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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ESTARÃO OS MINHOTOS CONDENADOS A ERRAR PELO MUNDO?

Carlos Gomes

In Jornal “NOVO PANORAMA” nº62, de 9 de Fevereiro de 2012

O homem é o capital mais precioso. Ainda que possa beneficiar das remessas enviadas pelos seus emigrantes, o êxodo populacional jamais favorece o desenvolvimento económico do país que vê partir a sua melhor força de trabalho, geralmente constituída por população mais jovem e, não raras as vezes, por mão-de-obra especializada e com elevada formação como actualmente está a suceder em Portugal. Vem isto a propósito da afirmação recente do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Dr. Miguel Mestre, que perante a comunidade portuguesa em São Paulo, no Brasil, defendeu que os jovens portugueses deveriam “sair da zona de conforto” e emigrar.

Desde há muito tempo que o Minho vê os seus filhos partir para o estrangeiro à procura de melhores condições de vida, com as naturais consequências humanas e sociais que a emigração implica, pelo que a afirmação do governante não nos podia deixar indiferentes.

Desde meados do século XIX que os minhotos, incluindo aqueles que nasceram nestas terras do Vale do Lima, partiram em levam sucessivas para o Brasil, quantas vezes viajando clandestinamente nos porões dos navios arriscando a sua própria sobrevivência, para escapar à miséria que grassava nos campos e às políticas desastrosas dos sucessivos governos da Monarquia Constitucional e, posteriormente, da Primeira República que levaram o país à falência e à ditadura militar. Depois, seguiram-se outros destinos como os Estados Unidos da América, a Venezuela, a Austrália e, mais recentemente, França, Suíça, Alemanha, Luxemburgo e Andorra.

Aqueles que não partiram para o estrangeiro rumaram até Lisboa onde, nos primeiros tempos, experimentaram a maior dureza na descarga do carvão nos terminais ferroviários de Alcântara e Poço do Bispo e as agruras de uma existência miserável nas carvoarias dos irmãos galegos amassando “bolas” de carvão. Outros, ainda, preferiram os antigos territórios ultramarinos para começarem uma vida nova, muitos deles seduzidos durante o cumprimento do serviço militar. Com a descolonização, muitos deles não regressaram à sua terra natal, tendo escolhido a República da África do Sul e outros países como novo destino. Agora, em pleno século XXI, numa altura em que nos prometeram um paraíso na Europa onde corria o leite e o mel, eis que um jovem político veio dizer aos minhotos e aos portugueses em geral para voltarem a emigrar, não se atrevendo contudo a indicar a União Europeia como destino…

Perante tão descabida quanto desastrosa atitude como a que foi assumida pelo referido governante, apenas nos cabe das suas palavras concluir que o governo de que faz parte reconhece implicitamente o seu falhanço, não possui uma solução para o país e, como tal, não lhe resta outra alternativa do que sugerir aos portugueses que abandonem o seu próprio país!

Este apelo lançado pelo Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Dr. Miguel Mestre, parece complementar outro não menos eloquente proferido pelo Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, por ocasião das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, dirigido aos jovens para que estes regressem à agricultura e contribuam para repovoar as regiões do interior.

Desde a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, os sucessivos governos têm vindo a promover o desmantelamento das estruturas produtivas da agricultura portuguesa, a encerrar escolas, centros de saúde e hospitais nas regiões do interior. Através da reforma da Política Agrícola Comum (PAC), impuseram-se cotas que impedem o aumento da produção agrícola e distribuíram-se subsídios a fundo perdido para arrancarem a vinha e outras culturas. Os agricultores que ainda resistem debatem-se com as dificuldades de escoamento dos seus produtos incapazes de concorrer com os produtores estrangeiros que invadem o mercado português. Na nossa região, encerraram-se fábricas de lacticínios, postos de recolha de leite e ameaça-se de falência os Estaleiros Navais de Viana do Castelo. As populações de Valença, Monção, Melgaço, Paredes de Coura e outras localidades estão condenadas a deslocarem-se à Galiza para obterem assistência médica.

Ao longo destes anos, fizeram-se constantes apelos à competitividade e argumentou-se que uma reduzida taxa de ocupação de mão-de-obra no sector primário ou seja, na agricultura, pescas e indústrias extractivas era sinal de desenvolvimento económico, confundindo desse modo a causa e o efeito. E, em consequência dessa visão errada, promoveu-se o despovoamento mas a agricultura não registou evolução tecnológica, até porque não podia comprometer as cotas de produção impostas pela Política Agrícola Comum (PAC).

Perante tão desconchavadas intervenções – do Presidente da República apelando ao repovoamento agrário por parte dos jovens e do referido Secretário de Estado fazendo o apelo a que abandonem o país! – mais não nos resta concluir que Portugal não possui estadistas e políticos à altura de governar e resolver os problemas neste momento particularmente difícil para a nossa vida colectiva. E, em lugar de forçar os minhotos a emigrar uma vez mais, seria mais adequado mandar o governo para o exílio!

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