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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PINTORA BEATRIZ LAMAS OLIVEIRA EVOCA NA TELA E NAS PALAVRAS MEMÓRIAS DA QUINTA DO ANJO S. MIGUEL, EM BRAGA

A pintora bracarense Beatriz Lamas Oliveira produziu quatro aguarelas que retratam a Quinta do Anjo S. Miguel, na Freguesia de Ferreiros, em Braga. São bastantes e felizes as memórias que guarda do local onde passou momentos alegres de infância. As aguarelas encontram-se na posse da família. Porém, aceitou partilhar as lembranças com os leitores do BLOGUE DO MINHO a quem concede também a possibilidade de ver aqui as reproduções fotográficas das referidas aguarelas.

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“A quinta foi local de veraneio e brincadeira de mais de 20 crianças da família. A Quinta do Anjo S. Miguel fica na freguesia de Ferreiros, Concelho de Braga. Foi onde nasci!

O nome da freguesia deriva do facto de aqui terem existido forjas romanas. O meu avô Vidal herdou a Quinta de uma madrinha! A Rua que passa junto ao portão e segue depois para o interior da freguesia tem o nome do meu Avô: Rua José Vidal da Costa.

Era o nosso poiso de Verão. Na quinta havia e ainda há lagar de vinho, tulhas e adega, casa dos caseiros. Há uma capela onde, no dia 29 de Setembro, se celebra a Missa de S. Miguel. Produzia-se vinho. Havia um olival, muitas árvores de fruto, hortas e flores. Um lago chamado a Carranca, datado de 1821. No pinhal, até às vezes dormíamos a sesta. Levávamos um ou dois cobertores para estender no chão, umas quantas almofadas e o lanche, geralmente pão com marmelada e bananas. Apanhávamos caruma para o lume, o que fazia-nos sentir úteis! Também havia colmeias e abelhas...

Lá em cima, na casa dos caseiros havia galinheiros, coelheiras, o curral do porquinho, os estábulos das vacas de leite, os bois de carro e até havia um alambique onde se produzia aguardente. Eu reverenciava o alambique pois parecia um laboratório e era trabalho muito sério. Claro havia sempre cães de guarda. Lembro-me bem do Mondego!

Foi na quinta e sem esfoço nenhum que aprendemos coisas tão interessantes como sulfatar as vinhas e vindimar no alto das escadas. Comer broa com sardinha a pingar no pão durante a vindima e escorropichar os copos dos mais velhos. Aprender a diferença entre as pencas e as couves tronchudas...debulhar ervilhas e desfolhar o milho. A grande sensação de pertença que era uma grande roda de mulheres sentadas no chão a desfolhar as espigas, os chapéus de palha, as saias rotas e compridas e as malgas do vinho.

Apanhar sardaniscas, correr atrás das borboletas, admirar pirilampos, o susto das cobras...o meu cágado Ameixa e o calor do Verão. Andar primeiro de triciclo e depois de bicicleta.

Fazer marmelada e geleia, acender a lareira grande da cozinha, encher a goela dos perus de vinho fino e vê-los bêbados a dançar no chão prestes à degola, amolar as facas e acender o lume no fogão de lenha...

Matar o porco e aprender anatomia...chamuscar a pele do dito, os alguidares cheios da carne para o sarrabulho, cortar o sangue com vinagre.

A quinta? uma escola, uma festa, uma lonjura, um mundo.

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