Coura, porque tinha menos de 21, eleitores, número mínimo necessário para a constituição e renovação dos seus corpos paroquiais, foi, como de lei e nos termos do Código Administrativo ao tempo em vigor, anexada á freguesia de Besteiros do mesmo concelho.

Tem essa paróquia, hoje, 30 eleitores, como se prova pelo documento que juntaram à petição em que esses paroquianos reclamaram o levantamento da sua interdição política administrativa.

Cessou efectivamente a causa da anexação, e, porque ela cessou, justo é que a referida paróquia seja restituída à sua autonomia administrativa.

E, pois, o parecer da vossa comissão de administração pública que merece deferimento a pretensão do povo de Cristelo, aprovando-se este projecto de lei, com a seguinte redacção que lhe parecer mais própria e completa.

PROJECTO DE LEI

Artigo 1. ° É restaurada a antiga paróquia civil de Cristelo, concelho de Paredes de Coura, tal como existiu à data da sua anexação a paróquia de Besteiros, da qual fica desanexada.

Art. 2.° Cessam as funções dos paroquianos da paróquia restaurada, que fizerem parte da paróquia de Besteiros, e o Governo, pelo Ministério do Interior, marcará dia para se proceder a nova eleição paroquial em ambas as referidas paróquias.

Art. 3.° Fica revogada a legislação em contrário.

Sala das sessões da comissão de administração pública, em 11 de Janeiro de. 1916. - Adriano Gomes Pimenta - António Fonseca - Vasco de Vasconcelos - Alfredo de Sousa - Abílio Marçal, relator.

Projecto de lei n.º 167- A

Senhores Deputados - A freguesia de Cristelo, até agora anexa à freguesia de Besteiros, dista desta cerca de cinco quilómetros. É composta de, aproximadamente, 100 fogos com uma população de cerca de 500 habitantes.

Segundo um certificado passado pela secretaria da Câmara Municipal do concelho de Paredes, que temos a honra de juntar, vê-se que estão inscritos no recenseamento eleitoral da referida freguesia trinta eleitores, número superior ao exigido pelo código administrativo para constituir uma paróquia civil. A maioria dos eleitores requereu a sua desanexação; e porque o seu desejo se nos afigura atendível, temos a honra de submeter á vossa apreciação o seguinte

Artigo 1.° A freguesia de Cristelo, do concelho de Paredes, é desanexada da freguesia de Besteiros, do mesmo concelho, e passa a constituir de per si uma paróquia civil.

Art. 2.° Fica revogada a legislação em contrário.

Sala das sessões, 23 de Agosto de 1915. - Bernardo Lucas - Domingos José da Cruz.

O Sr. Presidente: - Está em discussão o parecer na generalidade.

O Sr. Domingos Cruz: - Pedi a palavra para mandar para a Mesa uma proposta de emenda ao artigo 1. °

O Sr. Abílio Marçal: - Pedi a palavra para declarar, em nome da comissão de administração pública, que concordo com a emenda apresentada pelo Sr. Domingos Cruz.

O Sr. Celorico Gil: - Lamenta que todos os dias estejam aparecendo projectos para criações ou restaurações de paróquias civis, visto que isso só ocasiona prejuízos e uma perfeita anarquia em todos os serviços. A lei do registo civil está positivamente num caos, e a remuneração que percebem os funcionários que deste estão encarregados é de todo o ponto mesquinha. E se a sua retribuição é pequena, mais diminuída vai ser com o desdobramento dos concelhos. Não quer ver atrás destes projectos, que criam ou restauram paróquias civis, nenhum oculto propósito, a satisfação dum capricho ou simplesmente o prazer de se receber uma carta de agradecimento dum compadre, dum amigo ou dum cacique, mas promete que será o projecto em discussão o último que conseguirá ter a aprovação da Câmara, pois ele, orador, há-de servir-se de tudo quanto o Regimento lhe faculta para lhes opor o necessário travão.

O discurso será publicado na íntegra quando o orador restituir as notas taquigráficas.

O Sr. Casimiro de Sá: - Sr. Presidente: eu não entro na apreciação do projecto, nem quero saber se ele é justo ou injusto, mas quero simplesmente declarar que esta freguesia do Cristelo, de que trata o projecto, não pertence ao concelho de Paredes de Coura.

Tenho dito.

O orador não reviu.

O Sr. Presidente: - Tenho a dizer ao Sr. Casimiro de Sá que já foi apresentada uma emenda desfazendo o equívoco.

Não está mais ninguém inscrito. Vai votar-se na generalidade o parecer.

Foi aprovado na generalidade.”

SARGACEIROS DE APÚLIA NA APANHA DO SARGAÇO

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A imagem regista um trecho pitoresco de tempos idos em praias da Apúlia, no Concelho de Esposende, registando a faina da apanha do Sargaço e o tempo de espera. A foto encontra-se publicada no livro “Portugal e o Mar”, de Frederic P. Marjay, editado pelo autor em 1957 com o patrocínio da Junta Nacional da Marinha Mercante e dos Organismos Corporativos da Pesca.

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PORTOZELLO

Do Minho cândida filha

O’ minha aldeia sem par,

Como és linda, prateada

N’uma noite de luar!

 

Tuas modestas casinhas

Nada, em graça, há que a eguale;

São como pérolas, soltas

Debruçadas sobre um valle.

 

Ao longe, o vulto massiço

De frondosos pinheiraes,

A roçarem pelas nuvens

Com as cimas colossaes.

 

O presbyterio, phantasma,

Que recorta o céo azul;

Um vergel cada montanha,

Um jardim cada paul.

 

Da egreja ao lado se altêa

Um gigantesco cipreste,

Verde columna, sustendo

Toda a abobada celeste.

 

O rio lá está... de manso,

Com a face a reluzir,

Qual vasto espelho... O’ meu Lima

E’s um sultão a dormir.

 

Dos altos montes a sombra

Vae-se no rio estampar,

E as capellas, que há por ellas

N’agua estão inda a alvejar

 

D’aquella encosta na espalda

Branda sussurra uma fonte,

E corta a musgosa relva

P’ra o rozal que está defronte.

 

Os roxinoes cantam  lânguidos

D’entre o arvoredo gentil;

Nem têem fim aqui seus cantos,

Nem aqui tem fim Abril.

 

E em cada folha de arbusto,

E em cada estrella dos céos,

E em tudo... na minha aldeia

Soletro o nome de Deus

Sebastião Pereira da Cunha

SEBASTIÃO PEREIRA DA CUNHA: UM POETA VIANENSE

À data do falecimento do poeta vianense Sebastião Pereira da Cunha, o jornalista Manuel Barradas, na revista “O Occidente", periódico que se identificava como “Revista Illustrada de Portugal e do Extrangeiro”, publicou na sua edição nº. 640, de 5 de Outubro de 1896, a nota necrológica que a seguir transcrevemos.

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“Sebastião Pereira da Cunha era uma d’estas figuras que se impunham pela forma insinuante da voz, pela naturalidade do gesto e pelo olhar franco, leal, digno; e o modo elegante de dizer era sublinhado por um jogo de phisionomia tão expontaneo que, agradando, deliciava e interessava todos os que fruíam o encanto de com elle privarem.

O Saio de Malha foi a primeira produção sua que elle me enviou com uma captivante dedicatória, depois foi para Hespanha, percorreu a Andaluzia, e em Granada, a Cidade Vermelha, onde o grande poeta encontrou ensejo para que o seu bello talento se espandisse como para que o seu grande coração se revelasse.

O Saio de Malha é a admiração pelo passado que representa a grandeza de crenças do auctor.

A Cidade Vermelha é a revellação do homem erudito, do altruísta que só sabe ver o Bem.

O perfil da Moura, e do ultimo abecerragem como lhe chama o poeta, o celebre Boabdil de que a Hespanha conserva a histórica armadura rica, que é ainda um dos monumentos da armaria castelhana, representando mais uma das mil conquistas d’esse povo singular e extraordinário, que chegou pela Fé e pela Esperança a crear um império que obrigou o Rei Filipe II a dizer, e com razão que nos seus estados o sol nunca era no poente – isto quer dizer quanto incommensuravel era o seu poder.

Pois o nosso querido poeta, o nosso presado amigo Sebastião Pereira da Cunha foi procurar na rainha do Mediterrâneo ao seu ambiente, á sua perfumada atmosphera a inspiração para o seu grande poema.

E tão grande é elle como foi o seu coração de artista…

César de Padilla o sersonagem heróico, perfeitamente meridional, que deixa a perder de vista o celebrado conde de Montgomery, é… é elle… é o meu querido Sebastião Pereira da Cunha…

O talento e o génio não teem epochas. Que me importa que Isabel a Catholica vivesse há tantos séculos, e por esse tempo existisse um Sebastião pereira da Cunha que se chamou D. César de Padilla!

O arrojo do moço cavalleiro e a valentia do fidalgo corriam parelhas com o seu feliz engenho e com a sua protectora estrella.

O fraco, perdido, quebrado de animo e de corpo era Boabdil o sanguinário amador dos degolamentos no Pateo dos Leões.

No fim d’este poema que honra a literatura nacional, há, umas notas que accusando uma extraordinária modéstia do nosso querido poeta, revellam contudo um profundo estudo de tal ordem, e atingindo tal altura que o poeta se transforma em historiador fazendo lembrar com saudade os processos que Alexandre Herculano empregava no seu escrupuloso modo de escrever a História.

Resta-me ainda dizer que o nosso querido colega e íntimo amigo que brindou o seu paiz com um poema do valor do que ajuizadamente intitulou a Cidade Vermelha, lembra muito a correcção de Almeida Garrett, ainda que este, de princípio, eivado das leituras de Byron se affastou da norma nacional de Camões, D. Francisco Manuel de Mello, e outros, conservando porém o nosso Pereira da Cunha a linha que mais o aproxima d’estes d que d’aquelles porque, não sei se nos fazemos comprehender, o nosso Pereira da Cunha era a um tempo, erudito e apaixonado.

*

Nobre!? Attestava’o o seu carácter.

Fidalgo; vejamos o que nos dizem verdadeiras auctoridades.

Consultados, o saudoso D. António da Costa, o erudito Pinho Leal vejamos, não porque não soubéssemos, qual a linha genealógica dos Pereira da Cunha;

Representava por um ramo os Cunhas, senhores e actualmente proprietários da Torre solar de Cunha (concelho de Coura) aquella em virtude das luctas de epocha foi sequestrada à família Pereira da Cunha em 1370 e bem assim a de Vidigal e Silvares pelo rei D. Fernando o formoso por instigações da michela Leonor Telles.

Porém a 1463, o rei, que principiou de crear praticamente o nosso império africano, por isso que o verdadeiro iniciador fora o infante D. Henrique, um senão o mais notável, filho do bom rei D. João I, e fallamos assim porque Afonso V, o percursor do grande D. João II, entendeu restituir à família Pereira da Cunha tudo que a michela Leonor Telles, pela sua intriga, tinha obtido do pobre D. Fernando o formoso.

*

Por outro ramo Sebastião Pereira da Cunha descendia ainda dos senhores da Casa do Paço de Anha, próximo de Vianna do Castello.

N’este palácio dos Pereira da Cunha deu-se um facto histórico notável: – o célebre prior D. António do Crato, acclamado rei em Santarém ali esteve escondido no anno de 1580, depois do desastroso encontro na ponte de Alcântara com o duque de Alba representante do demónio do sul, como diziam os puritanos da velha Flandres.

Pela linha materna Sebastião Pereira da Cunha procede dos antigos marquezes de Bellas e dos senhores de Entre-Homem e Cavado; e, sendo grande de Hespanha de primeira classe, pertencia-lhe o título de Marquez de Mortára de Zarsigal.

Mas para que insistir n’este ponto?...

Quem não conhece o poeta do Primeiro Alvor, a Tarde de um César o poemeto Heroes d’Africa para não ver através do fidalgo que tanto honrou terras portuguezas, o grande poeta que só portuguezes o podem apreciar.

Um admirador de Sebastião Pereira da Cunha… e elle tinha tantos que não admira, na minha dor, eu não poder conservar-lhe o nome! Dizia:

- “Admira que este génio, embalado em nobilíssimo e dourado berço, viesse esconder-se no seu castello solitário de Santa Martha, na foz do Lima, n’estes tempos em que tantos alardeiam nos prelos, nos atheneus, nos clubs e nos botequins, de possuírem portentosos talentos. Escondem-se os brilhantes e brilha a vidraçaria”.

*

Sebastião Pereira da Cunha nasceu em 9 de Fevereiro de 1850 em Vianna do Castello.

Casou em 1869 com sua prima a exmª srª D. Maria Amália d’Almada Cyrne Peixoto, filha dos condes de Almada; d’esta gentilíssima senhora enviuvou em 3 de Março de 1881.

Não podemos deixar de transcrever algum trecho do notável poema A cidade Vermelha.

Quando Boabdil pede paz aos reis de Castella Fernando e Isabel, o nosso poeta diz:

Vimos pedir a paz; a paz só desejamos

E, em prova da amizade, agora te mandamos

Dois corseis alasões,

Jaezes de valor, e nobre cimitarra

Que tanta vez bbrilhou nos cerros de Alpujarra

No Pateo dos Leões.

*

O nosso querido Sebastião Pereira da Cunha, tinha um escrúpulo em tudo que tocasse a responsabilidade histórica; e, por isso a auctorisar a verdade histórica do que se affirmava n’estes soberbos versos diz:

O rei Boabdil, escrevendo a Fernando V, e propondo-lhe uma capitulação, envia lhe dois cavallos, uma cimitarra e alguns jaezes. Tanto a proposta (de paz) como a offerta foram enviadas no dia 1 de Janeiro de 1492 (Historia General de España de Ivan de Mariana).

Como vêem, meia dúzia de versos é mais do que o preciso, seguidos de notas d’esta ordem, para dar o alto valor histórico do poema, e a vasta e sólida erudição do auctor.

*

Dissemos do escriptor tudo que elle valia, mas do homem, do amigo, teríamos de escrever volumoso livro para dizermos tudo que elle era no trato intimo, onde só se percebia que não era uma palavra vã – a sinceridade.

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CASA COURENSE REALIZA RECOLHA DE SANGUE

A Casa Courense em Lisboa, em parceria com a Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Paredes de Coura (ADASPACO), leva a efeito uma colheita de sangue, a qual terá lugar nas instalações da sua Sede Social, no próximo dia 27 de Novembro, entre as 9h e as 12h30.

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A Casa Courense é uma associação regionalista que congrega os naturais e descendentes do Concelho de Paredes de Coura radicados na região de Lisboa. A sua área de intervenção é bastante diversificada, constituindo a organização de recolha de sangue uma acção de carácter humanitário que leva regularmente a efeito em parceria com a ADASPACO.

A Casa Courense está sedeada na Rua General Taborda, nº. 18, Porta 7, em Campolide, abrindo as suas portas não apenas aos naturais de Paredes de Coura como ainda a todos os minhotos e amigos em geral.

 

CMIA DE VIANA DO CASTELO ORGANIZA EXPOSIÇÕES TEMÁTICAS

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“O OLHAR NAS FLORESTAS DE PORTUGAL”

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA DE LUIS QUINTA Local: Antigos Paços do Concelho (Praça da República) Iniciativa integrada nas comemorações do “Ano Internacional das Florestas 2011”Até 30 de Novembro de 2011 | Entrada livre

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“O VINHO E A VINHA EM VIANA DO CASTELO”

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA Local: Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (Antigas Azenhas de D. Prior) Iniciativa integrada nas comemorações da “Cidade do vinho 2011”Até 31 de Dezembro de 2011 | Entrada livre

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“A FLORESTA AUTÓCTONE”

EXPOSIÇÃO DE TRABALHOS DAS ESCOLAS DO CONCELHO Local: Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (Antigas Azenhas de D. Prior) Iniciativa integrada nas comemorações do “Dia Nacional da Floresta Autóctone”Até 31 de Dezembro de 2011 | Entrada livre

COMEÇA AMANHÃ EM PONTE DE LIMA CONGRESSO INTERNACIONAL PARA DEBATER A SUA HISTÓRIA

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“Dos tempos medievais à contemporaneidade: Ponte de Lima no espaço e no tempo” é o tema do Congresso Internacional que vai ter lugar em Ponte de Lima nos próximos dias 18 e 19 de Novembro, no Teatro Diogo Bernardes. A organização é do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM) e conta com o apoio da Câmara Municipal de Ponte de Lima, devendo reunir especialistas nacionais e estrangeiros que irão debater aspectos relacionados com a sua História.

De acordo com os seus promotores, pretende-se com esta iniciativa “realizar um balanço das mais recentes investigações sobre uma vila e um concelho tão ricos em história, perspectivar novos enfoques de análise e despertar o interesse dos seus habitantes e, em particular, de professores, investigadores e alunos de todos os níveis de ensino, pela história local”.

REGIÕES DE TURISMO DEVEM PROMOVER-SE EM LISBOA

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A recente reestruturação das regiões de turismo veio criar condições para que as diferentes regiões do país constituam uma forma de promover na capital as suas potencialidades, divulgar as suas ofertas em termos turísticos e angariar iniciativas no domínio empresarial e da criatividade intelectual para o desenvolvimento das suas regiões.

As diferentes regiões podem e devem constituir “sociedades regionais” que promovam na capital do país o seu turismo, divulguem a gastronomia regional, proporcionem contactos a nível empresarial e visitas guiadas à região. Nos tempos que correm, a representação regional deve passar a ser encarada mais como uma actividade empresarial e vista como um investimento colectivo da região.

Quando, nos anos trinta do século passado, o Estado Novo determinou a alteração da designação dos “grémios regionalistas” que passaram a ser tratados por “casas regionais” com referência a uma determinada província ou conjunto de províncias, à área de uma comarca ou simplesmente de um concelho, visava então aproveitar as suas características e espírito voluntarista dos seus associados para, numa perspectiva corporativa e economizando recursos, potencializar as suas energias e, desse modo, levá-las a desenvolver uma actividade de divulgação de algum modo semelhante ao que realizam as “maisons régionales” em França. Este tratamento, aliás, conferiu-lhes um estatuto de que jamais vieram a beneficiar.

Porém, tal desiderato nunca veio a alcançar-se, tendo inclusive as associações regionalistas de âmbito provincial entretanto entrado em declínio, dando origem ao aparecimento de múltiplas casas regionais de âmbito concelhio que, também estas, revelam uma particular dificuldade em se agruparem com vista à promoção conjunta das respectivas regiões.

As “sociedades regionais” devem possuir uma abrangência provincial, congregando em si as instituições, empresas e outros organismos da área da respectiva região a fim de conseguir uma projecção adequada, desenvolver uma actuação eficaz e conseguir retornos do seu investimento em benefício regional. E, esse empreendimento deve ser feito numa perspectiva empresarial, com elevado desempenho profissional, com propósitos de divulgação e de influência e com claros objectivos de obtenção de lucro e outros proveitos.

Este modelo de “sociedades regionais” já existe nomeadamente em França desde há muito tempo e, apesar da denominação “maisons régionales”, pouco ou nada têm a ver com nossa realidade neste domínio ou seja, as chamadas “casas regionais” que existem no nosso país. De resto, pela sua própria natureza, as “casas regionais” não são susceptíveis de vir a desempenhar aquelas funções, nomeadamente em virtude do seu carácter associativo sem fins lucrativos.

O recente reordenamento das regiões de turismo veio criar excelentes condições para levar por diante a ideia da constituição de “sociedades regionais” que se constituam nomeadamente como delegações de turismo em Lisboa, sejam locais de acolhimento, informação e encaminhamento de possíveis visitantes das respectivas regiões. Porém, a promoção turística não deve constituir a única razão de ser de tais organismos. A intervenção das referidas “sociedades regionais” deve possuir um carácter mais abrangente, naturalmente de acordo com as necessidades e especificidades de cada região, mas contemplando a vertente cultural, económica, social, empresarial, educativa e outras.

As “sociedades regionais”, qualquer que venha a ser a sua designação, podem e devem constituir um projecto colectivo das instituições e forças económicas da região, uma empresa que concentra o esforço colectivo das principais entidades regionais com vista à sua própria valorização e ao desenvolvimento da região onde se inserem. Como empresas, deverão ter capacidade de instalar na capital do país um espaço condigno da sua própria representação, a funcionar em moldes profissionais, com rigor e exemplaridade. As “sociedades regionais” deverão ser locais onde o visitante pode encontrar tudo o que a região tem para lhe oferecer, desde a possibilidade de alojamento à oportunidade de negócios com outras empresas, dos contactos com as autarquias locais à informação turística, da venda de bens culturais à divulgação da gastronomia.

Do Minho ao Algarve, incluindo as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, estão neste momento reunidas as condições objectivas para que as diferentes regiões passem a dispor de uma representação na capital do país – uma “sociedade regional” que, numa perspectiva empresarial, congregue as mais diversas entidades da sua região e promova os seus interesses regionalistas. O sucesso depende exclusivamente da visão e capacidade empreendedora das entidades – públicas e privadas – das respectivas regiões!

PAREDES DE COURA REALIZA JOGOS DA AMIZADE

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A Câmara Municipal de Paredes de Coura em parceria com o Movimento Associativo Courense leva a efeito no próximo dia 19 de Novembro os IV Jogos da Amizade. A iniciativa vai ter lugar no Pavilhão Municipal de Paredes de Coura com o seguinte programa:

21 Horas – Desfile e apresentação das Associações participantes e do Corpo de Juízes

21H15 – Início dos Jogos

Jogo 1: Corrida de sacos;

Jogo 2: Subida à corda;

Jogo 3: Pé atado;

Jogo 4: Vara Jogo

5: Bowling

Jogo 6 Tracção

Jogo 7: Desfolhada

Jogo 8: Magusto

23H45 Encerramento e Entrega de Prémios

Associações participantes:

Castanheira

Clube de Natação e Cultura

Formariz

Lamamá

Padornelo

Parada

Rubiães

Vascões

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PAREDES DE COURA PROMOVE RECOLHA DE SANGUE

A ADASPACO – Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Paredes de Coura vai levar a efeito neste mês de Novembro duas recolhas de sangue. No próximo dia 20 de Novembro, a recolha será realizada pelo Centro Regional de Sangue do Porto e, no dia 30 de Novembro, será efectuada pela ULSAM de Viana do Castelo. As colheitas realizar-se-ão na Casa do Dador, entre as 9h e as 12h30.

Para mais informações/esclarecimentos, os interessados poderão contactar a Casa do Dador, na Sede Social da ADASPACO, na Avenida Cónego Dr. Bernardo Chouzal, n.º 37, em Paredes de Coura, através do telefone 251783641 ou ainda pelo e-mail adaspaco@sapo.pt

Crenças e superstições em Novembro

Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos. Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolméns ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.

Pão por Deus ! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladaínha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz". Na região de Ourém, o rapazio vai pelos casais e suplica: "Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos os santinhos !". E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao assomar à soleira da porta responde prontamente: "Dou sim ! com uma tranca no focinho ..."

Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em Barqueiros, no concelho de Mesão Frio, na noite de Todos-os-Santos coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam "babadas dos defuntos". Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto - mortos e vivos - possam confraternizar !

A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do "mau olhado". O serão é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a anunciar uma vida nova.

GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/

PINTURA DE RICARDINA SILVA ENCONTRA-SE EXPOSTA EM PAREDES DE COURA ATÉ AO PRÓXIMO DIA 27 DE NOVEMBRO

A Exposição de pintura “Mais além…” de Ricardina Silva que se encontra patente ao público no Centro Cultural de Paredes de Coura, pode ainda ser visitada até ao próximo dia 27 de Novembro, de Terça-feira a Domingo, entre as 14 horas e as 18 horas. O Centro Cultural de Paredes de Coura encontra-se localizado na Avenida Cónego Bernardo Chousal.

A exposição apresenta quadros a óleo, acrílico e técnica mista, abordando diferentes temáticas numa perspectiva Surrealista e Realista. “Mais além…” foi o tema escolhido para designar o certame, reflectindo a visão da artista que procura “chegar mais além, descobrir, transformar, criar…”

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Ricardina Silva nasceu em Esposende e vive actualmente em Leiria. Como ela própria refere, “desde tenra idade que adorava desenhar apenas com um lápis e uma folha branca, guardava todos os desenhos num dossier”. Aos dezassete anos experimentou a pintura sobre tela em acrílico.

Em 2006 realizou a primeira exposição e, a partir de então nunca mais parou. Sucederam-se os concursos e as bienais, passou a experimentar outras técnicas como a pintura a óleo, mista, pastel, aguarela e os desenhos começaram a ser realizados a carvão e grafite.

Para a artista, “cada obra é como um poema harmonioso, de cores luminosas que transparecem num clima rimático e transmitem a paz interior que desejo. Quando realizo um desenho ou uma pintura entrego o meu coração… a minha alma. É como se viajasse para um sítio maravilhoso e mágico, onde não existe o sofrimento, mas sim alegria e cor. Normalmente, para a realização das minhas obras utilizo diversas técnicas como o óleo, o acrílico e a mista. Apesar do diversificado leque de temáticas que já executei, nas minhas obras a que predomina é a do mar, remontando às minhas origens”

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Ó lampreia divina!...

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“Ó lampreia divina, ó divino arroz,

Comidos noite velha, em casa do Julião!

Sem ter ceias assim o que há-de ser de nós? Sofre meu paladar! Chora meu coração!”

Afonso Lopes Vieira

 

Reza a História que, ao tempo do Condado Portucalense, D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, concedeu em 1125 ao Arcebispado de Tui o privilégio de tomar como suas as lampreias que apresassem no rio Minho, a montante da Torre da Lapela, a fim de abastecer os mosteiros e conventos por ocasião dos jejuns quaresmais. Mais recentemente, foi nas estantes da Biblioteca de Nápoles encontrado uma obra-prima da culinária portuguesa, remontando ao século XVI, com o título “Livro de Cozinha da Infanta D. Maria”. Com efeito, são inúmeras as referências históricas a tão afamada especialidade da nossa cozinha tradicional. 

Dentro de pouco tempo, a lampreia subirá os rios Minho, Lima e Cávado para desovar, depositando sob as rochas ou em pequenos ninhos escavados no leito milhares de minúsculos ovos que garantirão a sobrevivência da espécie. E morrem. Após a desova, as larvas permanecem no rio até que, por meio de metamorfose se tornam adultas. Nessa altura, migram para o mar onde permanecem até atingirem a sua maturação sexual. 

A lampreia é um ciclóstomo muito procurado por conceituados gastrónomos e outros apreciadores da nossa culinária. Ela faz os requintes das melhores mesas das mais afamadas unidades hoteleiras, atraindo numeroso público a localidades do nosso país que mantêm a tradição da sua confecção esmerada e o requinte de bem servir. No Minho, a lampreia dos rios Cávado, Lima e Minho constituem o ex-líbris da gastronomia local a promover o desenvolvimento económico daquela região. Não admira, pois, o relevo que lhe é conferido pelas entidades que superintendem a promoção turística e os próprios estabelecimentos de restauração. Mas, também perto de Ourém, o vizinho concelho de Tomar recebe anualmente milhares de visitantes que de longe se deslocam a fim de degustarem um apetitoso e suculento arroz de lampreia regado com os bons vinhos da região. 

A preservação da lampreia nos nossos rios depende também da importância que lhe atribuímos, nomeadamente como parte integrante da nossa alimentação. Ao contrário do que à primeira vista se possa imaginar, não é a pesca mas a poluição das águas e outros atentados ao ambiente que fazem perigar a sua sobrevivência. 

Em virtude do período sazonal da desova, o seu consumo verifica-se geralmente entre Fevereiro e os finais de Abril. A partir daí, a lampreia apenas surge figurada na doçaria da Páscoa sob a forma de “lampreia de ovos”, e evocar as delícias de um prato que apenas pode voltar a ser apreciado no ano seguinte. Não admira, pois, que chegue inicialmente a atingir preços exorbitantes que, no entanto, não constituem razão que baste para desmotivar os melhores apreciadores de tão delicioso pitéu. 

Refastelando-se na sua casa senhorial de Paredes de Coura, Aquilino Ribeiro, na sua obra “A Casa Grande de Romarigães” afirmava: “Não há como o arroz de lampreia, se lhe adicionarem uma colher de manteiga de pato”. Por seu turno, o poeta e gastrónomo António Manuel Couto Viana, no seu livro “Por horas de comidas e bebidas – crónicas gastronómicas”, dedica um capítulo inteiro à “lampreia divina”, como Afonso Lopes Vieira a designou. Escreveu Couto Viana o seguinte: 

Já a correnteza das águas que jorram da vizinha Espanha se enfeitam com o aparato das estacas e redes, para prenderem, nas suas malhas, noite adiante, o fugidio ciclóstomo, a tentar disfarçar-se aos rés dos seixos do leito; o chupa-pedras tão apreciada por mim, quando de cabidela, afogado no arroz malandrinho, embebido no seu sangue espesso e escuro. 

Também a fisga certeira, atirada, firme, dos altos, se os olhos penetrantes do pescador distinguem bem o vulto ondeante, faz içar a lampreia até às mãos ávidas, e lança-a, depois, para a vastidão de um saco que se quer a abarrotar. 

(…) 

Soberbo petisco! Com que gula a mastigavam os frades medievos torturados pelos jejuns quaresmais! 

Com que gula a mastigo eu, em mesa que ma apresente opípara no arroz do tacho, em grossos toros aromáticos, ou à bordalesa, ou de escabeche, que nestas três artes se mantém ela tentadora e sápida”. 

Com o talento dos mais consagrados artistas, cozinheiro após pelar a lampreia coloca-a num alguidar deitando sobre ela água a ferver. De seguida, abre-a da cabeça até ao fundo dos buracos e, junto à cauda, desfere-lhe um golpe para lhe retirar a tripa inteira. O sangue é guardado no mesmo recipiente onde a lampreia fica a marinar mergulhada em vinho tinto a que se juntam um ramo de salsa, uma folha de louro, um dente de alho, pimenta, colorau, sal e margarina. No dia seguinte, é feito um refogado onde é colocada a lampreia que fica a cozer durante cerca de quinze minutos, cuidando para que não se desfaça. Após o guisado, retira-se a lampreia. Ao caldo junta-se água no triplo do arroz que vai ao tacho e deixa-se ferver durante mais quinze minutos. Finalmente, serve-se numa travessa funda, cobrindo o arroz com a lampreia, golpeada em troços. 

Apetece exclamar, como o fez o poeta Afonso Lopes Vieira: - Ó lampreia divina!

DÓLMEN DA BARROSA EM VILA PRAIA DE ÂNCORA É MONUMENTO NACIONAL

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O Dólmen da Barrosa, também conhecido por Lapa dos Mouros, situado em Vila Praia de Âncora, foi classificado como monumento nacional em 1910. Trata-se de um monumento megalítico da dos finais do neolítico e é constituído por um corredor e uma câmara de forma poligonal com 9 esteios sobre os quais assenta uma mesa com uma superfície com mais de 10 metros quadrados.

Caracterizado como um dólmen de corredor sem diferenciação entre este e a câmara funerária propriamente dita, o dólmen da Barrosa é considerado um dos monumentos megalíticos mais representativos da Península Ibérica.

Este monumento é particularmente importante não apenas do ponto de vista pedagógico e científico como ainda possui elevado interesse turístico e cultural, não sendo até ao momento devidamente aproveitado nesta vertente apesar de se encontrar localizado numa região de forte atracção turística.

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AI VERDINHO, MEU VERDINHO!

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Escultura do ceramista José Franco representando o deus Baco.

Fazendo juz ao rifão "pelo S. Martinho, vai à adega e prova o vinho", cumpre-se invariavelmente em Novembro o ritual dionisíaco do S. Martinho. É chegada a altura de inspeccionar os vinhos das últimas colheitas verificando se fermentaram como deviam. Mas é também tempo de magusto com castanhas assadas ou cozidas devidamente regadas com vinho novo, a água-pé e geropiga. Após as avés-marias, a taberna da aldeia adquire uma animação orgíaca muito peculiar que lhe é conferida pelo elevado número de fiéis que ali acorre enquanto o taberneiro, qual sacerdote dionisíaco que altivo se perfila por detrás da ara do balcão como se de um altar se tratasse, serve uma após outra sucessivas rodadas de verdasco numa inebriante comunhão eucarística. A taberna é nos nossos dias como que um templo dedicado a Baco onde o culto é praticado livremente pelos seus iniciados, embora expurgado dos excessos com que tais festins ocorriam ao tempo da Roma antiga. 

Como não podia deixar de acontecer, S. Martinho é bastante celebrado no nosso país, particularmente em localidades onde a tradição vinícola mais se faz sentir, algumas das quais lhe consagram inclusivamente feriado municipal. Alijó, Penafiel, Pombal, Torres Vedras e Golegã são disso alguns exemplos. É ainda à famosa lenda segundo a qual, S. Martinho de Tours vendo em pleno Inverno um pobre completamente despido tiritando de frio o agasalhou com metade da sua capa que cortou com a própria espada, que se atribui a origem do chamado "Verão de São Martinho" que geralmente ocorre nesta altura do ano. 

Uma vez provados os vinhos e realizados os tradicionais magustos, é também tempo colher a azeitona e levá-la ao lagar, de iniciar a sementeira do trigo e do centeio, plantar cerejeiras e amendoeiras, damasqueiros e videiras, semear os agriões e colocar estacas nas plantas que possam ser afectadas com os ventos fortes de inverno. Em breve chegará o Dezembro e com ele as festas solsticiais e do nascimento de Cristo, as filhozes e as rabanadas, a missa do galo e as zambumbas.

Fonte: http://www.folclore-online.com/

TIAGO DESPERTA SOLIDARIEDADE COURENSE

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Não, não é daqueles e-mail's que recebemos nem sabemos porquê, por quem nem como! Este, infelizmente, é bem real! O Tiago é filho de pais courenses e apesar de ainda nem ter um ano já sabe o que é a solidariedade! Naturais de Paredes de Coura e amigos estão solidários. Este é um caso que já galgou fronteiras...Podemos fazer esta criança...porque se fosse o seu filho, estou certa que também não cruzaria os braços!

E se fosse o seu filho...

Lembra-se daquela vez que o seu pé inchou tanto que mal consiga andar? Foram dias intermináveis, não foram? E daquela vez que tentou vestir aquelas tão belas calças e não conseguiu porque tinha uns quilinhos a mais? E daquela vez que chamou todos os nomes e mais alguns à menina da sapataria (não teve a ousadia de exteriorizá-los, é certo, mas quase rebentou de raiva) porque os sapatos lhe ficavam demasiado apertados? E aquela vez em que fez de tudo para aquele inchaço desaparecer – que apareceu não sabe bem de onde – mas que teimava permanecer...e a alegria que teve quando finalmente desapareceu? Pois é a essa alegria que vos venho apelar! Todos nós passamos por momentos que o nosso corpo nos agrada menos, mas na maioria dos casos é temporário! Agora imagine que o seu corpo cresce e cresce de tal forma desproporcionalmente que chega a um ponto que não o consegue suportar de tão pesado que é e que se coloca inclusive a hipótese de amputação! Mas...e se em vez do seu corpo, fosse o do seu filho ou de um familiar seu?

É do conhecimento de todos os courenses e amigos que o pequeno Tiago Gonçalves está a precisar de apoio de todos nós! Eu pessoalmente estou solidária! Porque não deve ser fácil viver na ansiedade de aguardar todos os dias a todos os momentos um telefonema que pode fazer toda a diferença na vida de um filho! Soube há uns dias que os pezitos do pequeno Tiago já não são proporcionais, um é maior que o outro de tal forma que o tamanho do sapato esquerdo já é diferente do do direito e que pode aumentar se nada for feito em tempo útil!

É com todo este cenário que apelo a todos que estejam presentes no próximo dia 13 de Novembro na sede da Casa Courense em Lisboa em mais uma manifestação de solidariedade. Que seja necessário ocupar todas as mesas, ocupar todas as cadeiras, vir comer para o terraço e apenas com um prato na mão! É necessário continuar a divulgar este caso, a depositar todas as esperanças no Hospital de Boston, a aguardar indicações que tudo vai correr bem. Sim porque eu acredito…eu acredito num milagre e que tudo é possível!

Medite apenas um pouco: já imaginou o que é uma criança não poder brincar, correr e fazer brincadeiras típicas de criança porque simplesmente o corpo não deixa? Até onde estaria disposto/a a ir se fosse o filho? Não “viraria o mundo ao contrário” em busca de uma solução? Deixaria de espalhar a sua causa? Não me parece que cruzaria os braços! Estes pais não os cruzaram e eu estou com eles!

Apareça e faça mais uma criança feliz! Acredite que essa felicidade vai transparecer nos olhos do pequeno Tiago, do irmão, dos pais, de toda a família e de todos aqueles que acreditam nesta onda de solidariedade presentes ou ausentes fisicamente neste almoço!

Porque para estes pais todos os minutos contam, não perca tempo e garanta já a sua presença.

Obrigada pela vossa atenção

Patrícia Rodrigues / Casa Courense em Lisboa

DEPUTADOS DA ASSEMBLEIA NACIONAL DEBATERAM EM 1950 A SITUAÇÃO DA AGRICULTURA NO MINHO

A propósito dos problemas da lavoura do Minho e, nomeadamente, da questão dos baldios no Distrito de Viana do Castelo, os deputados à Assembleia Nacional Elísio Pimenta e Manuel Rodrigues Basto, produziram duas interessantes intervenções na sessão realizada em 11 de Janeiro de 1950. A referida sessão foi presidida pelo Dr. Albino dos Reis. As referidas intervenções constam do Diário das Sessões nº. 13, de 12 de Janeiro daquele ano, referente à V Legislatura da Assembleia Nacional.

Apesar da sua extensão pouco apropriada para ser lida neste espaço, o seu interesse para a História da agricultura da nossa região leva-nos a publicá-los.

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O Sr. Elísio Pimenta: - Sr. Presidente: muito, mesmo muito, se tem falado nesta Assembleia da crise da lavoura alentejana.

Vai ainda ser discutido o aviso prévio do Sr. Deputado Galiano Tavares sobre a matéria. Esta insistência, aliás justificada pela gravidade e pela periodicidade das crises, perante o silêncio dos homens que aqui representam o Norte, poderá dar a entender que lá por cima tudo corre pelo melhor e que as populações de Entre Douro e Minho vivem na abundância, sem sentir sequer os efeitos do mau ano, que a todos atingiu por igual.

As causas, as razões da maior acuidade da crise nos distritos de Portalegre, Évora, Beja e Setúbal tem sido expostas aqui largamente, exaustivamente, mas, embora a gente do Norte esteja convencida, talvez erradamente, de que na base dessa crise existem problemas de ordem moral a resolver, não serei eu a meter a foicinha de lavrador minhoto na seara alentejana.

Se as estimativas do Instituto Nacional de Estatística não falham, a produção do milho no ano de 1949 sofreu uma quebra de 40 por cento em relação à média dos anos de 1938 a 1947. Isso quer dizer que, se levarmos em conta que essa média representa a produção normal, produção suficiente para satisfazer às necessidades do consumo, as populações do Norte, para as quais aquele cereal constitui a base da alimentação, não terão milho para mais de meio ano e, como se está a verificar, parte delas nem para tanto o terão.

Em muitas casas já os espigueiros estão vazios e se vai vendo o fundo às caixas. São os rendeiros ou caseiros, que não pagaram as rendas ou pensões, mal colheram para a semente e não possuem outros recursos. São os proprietários, que não receberam as rendas, as pensões e que, vivendo delas na sua maior parte, não gastam, não compram o que vai além do estritamente necessário, pois antes de tudo está o Estado com as suas contribuições e o grémio penhora-lhes os prédios se não pagarem as quotas.

Acontece com o gado até um caso curioso. O gado ovino e caprino – reserva indispensável das populações serranas – tem sido vendido quase ao desbarato por virtude da seca, mas também pela ocupação dos baldios pelos Serviços Florestais; o gado bovino não encontra comprador, embora apareça nas feiras com abundância, porque o racionamento e o tabelamento da Junta Nacional dos Produtos Pecuários, lhe restringe a venda. Isto é, por um Indo a lei da oferta e da procura e por outro, um organismo de coordenação económica não consentem que o lavrador tire do gado o preço que reputa justo para satisfazer as suas necessidades.

Quanto ao vinho, se é certo que a relativamente abundante colheita, de mais de 400:000 litros, de vinho verde poderia parecer suficiente para compensar a falta do cereal e a baixa do gado, a verdade é que está a ser vendido a preços que também não compensam o custo da produção. A preocupação do vinhateiro, neste momento, é vender, não só para fazer o dinheiro que precisa, como também com receio que se lhe estrague na adega, pois o amadurecimento das uvas foi prematuro, as vindimas fizeram-se com os calores do verão e, portanto, os mostos fermentaram a temperaturas inconvenientes. E os casos de vinho doente já vão aparecendo com frequência.

E cabe aqui, embora isso possa constituir assunto para mais largo desenvolvimento, uma justa referência à acção verdadeiramente notável exercida pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes na defesa deste vinho e dos viticultores o que ainda ultimamente se revelou no auxílio prestado aos técnicos do Ministério da Economia por ocasião da campanha de assistência à viticultura.

É certo, que, graças ao Governo, teremos este ano, e temos já e a tempo e horas, milho colonial em quantidade suficiente para compensar a quebra de produção continental. Mas, embora parecendo um paradoxo, é aí que reside essencialmente o problema do momento.

A abundância do milho colonial é um facto, o seu preço mantém-se no nível do preço do milho continental, o Governo e, especialmente, o Sr. Subsecretário do Comércio, a quem por isso presto as minhas homenagens, tom muito louvavelmente procurado afastar todos os entraves burocráticos a que estávamos habituados nestas ocasiões difíceis e ainda há dias lavrou um despacho que faz terminar com os monopólios na venda do milho. Mas a verdade é que não há dinheiro para o comprar.

O lavrador, porque não vendeu, não pode comprar, e daí o reflexo que já se vai sentindo na indústria e no comércio, sobretudo das regiões agrícolas do Norte.

Parece-me que é altura de o Governo intervir e parece-me também que é esta a magnífica oportunidade de os grémios da lavoura prestarem o necessário auxílio aos lavradores seus associados, reabilitando-se do pouco que nesse sentido até agora têm feito.

O Sr. Melo Machado: - A questão é que queiram aproveitar.

O Orador: - É por isso que peço a intervenção do Governo.

Sr. Presidente: mas eu desejo focar hoje em breves palavras um aspecto da economia do Alto Minho que está a tomar carácter de verdadeira gravidade.

Não é a primeira vez que o abordo e pode dizer-se que nestes dois ou três anos últimos por ele, por a sua justa solução, tenho lutado, infelizmente sem o menor êxito. E comigo muita gente da minha região e creio que de outras regiões do País e também baldadamente. Representações, exposições, ofícios, pedidos, e até súplicas, tudo tem ficado sem resposta. Em muitas câmaras municipais, e creio que até em governos civis, figura numerosa correspondência expedida sobre o assunto, mas julgo que nenhuma recebida em resposta. É o argumento do silêncio, à falta de outro, que é o que mais perturba, o que mais irrita. É a gente humilde e sofredora dessas serras da Peneda e do Soajo, das serras da Anta e da Arga, da serra Amarela, de Entre Vez e Coura e de outras partes mais, que, lutando heroicamente contra a ingratidão da terra e o desprezo dos outros homens, se mantém, apesar de tudo, fiel aos princípios eternos que nos guiam.

E por isso mesmo é que não são capazes de compreender que para se construir uma obra que se apregoa grandiosa, e à qual eles próprios reconhecem benefícios futuros -talvez para os seus filhos ou para os seus netos –, se destruam as riquezas do presente.

Eu já aqui ouvi falar que para o Sul os maus anos agrícolas o uma defeituosa organização económica e social estão a dar origem ao aparecimento da peste dos tempos modernos – o comunismo. Pois nessas regiões nortenhas, onde acima de tudo se procura viver em paz e na graça de Deus, o comunismo que nos aparece é bem diferente e vem dos tempos tão recuados que já as Ordenações do Reino o protegiam. É um comunismo agrário e pastoril, que as condições da terra lhe impuseram, pela exploração colectiva dos montes baldios, em forma de logradouro comum, para pascigo e matos. Pois é isso que se está a destruir, escusadamente, em ritmo acelerado, sem o menor respeito pelos direitos sagrados das populações e com prejuízo das suas economias e da própria economia nacional.

Em 1936, por virtude do Decreto n.º 27:207, procedeu a Janta do Colonização Interna ao reconhecimento dos baldios do continente, pertencentes ao Estado e aos corpos administrativos, tendo em atenção a natureza dos terrenos, a sua extensão e as regalias dos povos no que respeita à sua fruição. E no capítulo referente às características económicas, classificou esse reconhecimento os baldios, em relação à economia local ou dos seus usuários, em indispensáveis, importantes, úteis e desnecessários.

A Lei n.º 1:971, que estabeleceu as bases do povoamento florestal, mandou proceder a inquéritos para averiguar dos usos, costumes e regalias dos povos relativamente ao trânsito, aproveitamento de águas, posição de pastagens e utilização de lenhas e madeiras nos terrenos onde se pretendia fazer a arborização. Havia, portanto, ao que parecia e os povos acreditaram, a melhor intenção de respeitar os direitos, usos e costumes tradicionais, porque eles eram indispensáveis à vida e à subsistência dos povos serranos.

E toda a gente que no assunto tinha interesse se convenceu de que a obra do povoamento florestal se iniciaria pelos baldios desnecessários ao aproveitamento desses povos, deixando de parte, pelo menos numa primeira fase, aqueles que servissem de logradouro comum para pastagens e roço de matos, e que são indispensáveis à conservação dos bens agro-pecuários explorados individualmente.

E mais se radicou no espírito dessas pessoas que assim necessariamente se fazia, pois o Código Administrativo do 1940, posterior à Lei n.º 1:971, é claro e terminante quando diz que os baldios aproveitados como logradouro comum pelos moradores de algum concelho ou freguesia, e se considerem indispensáveis à economia local, continuariam a ter o mesmo carácter e destino.

O Código Administrativo é, porém, letra morta, como letra morta foram as reclamações feitas pelos povos nos inquéritos, que de inquéritos só tiveram o nome, pois não passaram de pura formalidade.

O Sr. Pinto Barriga: - V. Ex.ª dá-me licença?

A autonomia dos Serviços Florestais vai mais longe do que uma simples autonomia administrativa: tornaram-se autónomos das próprias leis deste país, voltam as costas à economia agrícola regional e até portuguesa, desprezando mesmo os próprios ensinamentos da economia florestal. Na generalização do debate de um aviso prévio que V. Ex.ª deve anunciar o assunto será tratado mais largamente.

O Orador: - O assunto vai efectivamente ser tratado oportunamente em aviso prévio pelo Sr. Deputado Pinto Basto e por mim.

Tenho aqui à mão os originais e algumas cópias desses documentos, referentes a alguns concelhos do distrito de Viana do Castelo. Depois de uma exposição em que um senhor engenheiro silvicultor encareceu as vantagens da arborização dos baldios e dos grandes benefícios que com ela os povos viriam a receber, encontra-se em todos eles, pelas vozes dos presidentes das juntas, regedores e até de alguns párocos, o protesto de que estavam dispostos a receber tais benefícios desde que lhes fossem respeitados os direitos tradicionais indispensáveis à sua vida.

E quando se poderia julgar, ao menos, que o povoamento começaria pelos pontos altos das serras, na maioria dos casos sem interesse para a agricultura local, fez-se precisamente o contrário: ocuparam-se largas zonas dos terrenos mais férteis para mato e pastagens, fecharam-se, bloquearam-se povoações, retirando-se-lhes e tapando-se-lhes as vias de trânsito para os montes não ocupados e até para as propriedades particulares, cortou-se o acesso às águas, proibiu-se a apascentação dos rebanhos e condicionou-se o roço do mato e do tojo e estabeleceu-se o regime onde a lei o não autorizava, pois, tendo sido sujeitas ao regime florestal por decreto quatro freguesias do concelho de Vila Nova de Cerveira, os agentes dos Serviços ocuparam mais algumas e construíram até nelas casas para habitação dos guardas.

Isto é, olhou-se para a comodidade do serviço, da sua execução, e desprezou-se uma riqueza. E as matas e pinheirais semeados e plantados com extremo carinho por sucessivas gerações e que constituíam o sustento dos mais pobres e o rendimento com que as juntas de freguesias iam melhorando as condições de vida dos vizinhos?

Ai não se promoveu o povoamento florestal, porque ele já estava feito há muitos anos – o que mostra bem que a solução do problema da arborização dos baldios deveria ter sido outra –, não foi necessário plantar ou semear árvores, porque os Serviços Florestais já as encontraram plantadas e nascidas.

É para mim um dos aspectos mais impressionantes do problema.

Aquilo que havia sido construído com o amor que o nosso povo tem às coisas da terra, que constituía o património colectivo, formado e criado através de dezenas de anos, e uma riqueza onde os pobres iam procurar o fogo e o calor, e os matos e os pastos, e todos eles os rendimentos para construírem e beneficiarem os caminhos, para explorarem águas de consumo e de rega e até, como na freguesia de Covas, do concelho de Vila Nova de Cerveira, para pagarem a electrificação da freguesia - de tudo isso os Serviços Florestais se apossaram.

O Sr. Carlos Borges: - V. Ex.ª dá-me licença?

Os baldios já estavam arborizados?

O Orador: - Já estavam arborizados.

O Sr. Pacheco de Amorim: - É o caso de Covas, do pinhal de Covas.

O Orador: - Foi precisamente dele que falei e tenho o maior prazer em saber que V. Ex.ª conhece o problema.

A verdade, sem o mais leve artifício ou exagero, é que a continuar a ocupação das serras do Alto Minho no ritmo destes três últimos anos, dentro em breve pouco restará para a subsistência dos seus habitantes, pois a produção das próprias terras de cultivo ficará reduzida a muito pouco, por falta de adubação.

Foi o próprio inquérito da Junta de Colonização interna que nos disse e tornou público que na zona serrana dos concelhos de Melgaço, Monção, Arcos de Valdevez, Paredes de Coura e Ponte da Barca – e eu acrescento: Caminha, Viana do Castelo e Ponte de Lima:

Tem particular importância a criação de gados, em regime pastoril, nas terras baldias, que em muitos desses concelhos constitui o exclusivo recurso das populações serranas;

Que para a grande produtividade das terras contribuem fortemente as adubações orgânicas, feitas com mato recém-cortado ou transformado em estrume, que o minhoto aproveita com a maior diligência;

Que à bouça, ou ao monte, ou ao montado recorre o lavrador do Minho para obter o mato com que fabrica os estrumes indispensáveis à correcção física e ao enriquecimento químico-orgânico das terras de cultura, constantemente depauperadas pelo regadio;

Que na colonização ou aproveitamento florestal se deve atender às necessidades de mato e pastagens da economia local.

Pois a nada ou a pouco se atendeu.

Os rebanhos, e com eles o gado bovino e cavalar, estão a desaparecer, com grave prejuízo para a economia nacional.

Só num lugar de um dos concelhos em causa – e não vale a pena citar-lhe o nome, porque é o caso de muitos outros – consegui averiguar, com dados que me merecem a maior confiança, que de 600 cabeças de «rês» -gado ovino e caprino - restam pouco mais de 50 e que as 200 cabeças de gado bovino, que só no monte podiam viver, estão reduzidas a metade.

Os roços dos matos fazem-se em condições muito, precárias. Não só estão condicionados a licenças e autorizações, como, na maioria dos casos, torna-se impossível transportá-los, por haverem sido fechados com as plantações os caminhos dos montes.

Eu não quero referir-me hoje, o gostaria de não mais ter de voltar ao assunto, à maneira como o povoamento florestal se tem feito. Mais de 50 por cento das árvores plantadas morrem ou são plantadas como aspecto de já estarem mortas. E não se repovoam as covas das que morreram.

Segue-se para a frente, ocupa-se mais terreno e os terrenos onde, no dizer dos técnicos, no fim de cinco anos os gados poderiam pastar novamente – eu duvido, e tenho razões para isso – só no fim de dez ou vinte anos servirão para tal.

Alguém que conhece bem o problema definiu-o assim: o povoamento florestal, tal como se está a fazer nos montes e serras do Alto-Minho, constituirá um dia uma riqueza conseguida, com largos meios financeiros, à custa de uma riqueza presente.

Ora, eu não tenho dúvida nenhuma em afirmar que o desperdício desta última riqueza é absolutamente escusado.

O que se está a fazer representa um verdadeiro atentado contra a economia nacional e briga com os princípios morais que nos orientam.

O Governo ignorava até este momento o que se está a passar, porque doutra forma não o consentiria.

Mas agora, que não o ignora, porque o problema foi tratado na Assembleia Nacional, vai com certeza ordenar a revisão do problema, com audiência dos representantes das populações interessadas, para que a paz e a tranquilidade voltem a reinar entre aqueles que através de tudo nunca duvidaram da justiça do Estado Novo.

Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Manuel Domingues Basto: - Sr. Presidente: vários motivos me levaram a rogar a V. Ex.ª me inscrevesse como orador antes da ordem do dia na sessão de hoje.

(…)

Outro motivo, Sr. Presidente, que me levou a pedir a V. Ex.ª que me inscrevesse como orador no período de antes da ordem do dia foi o ter ouvido aqui tratar do problema da lavoura do Minho, porque sou minhoto e porque fui eleito Deputado pelo circulo de Braga. Como velho paladino da lavoura, apraz-me registar o sintoma consolador, que talvez tenha sido motivo de ironia para muitos, de que a actual legislatura é demasiadamente agrária.

Eu creio, Sr. Presidente, que isto só pode ser um elogio para os Srs. Deputados que fazem parte da actual legislatura. A lavoura, sobretudo nos países, como Portugal, que são de economia dominantemente agrícola, é a «raiz da propriedade pública», e, morta a raiz, toda a árvore seca e toda a economia se vai abaixo. Por vezes esquece-se que temos de nos sujeitar a este condicionalismo agrícola quando se elaboram mirabolantes planos de economia. O lavrador, além de produtor, é também um grande consumidor do comércio e da indústria, e quando o poder de compra falta ao lavrador toda a economia se ressente.

Ditas estas coisas, Sr. Presidente, que são princípios gerais, e porque já muitos oradores usaram da palavra antes da ordem do dia e o meu ilustre colega Dr. Elísio Pimenta tratou já admiravelmente o problema da crise da lavoura minhota, eu queria fazer aquilo que em jornalismo se chama «sublinhado» a certas afirmações daquele meu colega.

Eu e o Sr. Deputado Elísio Pimenta temos em nosso poder uma documentação que farte para provar a triste situação, as dificuldades de vida, a quase impossibilidade de viver de certas povoações serranas em virtude da maneira, não como foi instituído, mas como está a ser executado o actual regime florestal.

Sr. Presidente: como minhoto e paladino da lavoura minhota associo-me e sinto as necessidades do Alentejo, e foi com interesse que acompanhei os paladinos da lavoura alentejana que aqui levantaram a sua palavra para se dar remédio à crise alentejana. Mas seja-me lícito dizer com a franqueza do minhoto – de minhoto que tudo sabe dar e, por ser franco e expansivo como a paisagem, tanto dá o coração ao que caiu em desgraça como dá com um pau ao que tenta agredi-lo –, seja-me lícito dizer, repito, que para se resolver o problema da lavoura nacional não basta atender às necessidades desta ou daquela província, mas tem de se atender a todos os sub-problemas que são partes essenciais do problema agrícola o agrário da Nação.

Do Minho tem-se tido menos cuidado porque é pobre, e a gente pobre é mais sofrível, e, por não ter por vezes nem cultura nem dinheiro para se deslocar a Lisboa e aparecer nos Ministérios, sucede-lhe o mesmo que àqueles que, não se fazendo lembrar, são mais facilmente esquecidos. A lavoura minhota é, de facto, a mais esquecida porque nada tem feito para ser lembrada.

O meu ilustre colega Dr. Elísio Pimenta tratou admiravelmente o problema, e eu quero, na pessoa de Elísio Pimenta, felicitar aqui os funcionários públicos que, como ele, além de burocratas, tem também alma e se interessam pelas necessidades da sua região. Elísio Pimenta é um funcionário em Monção, terra a que me honro de pertencer e na qual me não encontro porque o meu superior hierárquico entendeu que devia prestar serviço em outra região da arquidiocese de Braga. Mas Elísio Pimenta sente como eu o como muitos funcionários as necessidades da terra minhota e a justiça que assiste à sua população. Apresso-me aqui a saudá-lo e a todos aqueles que cumprem o seu dever.

Ao falar de lavoura, e em particular da lavoura nortenha, faltaria a um dever se não lembrasse a pessoa do Sr. Coronel Linhares de Lima, que, quando Ministro da Agricultura, não esqueceu a agricultura da pobre região minhota.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Creio que o problema em discussão tem de ser tratado mais desenvolvidamente. E, com a documentação que temos, eu e o Sr. Deputado Elísio Pimenta teremos de apresentar talvez um aviso prévio, afim de que se generalize o debate e possam considerar-se todos os aspectos do problema agrícola e do problema económico português em relação com a agricultura.

Há nas afirmações do Sr. Deputado Elísio Pimenta alguma coisa que quero sublinhar.

Em primeiro lugar, disse S. Ex.ª que há hoje milho colonial em abundância no Norte, e é verdade. Mas de que serve haver milho colonial se não há poder de compra da parte dos pobres lavradores e dos pequenos proprietários, que quase só por ironia se podem chamar proprietários, porque mal tiram das suas terras o necessário para sustentar as suas famílias?!

Fez S. Ex.ª justiça à acção do actual Subsecretário de Estado do Comércio, engenheiro Jorge Jardim, e quero também fazer-lhe essa justiça, porque S. Ex.ª remediou muitos males e corrigiu muitos erros que se tinham praticado até ali na maneira de distribuir o milho. Ou eu não entendo nada da organização corporativa, ou me parece que, havendo organismos corporativos da lavoura, é através desses organismos que se há-de fazer a distribuição do milho ao lavrador que dele carece.

Não o reconhecer é enfraquecer a organização corporativa e não lhe dar o lugar a que tem direito na economia do País.

No regime anterior à actuação do Sr. Engenheiro Jorge Jardim eram negociantes endinheirados, que pelo seu dinheiro eram capazes de financiar o milho, os que mandavam e que tinham quase o monopólio da sua distribuição.

Isto não faz sentido em boa organização corporativa.

O Sr. Elísio Pimenta: - Há um despacho do Sr. Subsecretário de Estado do Comércio o Indústria de há dias que resolve completamente o problema, evitando os monopólios do milho.

O Orador: - O Sr. Deputado Elísio Pimenta já me tinha falado de que nesse ponto o Sr. Engenheiro Jorge Jardim quis acautelar o público da ganância na distribuição, publicando uma circular nesse sentido.

Agora as coisas estão melhor organizadas e só a certos negociantes é que se concede o direito de distribuir o milho.

Os grémios da lavoura, que são associações profissionais do lavrador, devem ser os preferidos para a distribuição do milho ao lavrador.

Quanto ao problema florestal, temos de distinguir entre as intenções do Governo ao decretar o repovoamento florestal e a maneira como têm sido executadas as leis publicadas nesse sentido.

Mais ainda: quero fazer outra distinção, porquanto não gosto de ser injusto. Quero fazer justiça à intenção dos que executaram as leis do regime florestal, mas entendo que se acantonaram demais dentro do serviço de repovoamento florestal, prejudicando outras culturas mais necessárias à vida das populações serranas onde o regime florestal está a ser executado.

Para se ver as injustiças que só cometem eu cito alguns factos:

Há logradouros que por lei não podem ser aforados nem sujeitos ao regime florestal. Pois, apesar disso, quem actua na execução das leis do regime florestal proíbe que as populações se sirvam dos logradouros, ficando sem terem onde rachar as suas lenhas, sem terem onde apascentar os seus gados, quer dizer, ficando com a sua actividade quase paralisada.

Mais ainda: há terrenos particulares omissos no cadastro matricial, que, por isso, foram sujeitos ao regime florestal. Os particulares possuem esses terrenos desde tempos imemoriais, mas não podem hoje apresentar títulos que provem que lhes pertencem, e sucede que sem respeito de espécie alguma por um direito imemorial, e o costume faz lei...

O Sr. Braga da Cruz: - Há uma decisão judicial numa comarca do Norte que reconhece o direito de propriedade a determinados indivíduos, direito este que não foi depois reconhecido nem sancionado pelos Serviços Florestais, o que representa o desrespeito da justiça em Portugal.

O Orador: - A intervenção de V. Ex.ª só vem dar força às minhas considerações.

Mas há mais: há matas que pertencem às juntas de freguesia com cujos rendimentos elas realizavam os melhoramentos nas suas paróquias.

Pois, sem respeito pelos direitos das juntas de freguesia, os Serviços Florestais apossaram-se dessas matas, cortando à vontade a plantação e chamando-lhe coisa sua!

Há ainda mais: é da lei que o particular que faz plantações nos baldios tem direito a abater as árvores e a aproveitar-se da lenha dessas mesmas árvores que plantou.

Ora sucede que muitos montes já tinham arborização. Essas árvores pertenciam, pois, a particulares, que fizeram aquilo que o Estado já não tinha de fazer, não se compreendendo, pois, que o Estado se aposse daquilo que lhe não pertence nem que tenha de arborizar o que já está arborizado.

Ainda mais, Sr. Presidente e Srs. Deputados: para pôr em prática ou em execução o regime florestal de harmonia com a lei que o regula arbitrou-se que se abonariam 00$ às câmaras municipais e às juntas de freguesia por cada hectare de terreno.

Ora tem acontecido coisas como estas: havia terrenos já com arvoredos. Algumas das árvores do terreno caíram com o último ciclone, dando 40 ou 50 contos de rendimento às freguesias e juntas de paróquia. Pois esses terrenos são pagos pelo regime florestal à base de 50$ por hectare, quando tinham lá árvores que valiam dezenas de contos.

Eu vou terminar, Sr. Presidente, porque creio que já vai passada a hora de se usar da palavra antes da ordem do dia. E termino com uma recordação das minhas leituras. E a recordação é esta: num momento de vagar vieram-me às mãos as memórias do marechal Lyautey, e o marechal Lyautey, que era um assombroso organizador, diz-nos nessas memórias que foi encarregado pelo Governo Francês de organizar os correios em África.

Levou regulamentos que o Governo Francês da metrópole lhe dera e segundo os quais devia organizar os correios em África.

Organizador como era, cônscio da sua responsabilidade, sabendo o que fazia, o marechal Lyautey começou o seu trabalho com os ajudantes que o Governo lhe dera.

E é ele que confessa nas suas memórias que a primeira coisa que teve a fazer para organizar os correios em África foi rasgar os regulamentos que o Governo lhe mandara da metrópole. Quer isto dizer que é necessário ter um critério inteligente da aplicação da lei e que esta se faz para o bem comum. Os próprios regulamentos do regime florestal dizem que devem fazer-se inquéritos para conhecer as dificuldades das respectivas populações e o seu modo de vida e respeitá-lo.

Eu sei que com más leis se podem fazer coisas excelentes, mas é necessário que não atropelemos as leis boas e que não acarretemos ódios para leis que tinham em vista enriquecer e dar melhores condições às populações rurais, ou, precisando mais, às populações serranas. Numa exposição feita por um advogado, da qual tenho uma cópia em meu poder, termina-se desta maneira: «e é para isto que, graças a Deus, temos Salazar – para andar muita gente que executa as suas leis a estragá-las e a diminuir a sua obra».

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

AS LINDAS E AMOROSAS MULHERES DO MINHO

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Com o sugestivo título "Mosaico regional -- As lindas e amorosas mulheres do Minho", publicou a revista Ilustração nº 118, de 16 de Novembro de 1930, um artigo de António Guedes de Amorim, com fotos de António da Silva, do qual se transcreve a seguinte passagem: "Nesta província, a côr é a imperatriz das atitudes, dos costumes, do trabalho. O desenho dos corpos das mulheres, desenho nacional, desenho bem português, tem linhas fortes e elegantes. O corpo de certas minhotas é uma obra de arte, realizada por um artista de génio. Por cima dêsses corpos, em pinceladas caprichosas de guarnições, abre-se a indumentária, sempre fresca, viçosa, sempre colorida, sempre em festa."

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