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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PAREDES DE COURA: A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES

O escritor Aquilino Ribeiro, porventura o maior romancista português do século XX, descreveu de forma notável a vida rural em Paredes de Coura e o ambiente e sensações vividas na “Casa Grande de Romarigães”, local onde ele próprio residiu.

Situada na Freguesia de Romarigães, a sudoeste do concelho de Paredes de Coura, a limitar com o vizinho concelho de Ponte de Lima, é um edifício oitocentista classificado pelo IPPAR, formado pela casa de habitação propriamente dita por portal armoreado, a Capela de Nossa Senhora do Amparo e diversos conjuntos escultóricos como carrancas, frontões, volutas e outros motivos artísticos.

De uma grande riqueza vocabular, transcreve-se algumas passagens da obra do escritor dedicada àquele espaço.

“Depois de anos e anos em Paris, de correr à deriva como barco num golfo, sem grandes embates nem quebrantos, deixando-se flutuar, Hilário Barrelas veio surdir naquele rincão do Alto Minho. Vira aquela menina dos olhos grandes, castanhos e leais, e amou-a. Quando, por morte do avô conselheiro, visitou a Casa Grande, com as ruínas da gloriosa Nossa senhora do Amparo a consumir-se, mas sempre de imarcescível beleza, ficou deslumbrado. E, uma vez que o património se repartia, e os herdeiros, mais escabreados, testos e absurdos que lobos famintos, se lançavam uns sobre os outros, disse para sua mulher:

- Fica em Romarigães, na bela ruína do Amparo.

Tinha caído o telhado na linda capela, os caseiros queimaram as portas, a talha do altar e do coro, e deixaram desaparecer imagens e painéis. No solar uma das paredes da construção filipina esbarrigara e acabou por dar em terra. Pelos telhados entrava água como por cestos rotos e as tábuas do soalho, se lhes punham em pé em cima, rangiam e estalavam, escancarando-se em precipícios traiçoeiros para as lojas. Para cúmulo, o Estado tomara conta do salão principal para aula de primeiras letras, o salão onde D. Telmo de Montenegro, o verdadeiro, o espanhol, o quixotesco, dera festas de truz às duas fidalguias de Minho e Galiza. Não restava um alizar direito nem uma janela intacta. Os móveis, que eram de estilo, carregara-os um ferro-velho para o Porto por tuta-e-meia. De gorra com um caseiro ladro e tramposo, os netos do Conselheiro haviam alienado águas que pertenciam às quintas e procederam a derrubadas consecutivas na mata, em cujas brenhas se caçara o javali, sempre que tinham necessidade de dinheiro para as suas pândegas, encalvecendo-a miseravelmente. De modo que o homem dos espaços abstractos, o sonhador, o Hilário Barrelas das midinettes da Ru Gay Lussac, só encontrou verdadeiramente incólume o olhar puro de Nossa Senhora do Amparo. Mas tanto bastou, ajudado duma mirada angustiosa do Cristo setecentista, que assistia na fumareda da casa dos caseiros a suas rixas e bodeganas, para se declarar rendido”.

Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães

A Casa Grande de Romarigães. Foto: http://diasquevoam.blogspot.com/